Psique: oi
Eros2002: oi
Psique: tudo bem com você?
Eros2002: então a umas horas de seu aniversário?
Psique: você lembrou?
Eros2002: sim
Psique: você é um amor
Eros2002: obrigado, você merece.
Psique: meu pc resolveu pifar justo ontem
Eros2002: sim
Eros2002: e...
Psique: deu um trabalho
Eros2002: e...
Psique: o técnico ficou dois dias aqui, mexendo em tudo.
Eros2002: mexeu onde?
Psique: no pc
Eros2002: ah!
Psique: o que pensou?
Eros2002: nada
Eros2002: e bebeu vinho com você?
Psique: claro que não
Eros2002: ok
Eros2002: ótimo!
Psique: agora tenho que fazer minhas configurações pessoais de novo, no pc.
Psique: não acho a nave espacial azul que estava aqui
Eros2002: vai se configurar com quem?
Psique: as cores, tamanho de letra, papel de parede, etc., etc.,
Eros2002: etc.?
Psique: sim, amore
Eros2002: e o Drummond morde?
Psique: Dru é o meu PC
Eros2002: ah!
Psique: e você como está?
Eros2002: carente
Psique: telefone para mim
Eros2002: agora não dá
Eros2002: amanhã, você merece...
Psique: então continue carente
Eros2002: obrigado
Psique: vai telefonar pelo meu aniversário?
Eros2002: oui
Psique: de madrugada?
Eros2002: se possível sim, para ouvir a sua voz...
Psique: adoro você!
Eros2002: quero só ver quando for no real
Psique: isso vai acontecer?
Eros2002: nada é impossível
Psique: é verdade
Eros2002: eu penso assim
Psique: mas eu quero saber como está, conte-me...
Eros2002: ando um pouco estressado
Psique: sentiu a minha falta?
Eros2002: sim
Eros2002: e, sobretudo da sua voz...
Psique: muito ou só um pouquinho?
Eros2002: muito e um pouquinho também
Psique: como assim?
Eros2002: muito, mais um pouquinho.
Psique: ah!
Eros2002: é!
Psique: quando quiser ouvir a minha voz, sabe como fazer.
Eros2002: e a nossa última conversa foi muito interessante, e acalorada...
Psique: é me deixou com muito calor...
Eros2002: e gostou?
Psique: só lamento que seja dessa forma
Eros2002: também eu
Psique: você é ótimo!
Eros2002: oui?
Psique: aliás, quando estou feliz adoro o mundo todo!
Eros2002: ah!
Psique: você já me viu brava?
Eros2002: não
Psique: nem queira
Eros2002: ok
Psique: tem mais alguém on line da nossa turma?
Eros2002: tem dois amigos...
Psique: você demora...
Eros2002: estou lendo mensagens, sua ciumentinha...
Psique: está enganado
Psique: vamos fazer uma conferência?
Eros2002: não me apetece agora
Psique: por quê?
Eros2002: sinto-me cansado e daqui a pouco vou deitar
Psique: já?
Eros2002: daqui a pouco
Psique: gosto de estar com você, bobinho.
Eros2002: sim?
Eros2002: e...
Psique: vai me telefonar hoje de madrugada?
Eros2002: sim, já disse, só se me for impossível de tudo.
Psique: eu compreendo
Eros2002: e ouvir os seus suspiros matinais misturados...
Psique: vai falar francês no meu ouvido?
Eros2002: oui!
Psique: humm...
Psique: bobagens?
Eros2002: sim
Psique: é bom, não é?
Eros2002: sim
Psique: às vezes sinto-me só
Eros2002: está comigo aqui
Psique: você tem sido um bom companheiro, mesmo à distância.
Eros2002: ótimo
Psique: mas eu estou com vontade de chorar desde cedo
Eros2002: você é forte
Eros2002: e tem aqui um amigo
Eros2002: com vinho ou sem ele...
Psique: tem acontecido muita coisa nesta semana, mas, eu sou forte mesmo e isso passa.
Eros2002: você também tem sido minha amiga
Eros2002: pense em sexo, esqueça isso...
Psique: SEXO?
Eros2002: oui...
Eros2002: mon amouuuuuuuuurrrrrrrrr
Psique: estou rindo tão alto que o vizinho pode escutar
Eros2002: bom, vou-me deitar.
