sábado, junho 23, 2007

O sinal

Era uma vez um sábio chamado Sidi Mehrez. Estava irritadíssimo com o lugar onde vivia, uma linda cidade à beira do Mar Mediterrâneo; homens e mulheres viviam de maneira depravada, e o dinheiro era o único valor importante. Como Mehrez era também Santo e fazia milagres, resolveu amarrar seu cachecol em torno de Tunis e atirá-la no oceano.

Os edifícios começaram a cair, o chão se levantou, os habitantes entraram em pânico, ao ver que estavam sendo empurrados em direção a morte. Desesperados, resolveram pedir ajuda a um amigo de Mehrez, chamado Sidi Ben Arous. Ben Arous conseguiu convencer o rigoroso Santo a interromper a destruição; mas desde então todas as ruas de Tunis são inclinadas.

Caminho pelo bazar desta cidade africana, trazido pelo vento desta peregrinação com a qual celebro os 20 anos do meu caminho de Santiago (1986). Estou com Adam Fathi e Samir Benali, dois escritores locais; a quinze quilômetros estão as ruínas de Cartago, que no passado remoto foi capaz de enfrentar-se com a poderosa Roma.

Passamos por um lindo edifício: em 1754, um irmão matou o outro. O pai de ambos resolveu construir este palácio para abrigar uma escola, mantendo viva a memória de seu filho assassinado. Comento que, ao fazer isso, o filho assassino também seria lembrado.

- Não é bem assim – responde Samil. - Em nossa cultura, o criminoso divide a culpa com todos que lhe permitiram cometer o crime. Quando um homem é executado, aquele que lhe vendeu a arma é também responsável diante de Deus. A única maneira do pai corrigir que considerava seu erro, foi transformando a tragédia em algo que possa ajudar os outros: ao invés da vingança que se limita ao castigo, a escola permitiu que a instrução e a sabedoria pudessem ser transmitidas há mais de dois séculos.

Em uma das portas da antiga muralha há uma lanterna. Fathi comenta o fato de eu ser um escritor conhecido, enquanto ele ainda luta por reconhecimento:

- Aqui está a origem de um dos mais célebres provérbios árabes: “a luz ilumina apenas o estrangeiro”.

Digo que Jesus fez o mesmo comentário: ninguém é profeta em sua própria terra. Tendemos sempre a valorizar aquilo que vem de longe, sem jamais reconhecer tudo de belo que está ao nosso redor.

Entramos em um antigo palácio, hoje transformado em centro cultural. Meus dois amigos começam explicar-me a história do lugar, mas minha atenção foi completamente desviada pelo som de um piano, e começo a seguí-lo pelos labirintos do edifício. Termino em uma sala onde um homem e uma mulher, aparentemente alheios ao mundo, tocam a “Marcha Turca” a quatro mãos. Lembro-me que alguns anos atrás vi algo semelhante – um pianista em um centro comercial, concentrado em sua música, sem prestar atenção às pessoas que passavam falando alto ou com o rádio ligado.

Mas aqui estamos apenas nós três e os dois pianistas. Posso ver a expressão no rosto de ambos: alegria, a mais pura e completa alegria. Não estão ali para impressionar nenhuma platéia, mas porque sentem que foi este o dom que Deus lhes deu para conversarem com suas almas. Por conseqüência, terminam também conversando as almas de Adam, Samil, Paulo, e todos nós nos sentimos mais próximos do significado da vida.

Escutamos em silêncio durante uma hora. Aplaudimos no final, e quando volto para o hotel, fico pensando na tal lanterna.

Sim, pode ser que ela apenas ilumine o estrangeiro, mas será que isso faz tanta diferença quando estamos possuídos por este gigantesco amor pelo que fazemos?

Graças a Deus, a sala está lotada para a conferência neste país africano. Deveria ser apresentado por dois intelectuais locais; nos encontramos antes, um deles tem um texto de dois minutos, o outro escreveu uma tese de um quarto de hora sobre o meu trabalho.

Com muito cuidado, o coordenador explica que é impossível a leitura da tese, já que o encontro deve durar no máximo 50 minutos. Imagino o quanto ele deve ter trabalhado no seu texto, mas penso que o coordenador tem razão: estou ali para conversar com meus leitores, esse é o principal motivo do encontro.

Começa a conferência. As apresentações duram no máximo cinco minutos, e tenho agora 45 minutos para um diálogo aberto. Digo que não estou ali para explicar nada, o interessante seria tentar estabelecer um diálogo.

Vem a primeira pergunta, de uma jovem: o que são os sinais que tanto falo em meus livros? Explico que é uma linguagem extremamente pessoal que desenvolvemos ao longo da vida, através de acertos e erros, até que entendemos quando Deus está nos guiando. Outro pergunta se foi um sinal que me trouxe a este país longínquo, eu digo que sim – estou fazendo uma viagem de 90 dias para celebrar meus 20 anos de peregrinação pelo Caminho de Santiago.

Continua a conversa, o tempo passa rapidamente, e preciso terminar a palestra. Escolho ao acaso, no meio de 600 pessoas, um homem de meia-idade, com um grosso bigode, para a pergunta final.

E o homem diz:

- Não quero fazer nenhuma pergunta. Quero apenas dizer um nome.

E diz o nome de uma pequena ermida, que fica no meio de lugar nenhum, há milhares de quilômetros do lugar onde me encontro, onde um dia eu coloquei uma placa agradecendo um milagre. E onde fui, antes desta peregrinação, pedir que a Virgem protegesse os meus passos.

Eu já não sei mais como continuar a conferência. As palavras a seguir foram escritas por Adam Fethi, um dos dois escritores que compunham a mesa:

“E de repente o Universo naquela sala parecia ter parado de mover-se. Tantas coisas aconteceram: eu vi suas lágrimas. E eu vi as lágrimas de sua doce mulher, quando aquele leitor anônimo pronunciou o nome de uma capela perdida em um lugar do mundo.

“Você perdeu a voz. O seu rosto sorridente tornou-se sério. Os seus olhos se encheram de lágrimas tímidas, que tremiam na beira dos cílios, como se desculpassem de estarem ali sem serem convidadas.

“Ali também estava eu, sentindo um nó na garganta, sem saber porque. Procurei na platéia a minha mulher e a minha filha, são elas que sempre busco quando me sinto a beira de algo que não conheço. Elas estavam lá, mas tinham os olhos fixos em você, silenciosas como todo mundo ali, procurando apoiá-lo com seus olhares, como olhares pudessem apoiar um homem.

“Então eu procurei fixar-me em Christina, pedindo socorro, tentando entender o que estava acontecendo, como terminar aquele silêncio que parecia infinito. E eu vi que também ela chorava, em silêncio, como se fossem notas da mesma sinfonia, e como se as lágrimas de vocês dois se tocassem apesar da distância.

“E durante longos segundos já não havia mais sala, nem público, nada mais. Você e sua mulher tinham partido para um lugar onde ninguém podia segui-los; tudo que existia era a alegria de viver tudo isso, que era contado apenas com o silêncio e a emoção.

“As palavras são lágrimas que foram escritas. As lágrimas são palavras que precisam jorrar. Sem elas, nenhuma alegria tem brilho, nenhuma tristeza tem um final. Portanto, obrigado por suas lágrimas”.

Deveria ter dito à moça que tinha feito a primeira pergunta – sobre os sinais – que ali estava um deles, afirmando que eu me encontrava no lugar onde devia estar, na hora certa, apesar de nunca entender direito o que me levou até ali.

Mas penso que não foi necessário: ela deve ter percebido.

Paulo Coelho

Você é mel

Parte 2

Psique: psiu!
Eros2002: não conheço esta palavra.
Psique: é uma forma de chamar alguém...
Eros2002: estava me chamando?
Psique: brincando com você, "cutucando”... rs
Eros2002: você está ok, que bom!
Psique: sim!
Eros2002: ok, você é mel!
Psique: eu?
Eros2002: sim, mel!
Psique: pare!
Eros2002: por quê?
Eros2002: mel...
Psique: olha o que combinamos...
Eros2002: ok, menina.
Eros2002: e o psiu ?
Eros2002: que me conta psiu?
Psique: eu vou brigar...
Eros2002: não, que eu não deixo!
Eros2002: você é sensual...
Psique: sim, mas lembre-se de que eu fico...
Eros2002: ok, mas você é muito doce!
Psique: obrigada!
Eros2002: nada!
Eros2002: é um pouco tarde para mim, vou me deitar.
Psique: então vá.
Eros2002: posso telefonar amanhã bem cedinho?
Psique: pode!
Eros2002: ok.
Eros2002: beijos...
Eros2002: fofinha...
Psique: beijos!
Eros2002: xau!
Psique: xau!
Eros2002: mel...
Psique: você não tem jeito mesmo!
Eros2002: ok.
Eros2002: xau!
Psique: vai me ligar a que hora?
Eros2002: na madrugada... mel!

terça-feira, junho 19, 2007

Posso telefonar?