Psique: durma bem, boa noite.
Eros2002: e...
Psique: descanse meu bem.
Eros2002: só?
Psique: sonhe comigo
Eros2002: e...
Psique: beijos
Eros2002: onde?
Psique: na boca
Eros2002: para eu sonha melhor...
Psique: quero que imagine que estou deitada com a cabeça em seu ombro e dormindo em seus braços...
Eros2002: sóoooooooooooo?
Eros2002: não me quer para mais nada?
Psique: isso é tão bom!
Eros2002: ok
Psique: bem abraçadinha...
Eros2002: e...
Psique: só, assanhado!
Eros2002: e...
Psique: durma bem
Eros2002: e...
Psique: adoro você!
Eros2002: e...
Psique: e...
Eros2002: quero levar um sonho erótico comigo para dormir sobre ele...
Psique: não, pense em algo bem romântico.
Psique: simples e bonito
Eros2002: ok
Psique: como encostar a cabeça em seu peito e dormir
Eros2002: só dormir?
Psique: oui... boa noite...
Eros2002: beijos... boa noite
quinta-feira, julho 12, 2007
quarta-feira, julho 11, 2007
No recesso do coração - Paulo Coelho
Há alguns meses publiquei neste espaço uma coluna chamada “Os segredos do porão”, descrevendo um retiro que terminou em um mágico jantar nos subterrâneos da Abadia de Melk, na Áustria. No artigo, eu comentava que ao olhar os porões de minha alma, tudo que podia encontrar ali eram meus erros, e que procuraria organizá-los de modo que eles não me assustassem, e me ajudassem a compreender melhor as coisas que não devia repetir. Estava em companhia, entre outras pessoas, do Abade Dr. Burkhard Ellegast, OSB, que eu considero um mestre espiritual, embora não consigamos falar uma língua em comum (não consigo sequer pedir um copo d’água em alemão). Para minha surpresa, o abade Burkhard escreveu um texto a respeito de “Os segredos do porão”, e aqui adapto parte de suas reflexões.!
“Muitas vezes costumamos perguntar: como é que isso aconteceu conosco? De repente, me vi cercado de gente que estava disposta a refletir sobre o significado da vida. Que poderia eu dizer para estas pessoas, se tudo que aconteceu em minha existência foi entrar para um convento ainda jovem, e mais tarde ser encarregado de dirigir esta abadia por 26 anos?”
“Penso que as pessoas me olhavam como se eu tivesse uma resposta para tudo. Mas tudo que decidi fazer foi falar um pouco de mim. Dizer que minha fé é capaz de me manter vivo e entusiasmado por seguir adiante, apesar dos momentos de pessimismo. Expliquei então o meu lema: se eu der um passo errado e for arrastado para o fundo, isso jamais será feito de maneira discreta. Todos me verão gritando, chutando, agitando bandeiras, de modo que possa servir de alerta para os que virão”.
“Por causa deste lema, sei que dificilmente levarei outros comigo em meus erros, e, portanto consigo dominar meu medo e me arrisco a dirigir meu barco para águas desconhecidas. Eu sei, é claro, que se eu começar a me afogar, apesar do barulho que estiver fazendo, ainda poderei levantar minha mão e pedir: Deus, por favor, me acuda! Com toda certeza serei ouvido, e um novo caminho se abrirá”.
“Em seu artigo, Paulo Coelho comenta que ficou surpreso ao ver que eu o apresentava usando um texto de seu livro “Onze Minutos” (NR – o livro é sobre sexo e prostituição, claro que eu tinha que ficar surpreso!). Eu relatei um trecho do diário da personagem principal, onde ela conta a história de um lindo pássaro que costumava visitá-la. Ela o admirava tanto que um dia resolveu prendê-lo em uma gaiola, para poder ter sempre seu canto e sua beleza presentes. Com o passar dos dias, ela se acostumou com a nova companhia, e perdeu o deslumbramento de esperar por aquela alma livre que a visitava de vez em quando, sem qualquer coerção. O pássaro, por sua vez, não conseguia cantar em cativeiro, e terminou morrendo. Só então ela conseguiu entender que o amor precisava de liberdade para exprimir todo o seu encanto –! embora a liberdade pressuponha riscos.
“Nós temos a tendência de procurar o cativeiro porque costumamos ver a liberdade como algo que não tem fronteira nem responsabilidades. E por causa disso, terminamos também tentando escravizar tudo aquilo que amamos – como se o egoísmo fosse a única forma de manter o nosso mundo equilibrado. O amor não limita; amplia nossos horizontes, podemos ver claramente o que está fora, e podemos ver mais claramente ainda os lugares escuros de nosso coração”.
“Embora eu não fale inglês, eu podia entender tudo que os olhos e os gestos de Coelho diziam. Eu posso me lembrar ainda de quando me perguntou, através de uma das pessoas presentes, o que devia fazer agora. Então respondi: continue procurando”.
“E quando encontrar, mesmo assim ainda continue procurando, com entusiasmo e curiosidade. Apesar dos erros que eventualmente serão cometidos, o amor é mais forte, permite que o pássaro voe em liberdade, e cada passo não será apenas um movimento adiante, mas conterá em si todo um novo caminho”.
“Muitas vezes costumamos perguntar: como é que isso aconteceu conosco? De repente, me vi cercado de gente que estava disposta a refletir sobre o significado da vida. Que poderia eu dizer para estas pessoas, se tudo que aconteceu em minha existência foi entrar para um convento ainda jovem, e mais tarde ser encarregado de dirigir esta abadia por 26 anos?”
“Penso que as pessoas me olhavam como se eu tivesse uma resposta para tudo. Mas tudo que decidi fazer foi falar um pouco de mim. Dizer que minha fé é capaz de me manter vivo e entusiasmado por seguir adiante, apesar dos momentos de pessimismo. Expliquei então o meu lema: se eu der um passo errado e for arrastado para o fundo, isso jamais será feito de maneira discreta. Todos me verão gritando, chutando, agitando bandeiras, de modo que possa servir de alerta para os que virão”.
“Por causa deste lema, sei que dificilmente levarei outros comigo em meus erros, e, portanto consigo dominar meu medo e me arrisco a dirigir meu barco para águas desconhecidas. Eu sei, é claro, que se eu começar a me afogar, apesar do barulho que estiver fazendo, ainda poderei levantar minha mão e pedir: Deus, por favor, me acuda! Com toda certeza serei ouvido, e um novo caminho se abrirá”.
“Em seu artigo, Paulo Coelho comenta que ficou surpreso ao ver que eu o apresentava usando um texto de seu livro “Onze Minutos” (NR – o livro é sobre sexo e prostituição, claro que eu tinha que ficar surpreso!). Eu relatei um trecho do diário da personagem principal, onde ela conta a história de um lindo pássaro que costumava visitá-la. Ela o admirava tanto que um dia resolveu prendê-lo em uma gaiola, para poder ter sempre seu canto e sua beleza presentes. Com o passar dos dias, ela se acostumou com a nova companhia, e perdeu o deslumbramento de esperar por aquela alma livre que a visitava de vez em quando, sem qualquer coerção. O pássaro, por sua vez, não conseguia cantar em cativeiro, e terminou morrendo. Só então ela conseguiu entender que o amor precisava de liberdade para exprimir todo o seu encanto –! embora a liberdade pressuponha riscos.
“Nós temos a tendência de procurar o cativeiro porque costumamos ver a liberdade como algo que não tem fronteira nem responsabilidades. E por causa disso, terminamos também tentando escravizar tudo aquilo que amamos – como se o egoísmo fosse a única forma de manter o nosso mundo equilibrado. O amor não limita; amplia nossos horizontes, podemos ver claramente o que está fora, e podemos ver mais claramente ainda os lugares escuros de nosso coração”.
“Embora eu não fale inglês, eu podia entender tudo que os olhos e os gestos de Coelho diziam. Eu posso me lembrar ainda de quando me perguntou, através de uma das pessoas presentes, o que devia fazer agora. Então respondi: continue procurando”.
“E quando encontrar, mesmo assim ainda continue procurando, com entusiasmo e curiosidade. Apesar dos erros que eventualmente serão cometidos, o amor é mais forte, permite que o pássaro voe em liberdade, e cada passo não será apenas um movimento adiante, mas conterá em si todo um novo caminho”.