Parte 1


“Recentemente tive que explicar a uma senhora, o que era um” Blog”. Disse-lhe que era algo bem parecido com aquele diário que a gente fazia na adolescência, só que agora em vez de papel e caneta, usa-se o computador. Alguns dias depois, ela volta a me perguntar "o que é e-mail?”.
Pacientemente, digo-lhe que é o mesmo que escrever uma carta e enviar para alguém, só que usamos o correio eletrônico.
Estou muito desconfiada de que logo ela irá me perguntar o que é um “Messenger”. Aí, vou achar mais fácil trazê-la até o computador, e deixá-la ver como isso funciona.
Bem, não imagino minha vida sem o "Drummond". Este universo de informações, a facilidade para pesquisar, os grupos, os amigos (muito bem selecionados, claro), fizeram desta máquina uma peça fundamental em minha vida.
A revista Veja, de 25 de janeiro de 2006, trás um encarte especial sobre a influência da Internet da vida dos casais: a infidelidade virtual, as fantasias sexuais, as paqueras, os encontros, enfim, as mesmas histórias de sempre - amores, encontros e desencontros - mas agora no universo virtual.
Se a minha vizinha, uma senhora com mais de 80 anos, também quiser saber sobre isso, vai dar um trabalho danado explicar. Mas vou me esforçar!
Conheço várias pessoas que começaram a namorar pela internet, um dia encontraram alguém, o namoro tornou-se real e casaram-se. Porém, nem sempre as histórias têm um final feliz. Uma amiga já namorava há alguns meses um rapaz cujo encontro foi proporcionado por este mundo virtual. A cada quinze dias, ele vinha de outro Estado para encontrá-la e, havia até uma data marcada para o casamento. Mas, como disse minha aluna Stéfani “não temos lugar neste mundo, temos tempo" ele faleceu três meses antes do enlace. E, minha amiga voltou a ser alguém à procura de um amor.
Eu também encontrei o amor aqui, uma paixão que durou alguns meses - real - e teve um final melancólico. Como diz meu amigo Edson, professor de filosofia, “faz parte".
Porém, algo que é inesquecível, também nesse mundo virtual é o primeiro namorado. O primeiro amor, ou namorado, raramente dá certo, mas permanece para sempre em nossas lembranças.
Para respeitar a privacidade do casal, troquei os nomes desse “encontro virtual”:
Psique: oi
Eros2002: olá
Psique: tudo bem com você?
Eros2002: sim, obrigado
Eros2002: está boa?
Psique: Sim, teve um bom dia?
Eros2002: obrigado, sim, e você?
Psique: melhor impossível, fui visitar uma velha tia, ela ficou feliz ao me ver.
Eros2002: sim?
Psique: irmã de meu pai.
Eros2002: Ah!
Psique: Aos 90 anos, ela é uma velhinha muito alegre e de bem com a vida...
Eros2002: sim?
Psique: gosta de passear, de bons churrascos, aliás, ela levanta o meu astral.
Eros2002: Ah! Você estava precisando?
Psique: estava
Eros2002: sim?
Psique: sim
Eros2002: “teus caminhos não são meus, mas, apenas por alguns momentos caminharemos juntos”, conhece?
Psique: claro, eu escrevi.
Eros2002: Ah!
Psique: por que está lembrando isso?
Eros2002: por que será?
Psique: ficou chateado por ontem?
Eros2002: fiquei apreensivo
Psique: então por que isso?
Eros2002: tenho receio de magoá-la
Psique: às vezes você me magoa às vezes me faz feliz...
Eros2002: sim, por quê?
Psique: às vezes dou boas risadas com você
Eros2002: mas...
Psique: só ontem, não sei por que, senti raiva.
Eros2002: sim?
Psique: eu não sei explicar
Eros2002: sim?
Psique: não sei explicar direito, fiquei pensando que você... talvez esteja apenas se divertindo comigo
Eros2002: acha que sim?
Psique: eu não sei se é isso, mas ontem, senti-me assim, compreende?
Eros2002: não!
Psique: sabe o que acho também?
Eros2002: não
Psique: falo demais das minhas emoções para você, talvez isso desestabilize nossa amizade.
Eros2002: não sei
Eros2002: acho que podemos até nos ajudarmos emotivamente, sem nos magoarmos.
Psique: é, mas não vê que eu estou me perdendo?
Eros2002: perdendo como? Acho que você se está a assustar
Psique: nunca vivi algo assim antes e isso me assusta mesmo
Eros2002: ok, eu entendo
Psique: a verdade é que não estamos sendo só amigos
Eros2002: e é assim tão mau?
Psique: e eu já lhe disse que não quero ter um namorado pela só pela internet
Eros2002: Ah! Sim?
Psique: sim!
Eros2002: apenas amigos?
Psique: um amigo de verdade não escreve essas coisas... já saímos da área da literatura e faz tempo! De poetar a quatro mãos...
Eros2002: você gostou?
Psique: sim, mas agora não gosto mais.
Eros2002: ok, não estará a exagerar um pouco?
Psique: não sei, estou?
Eros2002: se eu até me abri muito com você...
Eros2002: o que é que eu ganho com isso?
Psique: não sei...
Psique: eu lhe perguntei ontem, e pergunto de novo: o que quer de mim afinal?
Eros2002: uma grande amiga, e você o quer de mim?
Psique: gosto de conversar com você
Eros2002: e...
Psique: conversa as mesmas coisas com outras amigas da internet?
Eros2002: não, que amigas?
Psique: então...
Eros2002: então o quê?
Psique: você não tem outras amigas na internet?
Eros2002: não!
Psique: como não?
Eros2002: cada vez falo com menos pessoas aqui
Psique: e as da sua cidade?
Eros2002: quem?
Eros2002: não sei que lhe diga
Psique: você não respondeu a minha pergunta: escreve poesias para elas também?
Psique: fala a elas o que fala para mim?
Eros2002: nunca fiz!
Psique: então, você não me trata como as outras amigas certo?
Eros2002: posso fazer uma pergunta, e você não se ofende?
Psique: pergunte
Eros2002: isto é uma cena de ciúmes?
Psique: não, quero apenas deixar bem claro o que somos um para o outro...
Eros2002: mas eu não a quero aborrecer
Eros2002: e se o fiz, peço-lhe desculpa.
Psique: eu não o amo, mas tenho um grande afeto por você.
Eros2002: eu também tenho por você...
Eros2002: e, brincar com os sentimentos das pessoas é algo que nunca farei...
Psique: você me deixa confusa, em conflito comigo mesma...
Eros2002: ok entendi
Eros2002: que quer que eu faça?
Psique: trate-me como uma amiga de verdade
Eros2002: ok, assim será
Psique: eu acho que assim ficaremos bem, não quero perder a sua amizade.
Eros2002: ok, mas como perderia a minha amizade?
Psique: do jeito que estamos, vamos acabar brigando, não percebe? Acho até que estamos discutindo nesse momento
Eros2002: ok, você pode contar comigo.
Psique: obrigada
Psique: ufa! Que conversa difícil!
Eros2002: não, fácil
Eros2002: posso lhe fazer uma pergunta?
Psique: pergunte!
Eros2002: posso voltar a telefonar?
Psique: com certeza
Eros2002: E ouvir a sua bela voz, esse riso maravilhoso?
Eros2002: adoro a sua voz!
Eros2002: e fim!

Geração pós-moderna

Frei Betto *

Adital -
A pós-modernidade não nega a modernidade; antes, celebra suas conquistas, como o positivismo entranhado nas ciências, a razão tecnocientífica a pontificar sobre a intuição e a inteligência, o triunfo do capitalismo em suas versões neoliberal e, agora, neofascista, contrapondo, por via da guerra, o fundamentalismo econômico - o capital como valor supremo - ao fundamentalismo religioso.
Frente ao darwinismo socioeconômico, a cultura mergulha em profunda crise. Os valores monetários do mercado se sobrepõem aos valores morais da ética. Os grandes relatos se calam, a história como processo se desacelera, as ideologias críticas agonizam. O futuro recua perante o imperativo de perenização do presente. Tudo se congela nessa idéia absurda de que a vida é ‘aqui e agora’. A velhice é encarada como doença e a morte como abominação. A felicidade é reduzida à soma de prazeres e os bens finitos mais cobiçados que os infinitos.
Sabe-se o que não se quer, não o que se quer. As utopias ruíram com o Muro de Berlim. Maio de 68 não logrou expandir-se além das fronteiras do corpo liberto do peso da culpa. Os projetos revolucionários quedaram como a estampa do Che pregada na parede ou reproduzida na camiseta. "E há tempos nem os santos têm ao certo / a medida da maldade. / Há tempos são os jovens que adoecem. / Há tempos o encanto está ausente. / E há ferrugem nos sorrisos. / E só o acaso estende os braços / a quem procura abrigo e proteção," canta Renato Russo.
Hegel nos ensinou a pensar a realidade e seu discípulo, Marx, a transformá-la. Esqueceram-se do ensinamento bíblico de que é preciso mudar o coração de pedra em coração de carne. O novo, na ciência e na técnica, não fez novo o coração humano, agora assolado pelo sentimento de impotência, de fatalismo, de cinismo. É a cultura do grande vazio respirada pelos jovens de hoje. Caminham de Prometeu a Narciso e, no meio do percurso, deixam à margem o heroísmo de Sísifo. Não lhes importa que a pedra role ladeira abaixo, importa é desfrutar da vida.
Capitulados diante das exigências de construir o novo, olvidados Hegel e Marx, as mudanças históricas sonhadas por minha geração de 68 agora se resumem ao corpo, à moda, aos gostos e caprichos individuais. Na prateleira, a literatura libertária é substituída por esoterismo, astrologia e auto-ajuda. Já que a sociedade é imutável, há que desfrutá-la. E já que não se pode mudar o mundo, ao menos há que encontrar terapias literárias que sirvam de vacina contra um profundo sentimento de frustração e derrota.
Na ânsia de eternizar o presente, buscam-se artifícios que prolonguem a vida: malhação, dietas, vitaminas, cirurgias estéticas etc. Urge manter-se eternamente jovem. Velhice, rugas, obesidade, cabelos brancos, músculos flácidos, perda de vigor juvenil e beleza física, eis os fantasmas que amedrontam a alma lúdica, luxuriosa, de quem não sabe o rumo a imprimir à existência. Como apregoa o Manifesto Hedonista (E. Guisan 1990), "o gozo é o alfa e o ômega, o princípio e o fim."
Privatiza-se o existir, encerra-se num individualismo que se gaba de sua indiferença frente aos dramas alheios, e predomina a insensibilidade às questões coletivas. A ética cede lugar à estética. A política é encarada com nojo e, a vida, como um videoclipe anabolizado por dinheiro, fama e beleza.
Surge a primeira geração sem culpa, despolitizada de compromissos, repleta de jovens entediados, céticos, insatisfeitos, fragmentados. Geração de reduzida capacidade de maravilhar-se, entusiasmar-se, comprometer-se. Uma geração desencantada: "Vivo en el número siete, / calle Melancolia, / quiero mudarme hace años / al barrio de la alegria. / Pero siempre que lo intento, / ha salido ya el tranvía / y en la escalera me siento, / a silbar mi melodía" (J.Sabina).
Agora cada um tem a sua verdade e ninguém se incomoda com a verdade do outro. Nem se deixa questionar por ela. O diálogo face a face é descartado em favor do diálogo virtual via internet, onde cada parceiro pode fingir o que não é e disfarçar sua baixa auto-estima. Nas relações pessoais, inverte-se o itinerário de minha geração, que ia do amor ao sexo; agora, vai-se do sexo ao sexo, na esperança de que, súbito, desponte o milagre do amor.
Nesse nebuloso mundo pós-moderno, a visão é obscurecida. Perde-se a dimensão da floresta, avista-se apenas uma ou outra árvore. Assim, fica-se indignado com a violência urbana e clama-se pela redução da maioridade penal e pela pena de morte. Quem se indigna com a violência estrutural de uma nação que condena milhões de jovens à desescolarização precoce e ao desemprego?
Vale de (mau) exemplo a Justiça de Bush, que condenou a 100 anos de prisão o soldado que, no Iraque, estuprou e matou uma jovem de 14 anos. Enquanto isso, a chuva de bombas made in USA tira a vida de 700 mil iraquianos, sem distinguir inocentes, crianças e idosos. Quem haverá de pagar por tamanha atrocidade?



Frei Betto é escritor, autor de "Treze contos diabólicos e um angélico" (Planeta), entre outros livros.

sábado, junho 09, 2007

Poesias de Líria Porto

Rotina
Líria Porto

a voz de um relógio tique-taquerepete
sem sotaque a voz do tempo
passamos nossos dias tão iguais
e sem o perceber envelhecemos

Lealdade
Líria porto

por ti eu façoseguro a onda no braço
e se o mar te der rasteira
amarro-o numa coleira
arrasto-o para as areias
do deserto de saara


Pedra-sabão
Líria porto

escrevo no peito o vento que passa
o sol a vidraça a chuva a neblina
escrevo no peito o doce a cachaça
o queijo a coalhada o mapa de minas

escrevo no peito as ruas estrada
sas flores a praça o laço de fita
escrevo no peito a tarde a alvorada
a lua as estrelas a noite bonita

escrevo no peito a terra um jazigo
o chão a florada a serra o jardim
escrevo no peito opalas sem fim

a mãe meus irmãos as filhas o amigo
o cheiro os costumes a bruma a brisa
depois eu me abraço e fecho a camisa