Depende da maneira como se fala
Certa vez um rei sonhou que havia perdido todos os dentes. Ele acordou assustado e mandou chamar um sábio para que interpretasse o sonho.- Que desgraça, Senhor! Exclamou o sábio. Cada dente caído representa a perda de um parente de Vossa Majestade! - Mas que insolente, gritou o rei. Como se atreve a dizer tal coisa?Então, ele chamou os guardas e mandou que lhe dessem cem chicotadas. Aí resolveu chamar outro sábio para interpretar o mesmo sonho. E este lhe disse:- Senhor, uma grande felicidade vos está reservada! O sonho indica que ireis viver mais que todos os vossos parentes! A fisionomia do rei se iluminou e ele mandou dar cem moedas de ouro ao sábio. Quando este saía do palácio um cortesão perguntou ao sábio:- Como é possível? A interpretação que você fez foi a mesma do seu colega. No entanto, ele levou chicotadas e você, moedas de ouro! - Lembre-se sempre... respondeu o sábio, TUDO DEPENDE DA MANEIRA DE DIZER AS COISAS... Precisamos aprender como nos direcionar as pessoas que nos cercam, muitas vezes elas precisam apenas de uma palavra amiga ou uma mão estendida.(Desc.Autor)
segunda-feira, julho 09, 2007
Quase nada? Pe. Carlos F. da Silva
Não aprecio polêmicas estéreis. Jamais tive disposição de impor, a qualquer custo, qualquer verdade, por mais cristalina que fosse. No campo da moral, então, sempre tive um cuidado escrupuloso para tratar de temas delicados, bem como aqueles necessários e urgentes como o aborto. Mas não há como não reagir pronta e apaixonadamente a uma declaração de modelo Gisele Bundchen na qual afirma que, com quatro meses de vida, o bebê é quase nada. Dá uma indignação tão grande que a vontade é de possuir o mesmo espaço que ela tem na mídia para gritar que ela está terrivelmente equivocada. O erro da moça é tão grandioso que supera fronteiras até mesmo da militância abortista. Chega a ser expressão de uma estrondosa burrice. Acostumada como é de ser bajulada em toda parte, certamente ela não teve tempo sequer para ser minimamente informada sobre o assunto. Sua ignorância é colossal.
Todo mundo sabe, menos ela, que na décima sexta semana os principais órgãos do feto já estão completamente formados. O bebê está bem crescido, com cerca de quinze centímetros e já chegou numa fase de maturidade razoável. Para as mulheres que, carinhosamente, aguardam o nascimento do filho, justamente no final do quarto mês é que podem ver a imagem inteira do bebê. Nesse período, com os avanços tecnológicos médicos de hoje, por meio de uma ultra-sonografia já se pode diagnosticar, por exemplo, se a gestação é de gêmeos ou se existem anormalidades genéticas. Com quatro meses, os pais amorosos que desejam o nascimento da criança, podem até saber também qual o sexo do bebê e onde a placenta está alojada. É nessa hora que se constata também as batidas do coração do feto. Essas informações básicas e seguras podem ser obtidas no mais simples material sobre gravidez. Lá onde a Gisele mora, os Estados Unidos da América, essas informações devem ser acessíveis em qualquer panfleto de farmácia. Mas ela deve se ocupar de coisas mais importantes e se sente completamente à vontade para opinar sobre o assunto, quando está em terras consideradas desinformadas, pelo que se pode deduzir de sua folga em tratar do tema.
Qualquer consideração sobre o embrião dentro ou fora do caldeirão de discussões sobre o aborto precisaria responder ao conhecimento básico de seu crescimento. Se não houver, ao menos, informação suficiente a respeito da mecânica, como se poderá tratar de ética, de amor, de defesa da vida? E o que me parece mais curiosamente perverso nesse assunto absurdo, nessa situação, é justamente o fato da declaração partir de uma mulher, pois isso significa que ela nem se deu conta de como se dá uma fase importante de atividade de seu aparelho reprodutor. Faltando-lhe uma consciência do ser mulher, não se pode entender como é que lhe parece cômodo fazer afirmações dessa natureza.
Costuma-se dizer que existem três espécies de ignorância: o nada saber, o saber mal o que se sabe e o saber coisa diversa da que se deveria saber. A beldade loura mais bem paga do planeta para exibir-se enquanto mostra roupas (ou falta delas) pelo mundo afora navega entre as três categorias com a mesma desenvoltura de que desliza numa passarela. Impossível não registrar uma máxima do alemão Goethe: “não há nada mais terrível do que uma ignorância ativa”. É mais avalassaladora. Especialmente se demonstrada por uma pessoa que tem todos os canais da comunicação de massa aos seus pés em qualquer parte do mundo já mortalmente contaminado pela mentalidade do consumo. Nem dá para levar em conta a intenção embutida no comentário estúpido. O aborto é uma questão tão séria que não pode ser trazida à tona pelo murmúrio todo de alguém que nem se deu ao trabalho de freqüentar bem a escola. O aborto é uma questão humana, antes de ser moral. É uma questão de saúde, antes se ser objeto de análise das religiões. O aborto só pode ser foco de um debate aceitável se os seus defensores ou combatentes possuírem o mínimo de informação técnica. Uma mulher que denuncia ter cabulado a aula de Puericultura não está apta para participar da conversa em público. Talvez tenha sido o tilintar dos níqueis que, lamentavelmente, arrancou essa menina do caminho da formação geral e a jogou no circo das bobagens. Que pena!
Todo mundo sabe, menos ela, que na décima sexta semana os principais órgãos do feto já estão completamente formados. O bebê está bem crescido, com cerca de quinze centímetros e já chegou numa fase de maturidade razoável. Para as mulheres que, carinhosamente, aguardam o nascimento do filho, justamente no final do quarto mês é que podem ver a imagem inteira do bebê. Nesse período, com os avanços tecnológicos médicos de hoje, por meio de uma ultra-sonografia já se pode diagnosticar, por exemplo, se a gestação é de gêmeos ou se existem anormalidades genéticas. Com quatro meses, os pais amorosos que desejam o nascimento da criança, podem até saber também qual o sexo do bebê e onde a placenta está alojada. É nessa hora que se constata também as batidas do coração do feto. Essas informações básicas e seguras podem ser obtidas no mais simples material sobre gravidez. Lá onde a Gisele mora, os Estados Unidos da América, essas informações devem ser acessíveis em qualquer panfleto de farmácia. Mas ela deve se ocupar de coisas mais importantes e se sente completamente à vontade para opinar sobre o assunto, quando está em terras consideradas desinformadas, pelo que se pode deduzir de sua folga em tratar do tema.
Qualquer consideração sobre o embrião dentro ou fora do caldeirão de discussões sobre o aborto precisaria responder ao conhecimento básico de seu crescimento. Se não houver, ao menos, informação suficiente a respeito da mecânica, como se poderá tratar de ética, de amor, de defesa da vida? E o que me parece mais curiosamente perverso nesse assunto absurdo, nessa situação, é justamente o fato da declaração partir de uma mulher, pois isso significa que ela nem se deu conta de como se dá uma fase importante de atividade de seu aparelho reprodutor. Faltando-lhe uma consciência do ser mulher, não se pode entender como é que lhe parece cômodo fazer afirmações dessa natureza.
Costuma-se dizer que existem três espécies de ignorância: o nada saber, o saber mal o que se sabe e o saber coisa diversa da que se deveria saber. A beldade loura mais bem paga do planeta para exibir-se enquanto mostra roupas (ou falta delas) pelo mundo afora navega entre as três categorias com a mesma desenvoltura de que desliza numa passarela. Impossível não registrar uma máxima do alemão Goethe: “não há nada mais terrível do que uma ignorância ativa”. É mais avalassaladora. Especialmente se demonstrada por uma pessoa que tem todos os canais da comunicação de massa aos seus pés em qualquer parte do mundo já mortalmente contaminado pela mentalidade do consumo. Nem dá para levar em conta a intenção embutida no comentário estúpido. O aborto é uma questão tão séria que não pode ser trazida à tona pelo murmúrio todo de alguém que nem se deu ao trabalho de freqüentar bem a escola. O aborto é uma questão humana, antes de ser moral. É uma questão de saúde, antes se ser objeto de análise das religiões. O aborto só pode ser foco de um debate aceitável se os seus defensores ou combatentes possuírem o mínimo de informação técnica. Uma mulher que denuncia ter cabulado a aula de Puericultura não está apta para participar da conversa em público. Talvez tenha sido o tilintar dos níqueis que, lamentavelmente, arrancou essa menina do caminho da formação geral e a jogou no circo das bobagens. Que pena!
quinta-feira, junho 28, 2007
Democracia e ética
CNBB *
Adital -
Nota da CNBB sobre o momento político nacional
Nós, Bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), acompanhamos, perplexos, com todo o povo brasileiro, o momento político atual.