Das eternidades
Líria porto

desistir posso desisto
mas esquecer não me peças
sou destas peças antigas
onde se guardam relíquias
o amor é uma delas

quarta-feira, junho 06, 2007

Meditação andando

Chego a Santiago de Compostela, desta vez de carro, para
celebrar minha peregrinação há vinte anos. Quando estava Puente La
Reina, veio a idéia de fazer tardes de autógrafos sem grandes
preparações: bastava telefonar para a próxima cidade onde
deveríamos dormir, pedir que colocassem um cartaz na livraria
local, e estaria ali na hora marcada. Funcionou magnificamente nas pequenas aldeias, embora exigindo um
pouco mais de organização em grandes cidades, como a própria
Santiago de Compostela. Tive um contato inesperado com os
leitores, e aprendi que coisas feitas com amor podem ter o
improviso como um grande aliado.Santiago estava agora diante de mim. E algumas dezenas de kms mais
adiante, o Oceano Atlântico. Mas estou decidido a seguir adiante
com as tais tardes de autógrafos improvisadas, já que pretendo
ficar noventa dias fora de casa. E como não pretendo atravessar o oceano neste momento, devo ir
para a direita (Santander, Pais Basco) ou esquerda (Guimarães,
Portugal)? Melhor deixar que o destino escolha: minha mulher e eu entramos em
um bar, e perguntamos a um homem que está tomando um café: direita
ou esquerda? Ele diz com convicção que devemos seguir à esquerda –
talvez pensando que nos referíamos a partidos políticos.Telefono para o meu editor português. Ele não pergunta que loucura
é essa, não reclama de avisá-lo em cima da hora. Duas horas mais
tarde me chama, diz que contatou as rádios locais de Guimarães e
Fátima, e em 24 horas posso estar com meus leitores naquelas
cidades. Tudo dá certo. E em Fátima, como um sinal, recebo um presente de uma das pessoas
que estão ali. Trata-se dos escritos de um monge budista, Thich
Nhat Hanh, intitulado “The long road to joy” (A longa estrada para
a alegria). A partir daquele momento, antes de continuar esta
jornada de 90 dias pelo mundo, passo a ler todas as manhãs as
sábias palavras de Nhat Hanh, que resumo a seguir:1] Você já chegou. Portanto, sinta o prazer em cada passo, e não
fique preocupado com as coisas que ainda tem que superar. Não
temos nada diante de nós, apenas um caminho para ser percorrido a
cada momento com alegria. Quando praticamos a meditação peregrina,
estamos sempre chegando, nosso lar é o momento atual, e nada mais.2] Por causa disso, sorria sempre enquanto andar. Mesmo que tiver
que forçar um pouco, e achar-se ridículo. Acostume-se a sorrir, e
terminará alegre. Não tenha medo de mostrar seu contentamento.3] Se pensa que paz e felicidade estão sempre adiante, jamais
conseguirá atingi-las. Procure entender que ambas são suas
companheiras de viagem.4] Quando anda, está massageando e honrando a terra. Da mesma
maneira, a terra está procurando ajudá-lo a equilibrar seu
organismo e sua mente. Entenda esta relação, e procure respeitá-la
– que seus passos sejam dados com a firmeza de um leão, a
elegância de um tigre, a dignidade de um imperador.5] Preste atenção ao que acontece a sua volta. E concentre-se em
sua respiração – isso o ajudará a libertar-se dos problemas e das
ansiedades que tentam acompanhá-lo em seu caminho.6] Ao caminhar, não é apenas você que está se movendo, mas todas
as gerações passadas e futuras. No mundo chamado de “real” o tempo
é uma medida, mas no verdadeiro mundo não existe nada além do
momento presente. Tenha plena consciência que tudo que já
aconteceu e tudo o que acontecerá está em cada passo seu.7] Divirta-se. Faça da meditação peregrina um constante encontro
consigo mesmo; jamais uma penitência em busca de recompensas. Que
sempre cresçam flores e frutas nos lugares onde seus pés tocaram.

Paulo Coelho

Dimensão holística do ser

Sócrates foi condenado à morte por heresia, como Jesus. Acusaram-no de pregar aos jovens novos deuses. Tal iluminação não lhe abriu os olhos diante do céu, e sim da terra. Percebeu não poder deduzir do Olimpo uma ética para os humanos. Os deuses do Olimpo podiam explicar a origem das coisas, mas não ditar normas de conduta.
A mitologia, repleta de exemplos nada edificantes, obrigou os gregos a buscar na razão os princípios normativos de nossa boa convivência social. A promiscuidade reinante no Olimpo, objeto de crença, não convinha traduzir-se em atitudes; assim, a razão conquistou autonomia frente à religião. Em busca de valores capazes de normatizar a convivência humana, Sócrates apontou a nossa caixa de Pandora: a razão.
Se a moral não decorre dos deuses, então somos nós, seres racionais, que devemos erigi-la. Em Antígona, peça de Sófocles, em nome de razões de Estado Creonte proíbe Antígona de sepultar seu irmão Polinice. Ela se recusa a obedecer "leis não escritas, imutáveis, que não datam de hoje nem de ontem, que ninguém sabe quando apareceram". É a afirmação da consciência sobre a lei, da cidadania sobre o Estado.
Para Sócrates, a ética exige normas constantes e imutáveis. Não pode ficar na dependência da diversidade de opiniões. Platão trouxe luzes ensinando-nos a discernir realidade e ilusão. Em República, lembra que para Trasímaco a ética de uma sociedade reflete os interesses de quem ali detém o poder. Conceito retomado por Marx e aplicado à ideologia.
O que é o poder? É o direito concedido a um indivíduo ou conquistado por um partido ou classe social de impor a sua vontade à dos demais.
Aristóteles nos arranca do solipsismo ao associar felicidade e política. Mais tarde, santo Tomás, inspirado em Aristóteles, nos dará as primícias de uma ética política, priorizando o bem comum e valorizando a soberania popular e a consciência individual como reduto indevassável. Maquiavel, na contramão, destituirá a política de toda ética, reduzindo-a ao mero jogo de poder, onde os fins justificam os meios.
Kant dirá que a grandeza do ser humano não reside na técnica, em subjugar a natureza, e sim na ética, na capacidade de se autodeterminar a partir de sua liberdade. Há em nós um senso inato do dever e não deixamos de fazer algo por ser pecado, e sim por ser injusto. E nossa ética individual deve se complementar pela ética social, já que não somos um rebanho de indivíduos, mas uma sociedade que exige, à sua boa convivência, normas e leis e, sobretudo, a cooperação de uns com os outros.
Hegel e Marx acentuarão que a nossa liberdade é sempre condicionada, relacional, pois consiste numa construção de comunhões, com a natureza e os nossos semelhantes. Porém, a injustiça torna alguns dessemelhantes.
Nas águas da ética judaico-cristã, Marx ressalta a irredutível dignidade de cada ser humano e, portanto, o direito à igualdade de oportunidades. Em outras palavras, somos tanto mais livres quanto mais construímos instituições que promovam a felicidade de todos.
A filosofia moderna fará uma distinção aparentemente avançada e que, de fato, abre novo campo de tensão ao frisar que, respeitada a lei, cada um é dono de seu nariz. A privacidade como reino da liberdade total. O problema desse enunciado é que desloca a ética da responsabilidade social (cada um deve preocupar-se com todos) para os direitos individuais (cada um que cuide de si).
Essa distinção ameaça a ética de ceder ao subjetivismo egocêntrico. Tenho direitos, prescritos numa Declaração Universal, mas e os deveres? Que obrigações tenho para com a sociedade em que vivo? O que tenho a ver com o faminto, o oprimido e o excluído? Daí a importância do conceito de cidadania. As pessoas são diferentes e, numa sociedade desigual, tratadas segundo sua importância na escala social. Já o cidadão, pobre ou rico, é um ser dotado de direitos invioláveis, e está sujeito à lei como todos os demais.
O capitalismo associa liberdade ao dinheiro, ou seja, ao consumo. A pessoa se sente livre enquanto satisfaz seus desejos de consumo e, através da técnica e da ciência, domina a natureza. A visão analítica não se pergunta pelo significado desse consumismo e pelo sentido desse domínio. E, de repente, a humanidade desperta para os efeitos nefastos de seu modo de subjugar a natureza: o aquecimento global faz soar o alarme de um novo dilúvio que, desta vez, não virá pelas águas, e sim pelo fogo, sem chances de uma nova Arca de Noé.
A recente consciência ecológica nos amplia a noção de ethos. A casa é todo o Universo. Lembre-se: não falamos de Pluriverso, mas de Universo. Há uma íntima relação entre todos os seres visíveis e invisíveis, do macro ao micro, das partículas elementares aos vulcões. Tudo nos diz respeito e toda a natureza possui a sua racionalidade imanente. Segundo Teilhard de Chardin, o princípio da ética é o respeito a todo o criado para que desperte suas potencialidades. Assim, faz sentido falar agora da dimensão holística da ética.
O ponto de partida da ética é assinalado por Sócrates: a polis, a cidade. A vida é sempre processo individual e social. A ótica neoliberal diz que cada um deve se contentar com o seu mundinho. Mas fica a pergunta de Walter Benjamin: o que dizer a milhões de vítimas de nosso egoísmo?
Frei Betto é escritor, autor de "A obra do artista - uma visão holística do Universo" (Ática), entre outros livros.
Frei Beto * Frei dominicano. Escritor.

quarta-feira, maio 16, 2007

Encontrando a alegria

No incomensurável universo da mente humana, habitam inexpugnáveis segredos. Não há como negar que, em alguns dias nos apresentamos a nós mesmos de mal com a vida. Acordamos tristes, angustiados, e até azedos. Quase armados para reagir a qualquer provocação. Mal cumprimentamos as pessoas e, não raro, emitimos respostas desagradáveis, movidas a monossílabos. Trata-se de um conflito que estabelecemos com protagonistas e motivos desconhecidos, que merece análise baseada em exemplos narrados pelas próprias personagens.
Um privilegiado executivo apresentava esse comportamento periodicamente e não exibia qualquer escrúpulo ao ignorar ou maltratar as pessoas à sua volta. Num desses dias aziagos, encontrando defeituoso o elevador do prédio, obriga-se a subir pela escada. Num dos corredores funciona uma clínica para crianças portadoras de necessidades especiais. O bem trajado homem, de cara amarrada, com o mau-humor acrescido pela imprevista caminhada, é abordado por uma criança que procura a porta da clínica e que manifesta visível dificuldade para falar e andar. Naquela menina, cujo aparelho de correção da arcada dentária, se sobressai incomodamente, ele vê um largo e espontâneo sorriso. Sente que lhe atingem o coração os acenos de agradecimento daquele surpreendente ser que esparrama alegria e disposição. Ainda estupefato, como se perguntasse “está sorrindo por quê”? Diante daquela inimaginável felicidade, vê aproximar-se um segundo rostinho, também sorridente. Um garoto desprovido de um dos braços, além de extremamente dificultado no andar. O portador de uma perna mecânica lhe oferece um meigo “bom dia” e, após observar sua surpresa, termina de abatê-lo com a simpática pergunta: “O Sr. está bem, precisa de ajuda?”
O homem de terno e maleta importada acena ao garoto e sobe as escadas sem conseguir conter as lágrimas que banham seu rosto. Ele sente que chora, o que não fazia há muito tempo... e chora de vergonha, vergonha de si mesmo. Tenta restabelecer-se reabilitando, quem sabe, o seu mau-humor, mas... nem se lembra do motivo.
Adentra ao seu escritório, nem sente o cansaço da escadaria, somente sente vergonha e repugnância de si mesmo. Toma seu lugar junto ao computador e, antes de iniciar mais um dia de trabalho, começa a escrever:
- Somos perfeitos, conseguimos tudo, ou quase tudo de que precisamos para estar de bem com a vida, mas corremos em busca de mais. E nos esquecemos de que tantos precisam do que para nós seria tão pouco. Corremos tanto em busca de tantas coisas que, conquistadas, são esquecidas em um canto qualquer, como inútil troféu de alguma conquista apagada nas páginas do jornal envelhecido.
- Às vezes, somos tristes, distribuímos o mau-humor, insatisfeitos, irritadiços e ansiosos, sem olhar para tantos que vivem esparramando alegria alicerçados numa vida simples, voltada para a natureza, no sadio convívio de um modesto lar, onde as crianças brincam até o final da tarde quando o pai chega para abraçá-las, oferecendo-lhes o pouco que conquista com muito amor.
- Quantas vezes passamos eretos, com a mente atribulada pelo trabalho, de olho no relógio, sem olhar para o lado, sem ver a dose profunda de sacrifício, dedicação e amor que movem a esperança de outros, vinculados ao labor humilde, à modesta vestimenta, à parca alimentação, mas que encontram a alegria e até o lazer no próprio trabalho, na própria maneira de ser, de viver.
- Passamos sem saber que, talvez esses ao nosso lado, a quem nenhuma importância atribuímos, não saíram de casa sem agradecer a Deus pela vida e pelo que ela proporciona a cada dia, a cada momento. Não vemos que nos mais humildes podemos encontrar o entusiasmo que nos falta, a força de vontade de que precisaremos para encarar os dias que virão. Esses que sempre acreditam que os dias efetivamente virão, e já estão felizes, só por isso.
- Quantas vezes voltamos para casa, acabrunhados, tensos, indispostos por qualquer imprevisto no trabalho, e perdemos maravilhosas oportunidades de desfrutar de divinas mensagens representadas pelas crianças com seus brinquedos, suas flores e seus pequenos animais.
- Oh Deus, peço ajuda para superar a vergonha que sinto de minha pobreza espiritual. Senhor permita-me conseguir um pouquinho da riqueza desses que parecem não ter nada, e me ensinam tanto, em tão poucos minutos. Na verdade, agora vejo que têm muito, muito mais que eu. São os verdadeiros ricos, que vivem felizes... Obrigado Senhor.