São freqüentes as denúncias de corrupção em várias instâncias dos Três Poderes. Cresce a indignação ética diante da violação de valores fundamentais para a sociedade. A ambição desmedida de riqueza e de poder leva à corrupção. A denúncia do profeta Isaías vale também hoje: "eles gostam de subornos, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão e a causa da viúva nem chega até eles" (Is 1,23). Por isso, as palavras do apóstolo Paulo são apropriadas para este momento: "Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem" (Rm 12,21).
A corrupção e a impunidade estão levando o povo ao descrédito na ação política e nas instituições, enfraquecendo a democracia. A crise, decorrente da falta de consciência moral, é estimulada pela ganância e marcada pelos corporativismos históricos, que utilizam as estruturas de poder para benefício próprio e de grupos.
Os empobrecidos são os mais prejudicados com o desvio das verbas públicas. Os poderes constituídos precisam assumir sua responsabilidade diante da corrupção e da impunidade. Urge também uma profunda reforma do atual sistema político, não limitada à revisão do sistema eleitoral. É necessário aprimorar os mecanismos da democracia representativa e favorecer a democracia participativa; a regulamentação do Art. 14 da Constituição Federal oferece esta possibilidade de participação por meio de referendos, plebiscitos e conselhos. A experiência de participação popular na política é uma conquista e um patrimônio precioso da sociedade.
O povo brasileiro precisa recuperar a esperança. A credibilidade e a legitimidade de nossas instituições serão asseguradas pela apuração da verdade dos fatos, pela restituição dos bens públicos apropriados ilicitamente e pela punição dos delituosos.
Queremos estimular os cristãos que, em nome da sua fé, se engajam no mundo da política, dizendo-lhes que vale a pena dedicar-se à nobre causa do bem comum. O exercício responsável da cidadania é um imperativo ético para todos.
Conclamamos as pessoas de boa vontade e as organizações da sociedade a se posicionarem com coragem, repudiando os desmandos e a impunidade, construindo uma convivência social sadia e velando pelo exercício do poder com honestidade.
Esta crise política poderá se tornar uma ocasião de amadurecimento das instituições democráticas do País, se levar a um comprometimento maior com a verdade que nos liberta e com a luta por um Brasil justo, solidário e livre, onde "justiça e paz se abraçarão" (Sl 85,11).
Brasília, 21 de junho de 2007.
Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana
Presidente da CNBB
Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-Presidente da CNBB
Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar de São Sebastião do Rio de Janeiro
Secretário-Geral da CNBB
* Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
Adital -
Nota da CNBB sobre o momento político nacional
Nós, Bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), acompanhamos, perplexos, com todo o povo brasileiro, o momento político atual.
São freqüentes as denúncias de corrupção em várias instâncias dos Três Poderes. Cresce a indignação ética diante da violação de valores fundamentais para a sociedade. A ambição desmedida de riqueza e de poder leva à corrupção. A denúncia do profeta Isaías vale também hoje: "eles gostam de subornos, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão e a causa da viúva nem chega até eles" (Is 1,23). Por isso, as palavras do apóstolo Paulo são apropriadas para este momento: "Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem" (Rm 12,21).
A corrupção e a impunidade estão levando o povo ao descrédito na ação política e nas instituições, enfraquecendo a democracia. A crise, decorrente da falta de consciência moral, é estimulada pela ganância e marcada pelos corporativismos históricos, que utilizam as estruturas de poder para benefício próprio e de grupos.
Os empobrecidos são os mais prejudicados com o desvio das verbas públicas. Os poderes constituídos precisam assumir sua responsabilidade diante da corrupção e da impunidade. Urge também uma profunda reforma do atual sistema político, não limitada à revisão do sistema eleitoral. É necessário aprimorar os mecanismos da democracia representativa e favorecer a democracia participativa; a regulamentação do Art. 14 da Constituição Federal oferece esta possibilidade de participação por meio de referendos, plebiscitos e conselhos. A experiência de participação popular na política é uma conquista e um patrimônio precioso da sociedade.
O povo brasileiro precisa recuperar a esperança. A credibilidade e a legitimidade de nossas instituições serão asseguradas pela apuração da verdade dos fatos, pela restituição dos bens públicos apropriados ilicitamente e pela punição dos delituosos.
Queremos estimular os cristãos que, em nome da sua fé, se engajam no mundo da política, dizendo-lhes que vale a pena dedicar-se à nobre causa do bem comum. O exercício responsável da cidadania é um imperativo ético para todos.
Conclamamos as pessoas de boa vontade e as organizações da sociedade a se posicionarem com coragem, repudiando os desmandos e a impunidade, construindo uma convivência social sadia e velando pelo exercício do poder com honestidade.
Esta crise política poderá se tornar uma ocasião de amadurecimento das instituições democráticas do País, se levar a um comprometimento maior com a verdade que nos liberta e com a luta por um Brasil justo, solidário e livre, onde "justiça e paz se abraçarão" (Sl 85,11).
Brasília, 21 de junho de 2007.
Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana
Presidente da CNBB
Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-Presidente da CNBB
Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar de São Sebastião do Rio de Janeiro
Secretário-Geral da CNBB
* Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
quarta-feira, junho 27, 2007
Poesias de Martins Fontes
Como é bom ser bom!
Tu, que vês tudo pelo coração,
Que perdoas e esqueces facilmente,
E és, para todos, sempre complacente,
Bendito sejas, venturoso irmão.
Possuis a graça como inspiração
Amas, divides, dás, vives contente,
E a bondade que espalhas, não se sente,
Tão natural é a tua compaixão
.Como o pássaro tem maviosidade,
Tua voz, a cantar, no mesmo tom,
Alivia, consola e persuade.
E assim, tal qual a flor contém o dom.
De concentrar no aroma a suavidade,
Da mesma forma, tu nasceste bom.
Soneto
Se eu fosse Deus seria a vida um sonho,
Nossa existência um júbilo perene!
Nenhum pesar que o espírito envenene
Empanaria a luz do céu risonho!
Não haveria mais: o adeus solene,
A vingança, a maldade, o ódio medonho,
E o maior mal, que a todos anteponho,
A sede, a fome da cobiça infrene!
Eu exterminaria a enfermidade,
Todas as dores da senilidade,
E os pecados mortais seriam dez...
A criação inteira alteraria,
Porém, se eu fosse Deus, te deixaria
Exatamente a mesma que tu és!
Minha Mãe
Beijo-te a mão, que sobre mim se espalma
Para me abençoar e proteger,
Teu puro amor o coração me acalma;
Provo a doçura do teu bem-querer.
Porque a mão te beijei, a minha palma
Olho, analiso, linha a linha, a ver
Se em mim descubro um traço de tua alma,
Se existe em mim a graça do teu ser.
E o M, gravado sobre a mão aberta,
Pela sua clareza, me desperta
Um grato enlevo, que jamais senti:
Quer dizer — Mãe! este M tão perfeito,
E, com certeza, em minha mão foi feito
Para, quando eu for bom, pensar em ti.
A canção cor de rosa
Sempre vivi de amor. Quando eu era criança,
Namorei uma estrela, adorei uma rosa...
Porém, se sempre amei, nunca tive esperança,
Nunca fiz a menor confidência amorosa...
Não sei porque motivo o coração não cansa
Da existência tornar sempre fantasiosa...
O verdadeiro amor é o que jamais se alcança,
Só se ama, a vida inteira, a ilusão caprichosa...
E é porque sei que tu não poderás ser minha,
E a tua perfeição, nem de longe, adivinha
o culto, a hiperdúlia em que vivo a envolvê-la,
Que ando, maravilhado, ao sabor do destino,
Hoje, como no tempo em que, poeta menino,
Namorava uma rosa, adorava uma estrela...