PECAJO

domingo, abril 29, 2007

Educação Sexual




Todos os anos têm alunas 'tontinhas' que engravidam e depois sabe-se lá como vão criar seus filhos. A maioria é menor de idade e de juízo, o rapaz não assume nada e, nenhum dos dois trabalha.
Ano retrasado perguntei a uma aluna, da oitava série, como ela ia criar o seu filho, respondeu-me: "Minha mãe cria".
Semana passada, um amigo me disse que é contra o aborto, mas que se negou a assinar uma lista sobre o assunto, pois ele se pergunta o que será dos filhos gerados e nascidos sem planejamento. Detalhe, ele é agente penitenciário em uma das penitenciárias mais problemáticas do Estado. Então, ele sabe onde vai parar boa parte desses bebês gerados de forma irresponsável e criados de qualquer jeito.
Sou professora, e sei muito bem o que acontece com muitos jovens mal criados, mal amados, carentes de quase tudo, o que aprontam nas escolas públicas.
Também sou contra ao aborto. Também falo constantemente, para as alunas principalmente, que elas precisam ser espertas e se cuidar. Informação não falta, mas a conscientização anda bem longe da maioria desses jovens. Também é preciso analisar o meio ambiente em que eles vivem. As histórias dos bailes funkies que os próprios alunos contam é de arrepiar: meninas vão sem calcinha para transar com todo mundo, droga rola solto, e todo mundo bate em todo mundo. Na periferia esse ritmo é uma epidemia. Hoje o lema da maioria dos jovens da periferia é: sexo, drogas e funkie. Modernidade, minha gente! Mas a alienação continua a mesma.

Bunda? Eu?

Quem disse que sou só uma bunda? E que ela precisa estar atrevidamente em pé, caso contrário, devo siliconizá-la?
Quem disse que só preciso de peito empinado?
Quem disse essas babaquices?
Eu sou mulher inteira: cabeça, tronco e membros! Tenho idéias, pensamento lógico, sentimentos, desejos, frustrações... mas tenho principalmente consciência de quanto valho e de quem sou.
Recuso-me a aceitar que uma BUNDA me represente!!! Não admito ser reduzida a um corpo produzido artificialmente!!! Revolto-me ao ouvir dizer sobre a mulher apenas pelas suas qualidades aparentes!!! E afinal a mulher só tem peito e bunda?????? Não eu!!!
Se posso recorrer à plástica para rejuvenescer, claro que o farei! Quando a Lei da Gravidade fizer minhas protuberâncias caírem, se me aprouver, as levantarei! Procurarei meu Cirurgião Plástico que já em casos de queimadura minha filha socorreu, sem que isto seja uma Olímpica competição para cumprir o Padrão Tchan!!!
Sou fã do Ácido Retinóico, da Vitamina C, do Ácido Glicólico, da Uréia, da Semente de Uva, da minha dermato (que é meu Pilar!), mas pretendo é um aspecto mais plácido e compatível com meu interior que é sempre adolescente.
Tenho mãos que sabem aconchegar e afagar... Tenho pernas que me levam ao encontro do Amar... Tenho lábios que sempre anseiam por beijar.. Tenho ventre que já abrigou filhos... Tenho braços de abraçar... Tenho um corpo inteiro e nele habitam vísceras, músculos, veias, alma, paixão e razão.
Acho lindo um belo corpo torneado, pele viçosa, músculos delineados, cabelos sedosos, e todos devemos nos empenhar em ter saúde, beleza, destreza, flexibilidade. Porém ser só corpo, e mutilado que só de bunda e peito se compõe, é idiotia, aberração, ou melhor, covardia e ilusão.
Lembro-me que faz pouco tempo a Mulher Bunda foi considerada a representante da Mulher Brasileira. Recuso-me a ser por este tipo de mulher representada!
Que luxo seria estabelecer como Mulher Padrão Brasileira a maravilhosa Fernanda Montenegro, ou Irene Ravache, quem sabe Marina Colassanti. Mais jovem, rebelde e inesquecível? Leila Diniz, que exibiu com sensualidade e orgulho seu ventre dilatado pela gravidez. Que tal Carolina Ferraz? Bonita, charmosa, sensual, inteligente, elegante, sensível, apaixonada, mãe carinhosa e que em recente entrevista à revista QUEM afirma: “Eu não tenho mérito nenhum em minha beleza... Não existe mágica para nada. Acho que na vida temos que ter bom humor e disciplina... Os meus músculos são de carregar Valentina... E tem mais: "eu filmo mais musculosa do que realmente sou..." e finaliza "Eu gosto de ter prestígio e sucesso pelos meus méritos... Pois é, a beleza não pode tirar a atenção."
É, se mulher objeto é o padrão, quero jamais ser citada, prefiro ser ridicularizada por ter 54 anos, escrever poesias, crer no Amor e pagar caro pela minha independência, e ainda ser considerada decadente por não ter extraído dinheiro ou viver à sombra do poder do ex-marido patrocinador.

Magda Almodóvar

sexta-feira, abril 27, 2007

Noturno

Espírito que passas, quando o vento

Adormece no mar e surge a Lua,

Filho esquivo da noite que flutua,

Tu só entendes bem o meu tormento...



Como um canto longínquo - triste e lento-

Que voga e sutilmente se insinua,

Sobre o meu coração que tumultua,

Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...



A ti confio o sonho em que me leva

Um instinto de luz, rompendo a treva,

Buscando. entre visões, o eterno Bem.



E tu entendes o meu mal sem nome,

A febre de Ideal, que me consome,

Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!


Antero de Quental

Fome no Ceará

I

Lançai o olhar em torno;
Arde a terra abrasada
Debaixo da candente abóbada dum forno.
Já não chora sobre ela orvalho a madrugada;
Secaram-se de todo as lágrimas das fontes;
E na fulva aridez aspérrima dos montes,
Entre as cintilações narcóticas da luz,
As árvores antigas
Levantam para o ar – atléticas mendigas,
Fantasmas espectrais, os grandes braços nus.


Na deserta amplidão dos campos luminosos
Mugem sinistramente os grandes bois sequiosos.
As aves caem já, sem se suster nas asas.
E, exaurindo-lhe a força enorme que ela encerra,
O Sol aplica à Terra
Um cáustico de brasas.


O incêndio destruidor a galopar com fúria,
Como um Átila, arrasta a túnica purpúrea
Nos bosques seculares;
E, Lacoontes senis, os troncos viridentes
Torcem-se, crepitando entre as rubras serpentes
Com as caudas de fogo em convulsões nos ares.


O Sol bebeu dum trago as límpidas correntes;
E os seus leitos sem água e sem ervagens frescas,
Co'as bordas solitárias,
Têm o aspecto cruel de valas gigantescas
Onde podem caber muitos milhões de párias.
E entre todo este horror existe um povo exangue,
Filho do nosso sangue,
Um povo nosso irmão,
Que nas ânsias da fome, em contorções hediondas,
Nos estende através das súplicas das ondas
Com o último grito a descarnada mão.


E por sobre esta imensa, atroz calamidade,
Sobre a fome, o extermínio, a viuvez, a orfandade,
Sobre os filhos sem mãe e os berços sem amor,
Pairam sinistramente em bandos agoireiros
Os abutres, que são as covas e os coveiros
Dos que nem terra têm para dormir, Senhor!


E sabei – monstruoso, horrível pesadelo! –
Sabei que aí – meu Deus, confranjo-me ao dizê-lo! –
Vêem-se os mortos nus lambidos pelos cães,
E os abutres cruéis com as garras de lanças,
Rasgando, devorando os corpos das crianças
Nas entranhas das mães!



II
Quando inda há pouco o vendaval batia
Dos grandes montes nos robustos flancos;
E as nuvens, como enormes ursos brancos,
Em tropel pela abóbada sombria
Dos canhões dos titãs, aos solavancos,
Arrastavam a rouca artilharia;


Quando os rios, indômitos, escuros,
Iam como ladrões saltando os muros,
Para roubar ao camponês o pão;
E, cruzando-se, os raios flamejantes
Abriam como esplêndidas montanhas
De meio a meio a funda escuridão;
Quando os ventos aspérrimos, frenéticos
Como ciclopes doidos, epilépticos,
Com raivas convulsivas
Perseguiam, bramindo, às chicotadas,
Das retumbantes ondas explosivas
As trôpegas manadas;


Quando entre os gritos roucos da procela,
A fome – a loba – escancarava a goela
Uivando às nossas portas;
E andavam sobre as águas desumanas
Com os despojos tristes das choupanas
Berços vazios de crianças mortas;


Oh! nesse instante, ao ver o povo exânime,
Pulsou da pátria o coração unânime,
Um coração de mãe piedosa e boa...
E das imensas lágrimas choradas
Muitíssimas então foram guardadas
Entre as jóias da c'roa.
Mas é certo também que além dos mares
Alguém ouviu, alguém, cortando os ares
Essa terrível dor;
E esse alguém é quem hoje, é quem agora
Morto de fome a soluçar implora
Mais do que o nosso auxílio – o nosso amor.
Vamos! Abri os corações, abri-os!
Transborde a caridade como os rios
Transbordaram dos leitos em Janeiro!
Nem pode haver decerto mão avara,
Que a esmola negue a quem lh'a deu primeiro.


A miséria é um horrível sorvedoiro;
Vamos! enchei-o com punhados d'oiro,
Mostrando assim aos olhos das nações
Que é impossível já hoje (isto consola)
Morrer de fome alguém, pedindo esmola
Na mesma língua em que a pediu Camões!


Guerra Junqueiro


Nota - Poema extraído do livro A Musa em Férias, da 2ª edição de

OBRAS de Guerra Junqueiro (Poesia), Organização e introdução de

Amorim de Carvalho. Porto: Lello & Irmãos - Editores, 1974, pp.

744-747. Este poema é de 1877, justamente quando se inicia a

terrível seca de 1877-1879 no Nordeste e que no Ceará foi até o

ano de 1880. Afirma Rodolpho Theophilo, que a estudou

demoradamente, que o obituário de Fortaleza no período elevou-se a

65.163 pessoas. Fortaleza possuía então por volta de 20 mil almas,

que foram acrescidas subitamente de cerca de 110 mil migrantes da

seca. Herbert Smith, jornalista inglês que percorria o Brasil

àquela época, foi testemunha ocular dessa seca e afirma com algum

exagero que “durante 1877 e 1878, a mortandade no Ceará foi

provavelmente perto de 500 mil, ou mais da metade da população”.

[Brazil: The Amazons and Coast. New York: Charles Scriber’s Sons,

1879, p. 416]. No poema, Guerra Junqueiro faz alusão à célebre

frase que Dom Pedro II teria pronunciado acerca das jóias de sua

coroa... ( Fortaleza, 1º de Janeiro de 1998, Eduardo Diatahy B. de

Menezes)



http://www.revista.agulha.nom.br/gjunqueiro02p.html

sexta-feira, abril 20, 2007

A comédia de sempre

Numa das maiores obras literárias de todos os tempos, A DIVINA COMÉDIA, Dante descreve os diversos compartimentos que existiriam no Inferno. Neles instala as personagens de conformidade com os hábitos, práticas e formas de pensar. Não perdoa nem acusa, apenas enquadra de forma pitoresca cada figura da vida pública de seu tempo, envolvendo a todos de forma tão marcante e fiel à realidade que a expressão “comédia dantesca” se perpetuou em inúmeras línguas mantendo-se atualizada e adequada aos mais diferentes pontos do Globo.
No oitavo círculo do inferno, no que seria em termos modernos, o oitavo andar do edifício onde todos residiriam após o “juízo final” Dante localiza as acomodações destinadas aos MALVERSADORES DO TESOURO PÚBLICO. Suplícios terríveis são aplicados aos homens corruptos, que assaltam os cofres do povo, desviam os recursos que seriam destinados aos serviços mantidos pelo erário tais como escolas, hospitais, creches, postos de saúde, conservação de estradas, praças e tantos outros.
Fantasiosa que possa parecer, A Divina Comédia deve levar a sociedade a refletir sobre os escândalos em série produzidos por significativa parte da classe política, também por funcionários que ocupam cargos elevados, postos que lhes facultam manipular pessoas e interesses os mais escusos. A corrupção se instala nos mais diferentes rincões do país e do mundo, gera a impunidade que, por sua vez, gera a corrupção, num círculo vicioso e viciado arregimentando contingente numeroso de futuros hóspedes do oitavo andar de Dante.
Chaga de ordem moral, atestado da inferioridade humana, a corrupção parece cercear os esforços de homens íntegros, magistrados idôneos ainda dispostos a responder pelo juramento sagrado à defesa da Lei verdadeira. O combate a esse impetuoso vírus deve constituir uma prioridade de todos os segmentos da sociedade, de todas as crenças religiosas, de todas as profissões, individual e coletivamente, enfim de todos os seres decentes que raciocinam e crêem nas verdades fundamentais da vida.
O corrupto ainda que iludido pela fuga às leis humanas, precisa ser alertado de que não escapará à Justiça das leis Supremas, de que ALGUM DIA o egoísmo, a cupidez, a ambição desmedida e os diversos métodos de prevaricação que envergonham o homem como criação de Deus, serão erradicados do mundo, por meio da formação moral, educação no Lar, orientação à infância desprotegida, conscientização do ser social sobre a verdadeira finalidade da vida e, quando imprescindível, pela aplicação severa das LEIS TERRENAS aos que não saibam ou não queiram trilhar os caminhos indicados pelas sábias lições do Mestre Jesus e ainda se mantenham como atores/palhaços da DIVINA COMÉDIA.

PECAJO

segunda-feira, abril 16, 2007

Manual de conservar caminho

1] O caminho começa em uma encruzilhada. Ali você pode parar e pensar em que direção seguir. Mas não fique muito tempo pensando, ou jamais sairá do lugar. Faça a clássica de Castañeda: qual destes caminhos tem um coração? Reflita bastante sobre as escolhas que estão adiante, mas uma vez dado o primeiro passo, esqueça definitivamente a encruzilhada, ou sempre ficará sendo torturado pela inútil pergunta: “será que escolhi o caminho certo?” Se você escutou seu coração antes de fazer o primeiro movimento, você escolheu o caminho certo.
2] O caminho não dura para sempre. É uma benção percorrê-lo durante algum tempo, mas um dia ele irá terminar, portanto esteja sempre pronto para despedir-se a qualquer momento. Por mais que você fique deslumbrado por certas paisagens, ou assustado com algumas partes onde é necessário muito esforço para seguir adiante, não se apegue a nada. Nem às horas de euforia, nem aos intermináveis dias onde tudo parece difícil, e o progresso é lento. Cedo ou tarde um anjo virá, e sua jornada chega ao final, não esqueça.
3] Honre seu caminho. Foi sua escolha, sua decisão, e na medida que você respeita o chão onde pisa, também este chão passa a respeitar seus pés. Faça sempre o que for melhor para conservar e manter seu caminho, e ele fará o mesmo por você.
4] Esteja bem equipado. Leve um ancinho, uma pá, um canivete. Entenda que para as folhas secas os canivetes são inúteis, e para as ervas muito enraizadas os ancinhos são inúteis. Saiba sempre que ferramenta utilizar a cada momento. E cuide delas, porque são suas maiores aliadas.
5] O caminho vai para frente e para trás. Às vezes é preciso voltar porque foi perdido algo, ou uma mensagem que devia ser entregue foi esquecida no seu bolso. Um caminho bem cuidado permite que você volte atrás sem grandes problemas.
6] Cuide do caminho, antes de cuidar do que está a sua volta: atenção e concentração são fundamentais. Não se deixe distrair pelas folhas secas que estão nas margens, ou pela maneira como os outros estão cuidando dos seus caminhos. Use sua energia para cuidar e conservar o chão que acolhe seus passos.
7] Tenha paciência. Às vezes é preciso repetir as mesmas tarefas, como arrancar ervas daninhas ou fechar buracos que surgiram depois de uma chuva inesperada. Não se aborreça com isso, faz parte da viagem. Mesmo cansado, mesmo com certas tarefas repetitivas, tenha paciência.
8] Os caminhos se cruzam: as pessoas podem dizer como está o tempo. Escute os conselhos, tome suas próprias decisões. Só você é responsável pelo caminho que lhe foi confiado.
9] A natureza segue suas próprias regras: desta maneira, você tem que estar preparado para súbitas mudanças do outono, o gelo escorregadio no inverno, as tentações das flores na primavera, a sede e as chuvas de verão. Em cada uma destas estações, aproveite o que há de melhor, e não reclame das suas características.
10] Faça do seu caminho um espelho de si mesmo: não se deixe de maneira nenhuma influenciar pela maneira como os outros cuidam de seus caminhos. Você tem sua alma para escutar, e os pássaros para contar o que sua alma está dizendo. Que suas histórias sejam belas e agradem tudo que está a sua volta. Sobretudo, que as histórias que sua alma conta durante a jornada sejam refletidas em cada segundo de percurso.
11] Ame seu caminho: sem isso, nada faz sentido.


Paulo Coelho

domingo, abril 15, 2007

Para refletir

Decisão judicial favorece comunidades quilombolas

Adital - A direção geral do Centro de Lançamentos de Alcântara, no Estado do Maranhão, não pode impedir que integrantes das comunidades remanescentes utilizem suas terras tradicionais de onde foram deslocados nos anos 80 para a instalação da base aeroespacial. A decisão judicial veio da 5ª Vara Federal do Maranhão. Por sua parte, a Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos comemorou a decisão e afirmou que isto demonstra que está havendo mais respeito pelo povo quilombola. A decisão foi baseada na aplicação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que ressalta o reconhecimento aos direitos de "propriedade e posse dos povos que estão sobre as terras que tradicionalmente ocupam". No ano passado, 47 integrantes de comunidades quilombolas foram impedidos de colher e plantar nas referidas áreas.
Cinco mandados de segurança contra a direção do Centro foram ajuizados pelos advogados Roberto Rainha, da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, e Eduardo Alexandre Correa, da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares. E todos eles foram concedidos pelo juiz José Carlos do Vale Madeira.
Conforme o julgamento da questão, o juiz entendeu que "não obstante a implantação do Centro de Lançamento de Alcântara e o desenvolvimento regular de suas atividades, não podem os Impetrantes ver-se vitimados por este fato da administração, quando o próprio modo de vida tradicional das comunidades quilombolas determinou formas de produção, que foram estabelecidas historicamente visando à sua subsistência".
Sérvulo Borges, da Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombolas, afirmou que esta decisão vem num momento muito bom para as comunidades quilombolas do Maranhão.
O entusiasmo não é à toa. A partir do dia 10 de maio, serão realizadas oficinas de consulta para organizar juridicamente e a distribuição de 85.537 hectares, que já foram certificadas pelo Governo Federal. O território, designado de coletivo, será dividido em 10 pólos e contará com 99 comunidades quilombolas.
"Estas oficinas de consultas serão para avaliar que tipo de desenho nós teremos, como será a gestão participativa. O Incra já está fazendo a parte dele, levantando o número de famílias, documentos, registros em cartórios. Depois, o processo será finalizado com a titulação do território", afirmou Borges.
Com informações da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos

quarta-feira, abril 04, 2007

Conheça-se

A vida moderna se realiza num mundo de muito barulho, de correria desenfreada, portentosa inimiga do silêncio, fundamental à reflexão. Na tribulação dos compromissos, da luta pela sobrevivência a qualquer custo, do empenho pelas conquistas materiais, muito pouco paramos para refletir sobre os problemas, e o que é mais importante, descobrir e analisar as suas causas. Esquecemo-nos, às vezes, de considerar que somos seres inteligentes, responsáveis pela execução de todas as tarefas que nos envolvem na obrigação de “cuidar” do patrimônio oferecido pelo Criador, O Planeta. O Homem é o detentor do poder do pensamento. Há muitos homens que abrem mão desse privilégio maravilhoso: O DOM DE PENSAR. Assumem postos e encargos, desfrutam ansiosa- mente das benesses inerentes, utilizam a inteligência parcialmente, voltando seus neurônios para o oportunismo e a prevaricação. Ostentam títulos e exibem seus méritos. Há mesmo os que se movimentam e se manifestam, abastecidos exclusivamente pelo combustível dos instintos e dos apetites, repetindo sempre as mesmas “teorias”, cobrando tudo de todos e muito pouco ou nada oferecendo.
A alguns o poder, ou o simples fato de pensar que podem, causa sonambulismo, estagnação. Fixam-se como postes de concreto em suas ridículas posições e aí se mantêm sem ver o tempo passar.
Qualquer dentre nós, quando se afasta dos verdadeiros objetivos da vida, pode- se incluir inapelavelmente nesse exército de inconscientes. Sempre há tempo para abominar a desvairada ânsia pela velocidade, execrar a louca precipitação dos desejos, que é o terrível mal dos nossos dias. Comecemos por dedicar alguns minutos diariamente à reflexão sobre nós mesmos. Perguntemos se não estamos perdidos dentro de nossos próprios labirintos. Quanto mais pensamos em nossos anseios, mais confundimos neces- sidade com ambição, mais nos afastamos de Deus, mais nos tornamos autômatos manipu- lados por forças negativas, misturando Sonhos com Loucura.
Não poderia ser mais atual e valioso o conselho do Mestre Maior: “CONHECE-TE A TI MESMO’


PECAJO

domingo, abril 01, 2007

Sedentarismo
















No silêncio absoluto
Sem nada ouvir, nem falar,
Sem emoções,
Sem sorrisos, nem lágrimas,
Espera.
Apesar de tudo
Veste-se de ouro,
Mas com seu olhar fixo
Somente no vai-e-vem incansável,
Apenas à espera
Do que alimenta e conforta
A sua vida inútil.
Ainda assim é admirado.
Na solidão dos quatro vidros
Vive um lindo peixe dourado.

Deise Domingues Gianini

Liberdade de expressão

Se existe um tema que necessariamente deve ser compreendido por toda a sociedade brasileira é, sem dúvida alguma, a questão relacionada à tolerância e à discriminação. Segundo um documento da UNESCO, aprovado em Paris, no dia 16 de novembro de 1995 “a tolerância não é concessão, condescendência, indulgência. A tolerância é, antes de tudo, uma atitude ativa fundada no reconhecimento dos direitos universais da pessoa humana e das liberdades fundamentais do outro.” Isso significa que a concordância de idéias não é um requisito indispensável para a tolerância. Além disso, é possível inferir que discriminar significa fazer diferença e, por conseguinte, renegar os direitos fundamentais da pessoa humana em razão de raça, sexo, religião etc.
Os homossexuais são titulares dos mesmos direitos assegurados a todos os cidadãos incluído o direito ao respeito e À consideração. Porém, respeito e tolerância não implicam aceitação. Por isso, eles não poderiam exigir que o seu modus vivendi fosse aceito por toda a sociedade. Não obstante, o movimento gay pretende obter não apenas a tolerância, mas também a aprovação desse estilo de vida, haja vista ÀS passeatas do orgulho gay que são realizadas ao redor do mundo. A mídia tem apoiado essas campanhas à exaustão.
A questão do homossexualismo é controvertida. Pensadores e religiosos se dividem a respeito do assunto. Uma linha afirma que o homossexualismo está de acordo com a natureza. Outra linha sustenta que o homossexualismo não está de acordo com a natureza nem com o direito natural e a sua prática é pervertida e, até mesmo, doentia.
Mas como o Estado deve tratar esse tema tão controvertido? O Projeto de Lei n.º 5003-b já aprovado pela Câmara dos Deputados e que em breve será apreciado pelo Senado, aponta para uma solução equivocada, conquanto cria novos tipos penais (crimes homofóbicos) e restringe tanto a liberdade de expressão quanto a liberdade religiosa. Por isso, o Promotor de Justiça Cláudio da Silva Leiria afirma que esse projeto é inconstitucional.
Como o tema do homossexualismo é controvertido, a melhor solução seria o Estado manter a neutralidade, sem contudo, deixar de garantir a igualdade de direitos para todos. Existe um risco latente quando o Estado estabelece um ponto final em questões que são controvertidas para a sociedade. O radicalismo, o fanatismo e o totalitarismo não combinam com democracia. Assim sendo, o Estado não pode elevar a conduta homossexual como se fosse imune a críticas, assim como uma religião não pode almejar a sua legitimação pelo Estado não-confessional. Ademais, a liberdade de expressão não pode ser cerceada através de leis draconianas que causariam inveja até mesmo ao próprio Torquemada. O projeto de lei mencionado pode impor uma mordaça a todos aqueles que, por um motivo ou outro, discordem das praticas homossexuais.
Que ironia! No passado os gays estavam sujeitos à fúria dos inquisidores, agora os heterossexuais correm o risco de serem encarcerados se ousarem expor as suas idéias, caso esse projeto seja aprovado. Além disso, há o risco de recriação do index, com a inclusão das Escrituras Sagradas e de outros livros como, por exemplo, A Metafísica dos Costumes de Immanuel Kant, que desabonam essa conduta. A situação é diferente, os tempos mudaram, mas os perigos do dogmatismo e do radicalismo são os mesmos.
Melhor seria que governantes e legisladores seguissem o caminho do equilíbrio e do bom senso pautado pela democracia liberal e pelo respeito aos direitos humanos fundamentais. Questões controvertidas não podem ser decididas e radicalizadas através de uma lei. A liberdade de expressão, como se sabe, é a pedra de toque da democracia. Importa que todos os cidadãos tenham direito À informação e que, também, possam expressar livremente os seus pensamentos sem qualquer tipo de censura – prévia, legal ou judicial. Restrições à liberdade de expressão representam o caminho mais rápido para um retorno à era das trevas com os seus desatinos, horrores e atrocidades.


Aldir Guedes Soriano

quarta-feira, março 28, 2007

Atenção!

O que não usar - Arnaldo Jabor

Algumas coisas que as mulheres devem saber que são tristes de usar...Com isso, e pela importância que dou ao sexo feminino, decidi fazer umapequena listinha de coisas que simplesmente algumas mulheres deveriamrepensar antes de usar (caso uma mera opinião masculina importe).É triste mulher: 1) Usar esmalte com uma florzinha (ou estrelinha) em uma das unhas combinado com a outra mão (no pé já é caso de internação). 2) Salto de acrílico (a não ser que vá fazer um filme pornô ou agradar o namorado fetichista). 3) Lente de contato colorida. Essa é uma das tenebrosas campeãs. Além de dar uma enorme vontade de lacrimejar de aflição (para quem está de frente com o ser), parece que estamos diante de uma personagem do próximo filme do X-Men. 4) Meia-calça cor da pele, tipo Kendall para o inverno (a não ser que tenha mais de setenta anos ou use debaixo da calça em caso de frio extremo). Em hipótese nenhuma deve ser usada com saia e sandália aberta. 5) Calça justa demais, que aperte as partes íntimas (fica parecendo uma pata de camelo). 6) Descolorir os (muitos) pelos da barriga, o famoso "caminho da felicidade". Melhor depilar, caso contrário, é melhor procurar um namorado que tenha colocado blondor no bigodinho. Farão um lindo par. 7) Unha do pé grande, maior do que onde termina o dedo, além de ficar muito feio pode ser um perigo fazendo "carinho" com o pé, no marido ou namorado. Se estiver solteira, vá à praia de meia. 8) Calça jeans com muitas aplicações (rosas coloridas, tachas, strass, etc.). Tudo em exagero polui o visual e esse tipo de calça tem muita informação. Usada junto com o item 2 é uma das piores composições. Se pretende sacanear algum namorado (ou ex), chame o para jantar ou dançar, e vá assim. 9) Perfume Paris, do Yves Saint Laurent. Se não estiver na terceira idade não tem desculpa. As pessoas ao redor não merecem isso e nem todo mundo carrega Neosaldina na bolsa. Usar no verão então, é sadismo. 10) Calça legging com tamanco de madeira. Se você não estiver numa refilmagem de "Grease nos tempos da brilhantina" , use outra maneira de chamar a atenção. Há outras (e muito melhores) maneiras de um cara te achar gostosa.O que os homens nunca deveriam usar - ou ter usadoNa coluna passada brinquei, com o meu ponto de vista, sobre o que asmulheres não deveriam usar - pois era sofrível. Foram dezenas de e-mailsconcordando, mas pedindo para o colunista fazer a mesmíssima coluna,porémsobre os equívocos masculinos. Já tinha isso em mente e aí vai a minhalista para meus queridos leitores. Acho abominável que um homemenvergonhe(no sentido estético) a classe masculina usando: 1) O trio mais famoso do que o do McDonalds: pochete, bermuda jeans e sandália papete. Se vier acompanhado do celular (na capinha) na cintura então. É caso para fingir que não conhece. 2) Blazer com gola rolê por dentro. É o figurino preferido de 10 em cada 10 novos cabeleireiros recém bem-sucedidos na cidade. Esse tipo acha esse conjunto o uniforme da "elegância". Geralmente abrem salão na cidade com os nomes de Roberto's Coiffeur, Cabral's, Antonio's e por aí vai. 3) Sapato social de "franjinha" (aquele detalhe de penduricalho em cima). Se for curto a ponto de aparecer a meia branca por baixo, a coisa beira a piedade. Esse tipo fica ótimo num dublador de Michael Jackson cantando "Billie Jean" no Largo da Carioca. 4) Calça de cintura alta, a chamada "Saintropeito". Cuidado com os testículos! Eles não têm culpa se você se veste mal. Gerentes de churrascaria rodízio costumam adotar esse visual acompanhado de uma vistosa camisa vermelha de seda javanesa. 5) Perfume KOUROS (Yves Saint Laurent). Num acampamento pode ser usado como repelente (pena dos seus companheiros de viagem). Um cara que usa esse perfume se torna inesquecível. O trauma nas pessoas ao redor é irreversível. 6) Essa vai doer em muito "Maurício" mas é a minha opinião: Casaquinho de lã jogado nas costas e amarrado na frente. Esse visual geralmente vem acompanhado de um cabelo arrumado pela mamãe a "La Roberto Justus". Tem solução, mas tem que ser mudado ainda na infância ou no máximo adolescência. Depois fica difícil. 7) Unha suja (e sem cortar). Se você não for o mecânico Pascoal da novela "Belíssima", pode ter certeza que brochará sua namorada ou pretendente. Caso seja bonito como o Gianechinni, ela será somente um pouco mais tolerante, entretanto, irá pedir para limpá-las assim que acabar a noite de fetiche com um desleixado. Não esqueça também de aparecer aqueles pelinhos horríveis que por ventura saiam do nariz ou da orelha - em nome da higiene, please!!!! 8) Base incolor na unha. Triste amigo. Só limpar e cortar já é suficiente. Cuidado se tem esse hábito, pois daqui a pouco estará pedindo "francesinha" no salão. 9) Fazer sobrancelha. Se for tirar um fio maior, ok. Agora, se for limpar e afinar nas extremidades, é melhor tomar cuidado. Daí para usar rímel e delineador é um pulo. Não estranhe se vier uma vontade incontrolável de chamar um amigo de infância para assistir "Brokeback Mountain" comendo pipoca light. 10) Cueca furadinha tipo antiga Adams. Amigo, por favor, treine tirar a calça puxando a cueca junto. Nenhuma mulher no mundo agüenta esse choque visual. Se ela vir a sua cueca é provável que você fique na mão (literalmente).

(Arnaldo Jabor)

quarta-feira, março 21, 2007

Diálogo bobo





- Abandonou-te?
- Pior ainda: esqueceu-me...
[Mario Quintana; Da preguiça como método de trabalho, 1987]

Dia internacional da poesia - 21 de março

Cais

1.
Com tanto navio para partirminha saudade não sabe onde embarcar…
2.
A água comove a pedraque parece fremir levemente.Na oscilação breve das marolasHá homens malogrando olharesvagos, indecisos, alongados.
3.
(Completa ausência de tempo.O calendário se desfaznas sombras, na brisa e na anatomiarecortada do estuário…).
Cambía todos os tonsesta angústia à flor da água.
4.
Não há gaivotas nem quaisquer outros pássaros oceânicos.Todavia, aquela espuma brilhantesugere o roçar logo de algum.
5.
Vem do passado a românticasugestão de velas pandas.Itinerários de descobertas,roteiros de constelações,ilhas remotas habitadaspor estranhos povos inocentes--- pele morena, olhos ariscos,porte severo, movimentos purosde corpos ao vento e ao sol.
6.
Sirene arrepiandoa epiderme do meio-dia.
7.
Silenciosamente pesadosfirmam-se nas horas os navios,fortuitos donos do porto,transitórios proprietáriosde metros de alvenariaque fazem maior a tristezada imensa nostalgia portuária.
Ah! receber todos os adeuses,todos os abraços, todos os olharesde ida e volta e permanecerancorado na paisagem imutável.

Narciso de Andrade

Ladrão?

É incrível como a modernidade se encarrega de evidenciar enorme variedade de vocábulos que parecem disfarçar ou substituir de forma social essa palavra tão presente e, na realidade, a mais adequada a diversas situações e personagens. A imprensa, hoje chamada de mídia, adota diversificada coletânea de expressões ao noticiar atividades ilícitas de cidadãos das várias classes sociais. Estranhamente a palavra foi abandonada.
O que é um ladrão?
Aquele que invade sorrateiramente algum ambiente subtraindo objetos de valor, isto é, exclusivamente alguém que se apossa de bens alheios? Aquele que cobra muito alto por algum trabalho que realiza? Aquele que engana seu parceiro em alguma negociação?
- Ladrão é aquele que envergonha a sua própria consciência, obtendo pela força ou pela astúcia, o que não lhe pertence. Este é o ladrão mais grosseiro; entretanto, ainda existem outros tipos de ladrão disseminados por toda parte:
- É o ladrão que rouba na “maciota” ou no “cara-de-pau” - é o que rouba o tempo seu e dos outros com futilidades.
- É ladrão quem desperdiça as economias de Deus, gastando os pensamentos em coisas vãs, distribuindo pérolas aos porcos – utilizando o tempo precioso com bobagens e discussões tolas.
- Ladrão é o que se apossa do bem coletivo, que desvia recursos destinados à comunidade. Esse é um ladrão vil, dos mais nojentos – causa asco, ojeriza.
- Ladrão é o que recebe procuração de irmãos cidadãos para exercer a representatividade pública e despende tempo e recursos na exclusiva defesa de interesses pessoais ou corporativistas.
A moderna linguagem da imprensa discrimina o vocábulo “ladrão”. Abandona-o amenizando o impacto de seu significado, quando o fato envolve “gente da sociedade” ou políticos. Fica a impressão de que ladrão é um simples pária da comunidade humana, apenas o invasor de residências que furta objetos e desaparece esgueirando-se pelas sombras da noite.
Sempre existiram ladrões, assassinos e mentirosos. A questão é que o momento oferece variedade, quantidade e, o que é pior, especialidade.
Como cuidar deles?
É uma equação que há milhares de anos a própria ciência e as leis humanas buscam e não encontram. Mas quem Busca algum dia haverá de encontrar a verdade por ser Deus infinitamente bom, Pai de justiça e amor. Assim, o que resta aos “normais”, enquanto viventes, é confiar na Justiça Divina e acreditar que todos esses defeitos da personalidade são processos delineados pela natureza. São forças biogenéticas que lutam entre si para que surja o equilíbrio no futuro, com o objetivo de produzir o verdadeiro homem racional, voltado para o BEM.
Enquanto se está no aguardo da Justiça Superior, é preciso que o homem comum faça sua parte: Descartar o Magistrado que libera o ladrão “para mentir”, descartar, não a palavra, mas esse ignóbil ser, através dos meios que o “Regime político” proporciona. É hora de desconsiderarmos as metáforas dissimuladoras do verdadeiro vocábulo atualmente em desuso: LADRÃO


Pecajo – 09.03.06

terça-feira, março 20, 2007

Mundo: Perguntas a Bento XVI

Frei Betto *
Adital - Sua Santidade ressuscitou o que o concílio Vaticano II havia enterrado: a missa em latim. Uma exigência do Monsenhor Lefebvre, arcebispo suíço excomungado em 1988, por negar-se a aceitar as reformas conciliares.
Quando criança, assisti a muitas missas em latim, com o celebrante de costas aos fiéis, segundo o rito tridentino de meu co-irmão, o papa Pio V, que foi dominicano. Por que permitir a volta ao latim? Quantos fiéis dominam este idioma? Jesus não falava latim. Falava aramaico. Talvez algo de hebraico. E por viver em uma região dominada por Roma, é certo que conhecia alguns vocábulos latinos, como a saudação romana ‘Ave!’, que foi introduzida na oração mais popular do catolicismo, a Ave Maria.
Assim como o grego se universalizou através do Mediterrâneo, graças às campanhas de Alexandre, o Grande, o latim se propagou através das conquistas do Império Romano. Segundo esta lógica, não seria mais adequado adotar hoje em dia o inglês?
Pois bem, a grande maioria dos fiéis católicos encontra-se atualmente na América Latina. E não entende grego, nem latim, nem inglês. Não seria aconselhável que participassem da missa em sua língua natal?
Considerando o empenho de inculturação da Igreja, não é contraditório voltar a missa em latim? Tenho um amigo, ateu até a medula, que gosta muito de assistir a missas em latim. Para ele a liturgia se reduz a um espetáculo, quanto mais glamuroso, melhor. É uma questão de estética, não de uma ponte comunitária entre o nosso coração sedento e o Transcendente. Me inquieta sua (do Papa) afirmação de é "uma praga" casar-se pela segunda vez e proibir aos católicos o acesso à eucaristia. Os evangelhos ensinam que Jesus comungou com pessoas que, vistas daqui e agora, estavam longe da moral vaticana. E defendeu uma mulher adúltera que ia ser apedrejada pelos moralistas da época. Curou a hemorragia de uma mulher da Cananéia sem exigir previamente a adesão dela à fé que pregava. Curou também um servo de um centurião romano sem lhe impor antes a obrigação de repudiar aos deuses pagãos. Jesus fez o bem, sem olhar a quem.
Tenho amigos e amigas que casaram pela segunda vez. Todos por razões muito sérias, que seriam melhor compreendidas por sacerdotes e bispos se estes, como acontecia na Igreja primitiva, tivessem mulher e filhos. (Convém lembrar que Jesus escolheu homens casados para apóstolos, posto que curou a sogra de Pedro).
Contrair matrimônio é algo tão importante que a Igreja fez dele um sacramento. Acontece que, antes de ser uma instituição, o matrimônio é um ato de amor. E há uniões que fracassam, pois todos somos frágeis e pecadores, e nossas opções, sujeitas a chuvas e tempestades, deveriam merecer a misericordiosa compreensão da Igreja.
Tenho amigos e amigas divorciados que reconstruíram suas relações afetivas e se negam a acatar a proibição de comungar. Minha amiga D., três meses depois do matrimônio sofreu com seu marido um grave acidente de trânsito. Ele ficou tetraplégico. Dois anos depois, com a concordância dele, ela contraiu uma nova relação, uma vez que escutou o homem com quem se havia casado na Igreja dizer: "Porque te amo, quero ver-te plenamente realizada como mulher e mãe". Ela e seu novo esposo visitavam periodicamente o homem acidentado, que sobreviveu sete anos e foi o padrinho do primeiro filho do casal. Devo dizer a essa amiga que Deus, que é Amor, não está em comunhão com ela e que, portanto, trate de ficar distante da mesa eucarística, pois a Igreja a considera "uma praga"?
Certa noite me encontrava na Boca do Acre, em plena selva amazônica, numa celebração em uma comunidade eclesial de base. Dona Raimunda, mãe de seis filhos, cujo marido havia ido para a Transamazônica em busca de trabalho e onde ficou quatro anos sem dar sinais de vida (e ela soube que ele havia constituído outra família lá) - disse na missa, no momento da oração dos fiéis: "Quero agradecer a Deus por haver me dado outro marido, que é um pai bondoso para meus filhos". Dona Raimunda se uniu a outro homem que a ajudava na sobrevivência e na educação dos filhos em uma situação de extrema penúria. Deveria dizer a ela que não se aproximasse da mesa eucarística? Naquele mesmo momento, o Papa Paulo VI, em visita ao Chile, dava a comunhão ao general Pinochet.
Querido papa: leio na primeira Carta de João que "Deus é Amor. Quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus permanece nele" (4,16). Essas pessoas que citei, e tantas outras que conheço, amam e, portanto Deus permanece nelas. Devo adverti-las que não são amadas pela Igreja e que, por isso mesmo, estão proibidas de receber o pão e o vinho transubstanciados no corpo e no sangue de Jesus, o Senhor da compaixão e da misericórdia?
Frei Betto é escritor, autor, junto com Leonardo Boff, de "Mística e espiritualidade", entre outros livros.
* Frei dominicano. Escritor

O império contra ataca ---A viagem de Bush pela América Latina

Yo no te digo tío, Don Samuel ----- Porque hermano de mi patria usted no es


E, então, os olhos do governo estadunidense se voltaram para a América Latina. Depois de anos matando iraquianos civis, sob o argumento de que são malvados terroristas, e ainda disseminando pela mídia prostituída outras tantas mentiras acerca do Irã, George W. Bush decidiu dar um passeio pelo quintal de casa, visto que, para ele, algumas ervas daninhas estão crescendo para além da conta e é preciso passar a ceifadeira.

O jornal New York Times mostrou, em detalhes, à nação do norte que a Venezuela anda gastando muito dinheiro com materiais militares e, segundo os analistas, isso se configura um abuso. É claro que o mesmo jornal não dá uma linha sobre o material bélico produzido anualmente pelos Estados Unidos. Bom, isso não é novidade. Para os estadunidenses, o país ter o maior arsenal de armas do mundo, inclusive atômicas, é muito natural. São a polícia do mundo. Eles podem ter bombas atômicas. O Irã ou qualquer outro país, não.

Pois é para tentar cortar as "asinhas" do presidente venezuelano (a erva daninha em questão) que Bush faz um rápido ecorrido pelo sul do continente. A ascendência "maléfica" de Chávez sobre Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador, está fugindo ao controle, pensam os conselheiros do governo estadunidense. Além disso, pelas beiradas, Chávez vem fazendo acordos com países que, apesar de não guinarem muito para a esquerda, estão buscando novas parcerias, livres das garras da águia, como a Argentina, por exemplo, com quem firmou contratos bilaterais bastante significativos, além do compromisso de também apoiar a idéia de uma nação única, latino-americana, configurando um grande bloco de poder.

Outros países do Caribe e da América Central têm fechado acordos envolvendo trocas comerciais dentro dos moldes da ALBA, a Alternativa Bolivariana para as Américas, que propõe um novo modelo de contratos, sempre levando em consideração a realidade social, econômica e cultural dos povos, sem imposições vantajosas apenas para quem tem maior poder de barganha. O oposto da ALCA, sonhada pelo governo dos Bush, desde o pai.

A viagem do presidente estadunidense é paradigmática. Funcional tal como no passado funcionavam os passeios dos Césares. O império se fazendo ver, o grande olho a observar e a dizer: estamos aqui. Bush visita a Colômbia, com quem mantém estreita relação. Como um bom vassalo, Uribe segue cumprindo as ordens do senhor imperial, reprimindo os movimentos de libertação, fortalecendo o Plano Colômbia - de ocupação massiva por parte dos soldados estadunidenses - desalojando famílias, removendo o terror entre os lutadores sociais. É um parceiro estratégico porque está na fronteira da Venezuela e do Equador, dois dos países considerados "perigosos", subsumidos na "onda vermelha". Passa também pelo Uruguai onde Tabaré Vasquez se configura uma promessa. Já firmou acordo de livre comércio e pode ser um bom aliado na parte sul. Pode ser convencido a não sucumbir aos encantos chavistas e, de quebra, ajudar o parceiro brasileiro nesta empreitada.

Bush ainda vai dar um pulinho na Guatemala, país amigo e uma força a barrar os avanços de Chávez na América Central. Visita também o México, de Felipe Calderón, presidente eleito a partir de eleições fraudulentas, como denunciam os movimentos sociais daquele país. Talvez por isso tenham muito que conversar. Experiências semelhantes. Além disso, o México é a parte mais próxima do quintal. Precisa, mais do que qualquer zona, manter-se limpo das ervas socialistas.

E, o que nos interessa particularmente, Bush visita o Brasil. Vai conversar com o "companheiro" Lula, com quem conta para ajudar a frear o "Efeito C". Na imprensa brasileira já pipocam as análises acerca dos "grandes benefícios" que o imperador traz na bagagem. Uma delas é a possibilidade de um acordo para negócios envolvendo o álcool. Os usineiros já se preparam para, finalmente, entrar no mercado do norte, até então fechado, visto que os EUA fabricam seu próprio álcool. É a "energia do futuro" o grande "produto" no qual a águia está de olho, uma vez que sabe ser o petróleo um bem em extinção, além de causador dos males que o planeta vem vivendo, entre eles o aquecimento global.

Então, os arautos do imperador já se apressam em falar dos "fabulosos" negócios que os empresários da cana poderão fazer, pelo menos em médio prazo, caso os EUA abram mesmo seu mercado. Para os trabalhadores também há vantagens incríveis no horizonte, visto que o número de cortadores de cana deverá aumentar extraordinariamente. A mídia cortesã já saúda o fato de voltarmos aos tempos da casa grande e senzala. O Brasil como um imenso canavial, produzindo a energia limpa que o planeta tanto necessita.

Mas, no meio desta euforia colonizada, as vozes dissonantes já começam a soar. Alguns analistas questionam a idéia de usar produtos comestíveis como combustível. Cana ou óleo de plantas saem da lógica alimentar e passam a ser produtos geradores de energia para sustentar o capital. Há quem diga ser um paradoxo a expressão "desenvolvimento sustentável". Paradoxo e impostura. Não existe. Não nesse modelo capitalista predador. “Haveria que se pensar o que o Samir Amin chama de desconexão”. Um outro modelo de vida, despegado da lógica capitalista. Mas é coisa para muito debate.

De qualquer forma, essa conversa de abrir mercado para o Brasil nos EUA certamente é só um truque no qual apenas uma imprensa cortesã, colonizada e autista pode cair. O que está em questão mesmo é a paralisação da influência de Chávez nos "países amigos". Manter os gerentes dos quintais de rédea curta, bem ao estilo texano, é o objetivo central. Mostrar quem manda, prometer uma migalha aqui e outra ali, inflamar as vaidades, provocar a cizânia e, quem sabe, até acertar algum trato de "combate ao terrorismo", visto que este tipo de coisa já está aparecendo por aqui também, como alardeiam imprensa e governantes.

A grande ameaça comunista que foi o mote para uma série de retrocessos e ferozes ditaduras militares financiadas pelos EUA nos anos 50 e 60 do século passado, agora tem outro nome. É Chávez. Um presidente que tem petróleo e uma proposta de mudança muito concreta, desconectada do império. Não é nem o socialismo, mas já incomoda um bocado. Resta saber qual vai ser a atitude de Lula. Alguém arrisca um palpite?

Entre os movimentos sociais tudo já está claro. E os protestos devem acontecer em todo o país. Não só pelas questões singulares que envolvem o Brasil, mas, solidariamente, em nome de todos os que sofrem os efeitos de um sistema imperial opressor, destrutivo, manipulador e irracional.

O OLA é um projeto de observação e análise das lutas populares na América
Latina. www.ola.cse.ufsc.br

segunda-feira, março 19, 2007

ANÚNCIO PARA ARRUMAR NAMORADA

Matéria publicada em um jornal de circulação diária, do Estado do Ceará.
(Leia também a resposta da pretendente).

Homem descasado procura...

Homem de 40 anos, que só gosta de mulher, após casamento de sete anos, mal sucedido afetivamente, vem através deste anúncio, procurar mulher que só
goste de homem, para compromisso duradouro, desde que esta preencha certos requisitos:

O PRETENDIDO exige que a PRENTENDENTE tenha idade entre 28 e 40 anos, não descartando, evidentemente, aquelas de idade abaixo do limite inferior, descartando as acima do limite superior.

Devem ter um grau razoável de escolaridade, para que não digam na frente de estranhos: "menas vezes", "quando eu si casar”, "pobrema no úter", "eu já si
operei de apênis", "é de grátis", "vamo dea pé", "adoro tar com você" e outras pérolas gramaticais.

Os olhos podem ter qualquer cor, desde que sejam da mesma e olhem para uma mesma direção. Os dentes, além de extremamente brancos, todos os 32, devem permanecer na boca ao deitar e nunca dormirem mergulhados num copo d'água.

O seios devem ser firmes,
do tamanho de um mamão papaia, cujos mamilos olhem
sempre para o céu, quando muito para o purgatório,nunca para o inferno.
Devem ter consistência tal que não escapem pelos dedos, como massa de pão. Por motivos óbvios, a boca e os lábios, devem ter consistência macia, não confundir com beiço. A barriga, se existir, muito pequena e
discreta, e não um ponto de referência.

O PRETENDIDO exige que a PRETENDENTE seja sexualmente normal, isto é, tenha orgasmos, se múltiplos melhor, mas mesmo que eventuais, quando acontecerem, que ela gema um pouco ou pisque os olhos, para que ele sinta-se sexualmente interessante.
Independentemente da experiência sexual do PRETENDIDO, este exige que durante o ato sexual a PRETENDENTE não boceje, não ria, não fique vendo as horas no rádio relógio, não durma ou cochile.

O PRETENDIDO exige que a PRETENDENTE não tenha feito nenhuma sessão de análise, o que poderia camuflar, por algum tempo, uma eventual esquizofrenia.

A PRETENDENTE deverá ter um carro que ande, nem que seja uma Brasília, que tenha dinheiro para o táxi, uma vez que pela própria idade do PRETENDIDO, ele não tem mais paciência para levar namorada de madrugada para casa.

Enviar cartas com foto recente, de corpo inteiro
frente e costas, da PRETENDENTE, para a redação deste jornal, para o codinome: "CACHORRO MORDIDO DE COBRA TEM MEDO ATÉ DE BARBANTE".

************************************

Resposta da Pretendente, publicada dias após, no mesmo periódico Cearense:

Prezado HOMEM DESCASADO...

Li seu anúncio no jornal e manifesto meu interesse em manter um compromisso duradouro com o senhor, desde que (é claro) o senhor também preencha outros
“certos” requisitos que considero básicos!
Vale lembrar que tais exigências se baseiam em conclusões tiradas acerca do comportamento masculino em diversas relações frustradas, que só não deixaram marcas profundas em minha personalidade, porque "graças a Deus", fiz anos de terapia, o que
infelizmente contraria uma de suas exigências!

Quanto à idade convém ressaltar que espero que o senhor tenha a maturidade dos 40 anos e o vigor dos 28, e que seu grau de escolaridade supere a
cultura que porventura tenha adquirido assistindo aos programas do "Show do Milhão"...!

Seus olhos podem ser de qualquer cor desde que vejam algo além de jogos de futebol e revistas de mulher pelada. E seus dentes devem sorrir mesmo quando
lhe for solicitado que lave a louça ou arrume a cama.

Não é necessário que seus músculos tenham sido esculpidos pelo halterofilismo, mas que seus braços sejam fortes o suficiente para carregar as compras.
Quanto à boca, por motivos também óbvios, além de cumprir com eficiência as funções a que se destinam as bocas no relacionamento de um casal, devem
servir, inclusive, para pronunciar palavras doces e gentis e não somente:
“PEGA MAIS UMA CERVEJA AÍ, MULHER!".

A barriga, que é quase certo que o senhor a tenha, é tolerável, desde que não atrapalhe para abaixar ao pegar as cuecas e meias que jamais deverão ficar no chão. Quanto ao desempenho sexual espera-se que corresponda ao menos polidamente à "performance" daquilo que o senhor "diz que faz" aos seus amigos!
E que durante o ato sexual, não precise levar para a cama livros do tipo: "Manual do corpo humano" ou "Mulher, esse ser estranho"!

No que diz respeito ao item alimentação, cumpre estar atualizado com a lista dos melhores restaurantes, ser um bom conhecedor de vinhos e toda espécie de
iguarias, além de bancar as contas, evidentemente.

Em relação ao carro, tornam-se desnecessários os trajetos durante a madrugada, uma vez que, havendo correspondência nas exigências que por ora
faço, pretendo mudar-me de mala e cuia para a sua casa... meu amor!

Ass.: A COBRA

domingo, março 18, 2007

Vaticano condena teólogo da libertação

12.03.07 - EL SALVADOR

Adital - O arcebispo de San Salvador, Fernando Sáenz Lacalle, confirmou que a Congregação para a Doutrina da Fé notificou Sobrino sobre a proibição de que ministre aulas em qualquer centro católico "até que revise suas conclusões".
Sáenz Lacalle disse que o Vaticano "há algum tempo estuda os escrito de Sobrino e que há muitos anos faz advertências a ele".
Explicou que "o que diz a Santa Sé é que as conclusões dos estudos teológicos sobre Cristo que o padre Sobrino publicou não estão de acordo com a doutrina da Igreja e que ele não poderá ensinar teologia em nenhum centro católico até que revise suas conclusões".
Por sua parte, Sobrino se negou, no momento, a fazer comentários à imprensa sobre a medida do Vaticano, que, segundo outras fontes eclesiásticas, será divulgada na próxima quinta-feira.
Quem é Jon Sobrino
Nascido em Bilbao (Espanha) em 27 de dezembro de 1938, Jon Sobrino reside em El Salvador há cinqüenta anos, dedicado, em grande parte, ao trabalho docente na UCA e a escrever numerosas obras, principalmente sobre a Teologia da Libertação.
Foi um dos criadores da Universidad Centroamericana de San Salvador e um dos maiores propagadores da Teologia da Libertação, sobre a qual escreveu uma dezena de livros.

Heresia

O órgão eclesiástico que elaborou a condenação - era dirigido pelo cardeal Ratzinger e a partir da indicação dele como Papa Bento Dezesseis, em abril de 2005, pelo cardeal Joseph Levada - acusa Sobrino de «falsear a figura de Jesus», e mais concretamente de «não afirmar abertamente sua consciência divina»; quer dizer, a Congregação para a Doutrina da Fé - sucessora da Inquisição - afirma que o jesuíta vasco-salvadorenho caiu na «velha heresia» de acentuar demasiado o lado humano da figura de Jesus de Nazaré e de «ocultar sua divindade». Por isso, o Vaticano aprovou um texto no qual decidiu que ele está proibido, como uma forma de «penitência», dar aulas em centros eclesiais ou publicar livros com o «nihil obstat» da autoridade eclesiástica, com a intenção depois de condená-lo ao «silêncio mais absoluto».

Ao que parece tanto a Companhia de Jesus - à qual pertence Sobrino - como o próprio teólogo conheciam a notícia de antemão, já que, seguindo o procedimento habitual nestes caos, o Vaticano pediu previamente a Sobrino que retificasse seu comportamento por escrito. Entretanto, depois de pensar sobre o assunto e até de consultar o diretor geral da Companhia de Jesus, Sobrino se negou fazer tal retificação.

Teologia da Libertação

Toda essa confusão criou uma grande comoção tanto na Companhia de Jesus como no restante da classe eclesiástica, porque Jon Sobrino hoje, é um dos máximos expoentes da doutrina conhecida com Teologia da Libertação, um movimento de caráter religioso, político e social surgido na época do Concílio do Vaticano de 1962-1965 e que, afinal, não é mais do que um movimento em favor dos pobres e marginalizados e que propõe a justiça social.

A Teologia da Libertação se desenvolveu rapidamente por toda a América Latina, apesar de a hierarquia da Igreja Católica ter se oposto a ela desde o primeiro momento.

Ciclos

Aos 5 anos tocava piano
Aos 10 anos falava inglês
Aos 15 debutava
Aos 18 engravidava
Aos 20 separava
Aos 25 tornava a se juntar
Aos 30 fazia análise
Aos 35 se emancipava
Aos 40 pensava
Aos 50 olhava para trás
Aos 55 engordava
Aos 60 criava netos
Aos 65 chorava
Aos 70 tocava piano
Aos 80 falava inglês

Mário Sérgio de Souza Andrade

segunda-feira, março 12, 2007

Poemas de Manoel de Barros




O catador


Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.


Tratado geral das grandezas do ínfimo, Editora Record - 2001, pág. 43.




A namorada



Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por
um cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.


Texto extraído do livro "Tratado geral das grandezas do ínfimo", Editora Record - Rio de

Janeiro, 2001, pág. 17.

sábado, março 10, 2007

A lição do perdão

R E F L E X Ã O - 378

De todas as Divinas lições passadas pelo Mestre Jesus, sem dúvida, a que mais dificilmente a humanidade consegue assimilar e aplicar, se refere ao perdão.
“Reconciliai-vos o mais depressa com o vosso adversário, enquanto estais com ele no caminho, a fim de que vosso adversário não vos entregue ao juiz, e que o juiz não vos entregue ao ministro da justiça, e que não sejais aprisionados”
Severas dissensões e, não raro, tragédias que comprometem mais de uma geração, somente ocorrem pela incapacidade de perdoar, o que invariavelmente estabelece sentimentos de ódio e vingança. Efetivamente não é fácil, principalmente quando a ofensa tem como nascedouro alguma atitude traiçoeira que parte de pessoa até então merecedora de plena confiança; dessas que desfrutam de ampla e irrestrita intimidade.
O ódio e o rancor expõem o predomínio da ausência de grandeza na alma do ofendido. Quem consegue exercitar e aplicar o perdão certamente se posiciona acima dos insultos que se lhe podem dirigir. É óbvia a existência daquele que aparenta exercer a misericórdia, mas compromete-se ainda mais diante das Leis Divinas, expondo publicamente a concessão que supõe tratar-se de um ato de “perdão”. Ostentação para si e humilhação para a outra parte. Tais situações denotam plena ausência da generosidade e indiscutível prevalência do orgulho. Na prática de qualquer ação generosa não pode haver espaço nem tempo para se calcular quais as perdas ou lucros decorrentes do ato, pois seu autor não se lembrará da ofensa, nem terá qualquer sentimento de orgulho a respeito, isto é, não exibirá o mérito de ser misericordioso.
Segundo Maktub (personagem de Paulo Coelho) o mosteiro de Sceta assistiu certa tarde, a um raríssimo fato, quando, para surpresa de todos, um monge ofendeu a outro com palavras grosseiras.
O superior do mosteiro, abade Sisois, no cumprimento de sua missão educativa, pediu humildemente ao monge ofendido que perdoasse seu agressor.
- De jeito nenhum – respondeu o monge – Ele fez, ele terá que pagar.
No mesmo instante, o abade Sisois levantou os braços para o céu e começou a orar:
“Jesus, Divino Mestre, não precisamos mais de Ti, nem das Leis de Deus.
Já somos capazes de fazer os agressores pagarem por suas ofensas. Já somos capazes de
tomar a vingança em nossas mãos, e cuidar do Bem e do Mal. Portanto, o Senhor pode
afastar-se de nós, sem problemas”
Diante da surpreendente cena, envergonhado, o monge perdoou imediatamente o seu irmão. A paz voltou ao conjunto e todos aprenderam mais uma maravilhosa lição.


Pecajo – 09.03.07

domingo, março 04, 2007

Eu sou aquela mulher



Eu sou aquela mulher a quem o tempo muito ensinou.Ensinou a amar a vida e não desistir da luta,recomeçar na derrota renunciar a palavras e pensamentos negativos.Acreditar nos valores humanos e ser otimista.
Creio na força imanente que vai gerando a família humana,numa corrente luminosa de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana,na superação dos erros e angústias do presente.Aprendi que mais vale lutar do que recolher tudo fácil.Antes acreditar do que duvidar.


Cora Coralina