De joelhos e de mãos postas
Amas! Não pode haver bênção mais pura
Do que amar e sentir-se benquerido!
Ter o encanto, a recíproca ventura
De humanamente ser correspondido!
Amas! Sofres a máxima tortura!
Foste por teu amor desiludido!
Esvazias o Cálix da Amargura,
Abafando, em silêncio, o teu gemido!
Amas! E não conheces, em verdade,
O amor, que, em sua luminosidade,
O infinito num beijo condensou!
Porque sejas embora sábio, ou santo,
Nunca hás de amar a tua Mãe, no entanto,
Como sempre, e em segredo, ela te amou!
Adoração
Quem disser que a paixão como o fogo se apaga,
E os soluços do amor são efêmeros ais,
Que tudo é igual ao vento ou semelhante à vaga,
Não o creias jamais, não o creias jamais.
Desde o primeiro olhar, quem de amor se embriaga,
Sente que as atrações são mistérios fatais,
O amor é como o sol cuja luz se propaga,
Em crescente esplendor, em clarões imortais.
Há vinte anos em mim irradia uma aurora!
Amei! Amo! Amarei! Amanhã como outrora!
Arde o meu coração em contínuo fulgor!
É imutável, eterno o meu sonho adorado,
Para te sempre amar, bata-me haver-te amado,
O Amor do teu Amor, eis o Amor, meu Amor!
Fascinação
Amo-te, amo-te muito, amo-te ardentemente,
Sem poder confessar esta paixão profunda,
Este ciúme brutal que surge, de repente,
E os meus olhos febris de lágrimas inunda.
No desespero atroz, em que vivo e me inflamo,
O amor universal meu coração encerra!
Porque eu te amo de um modo extraordinário! eu te amo
Como ninguém amou sobre a face da terra!
Mas, como descrever esta paixão insana,
Esta implacável sede, este anseio faminto,
Se, as imagens verbais da confissão humana,
Jamais conseguirão traduzir o que eu sinto?
Ouço uma orquestra em mim, que soluça e que canta!
O coração me estala, em nervosos arpejos!
E esta música sobe, e atravessa a garganta,
E em meus lábios estruge em blasfêmias e beijos!
Eu, que nunca perdoei, tendo embora sofrido
Tanto e tanto por ti, meu único reclamo,
Perdoaria a amargura, em que tenho vivido,
Se te ouvisse dizer, à hora da morte: - "Eu te amo!"
Quando olhares o céu, como, às vezes, eu faço,
Comparando à minh'alma a noite que se eleva,
Pensa que o meu amor é imenso como o espaço,
Cheio de estrelas de ouro irradiando na treva!
Esta paixão cruel, em que vivo e palpito,
E me faz padecer, no maior desalento,
Dá-me a estranha impressão de um suplício infinito,
A certeza fatal do eterno sofrimento!
Clube de Poetas do Litoral
cplitoral@gmail.com
Tu, que vês tudo pelo coração,
Que perdoas e esqueces facilmente,
E és, para todos, sempre complacente,
Bendito sejas, venturoso irmão.
Possuis a graça como inspiração
Amas, divides, dás, vives contente,
E a bondade que espalhas, não se sente,
Tão natural é a tua compaixão
.Como o pássaro tem maviosidade,
Tua voz, a cantar, no mesmo tom,
Alivia, consola e persuade.
E assim, tal qual a flor contém o dom.
De concentrar no aroma a suavidade,
Da mesma forma, tu nasceste bom.
Soneto
Se eu fosse Deus seria a vida um sonho,
Nossa existência um júbilo perene!
Nenhum pesar que o espírito envenene
Empanaria a luz do céu risonho!
Não haveria mais: o adeus solene,
A vingança, a maldade, o ódio medonho,
E o maior mal, que a todos anteponho,
A sede, a fome da cobiça infrene!
Eu exterminaria a enfermidade,
Todas as dores da senilidade,
E os pecados mortais seriam dez...
A criação inteira alteraria,
Porém, se eu fosse Deus, te deixaria
Exatamente a mesma que tu és!
Minha Mãe
Beijo-te a mão, que sobre mim se espalma
Para me abençoar e proteger,
Teu puro amor o coração me acalma;
Provo a doçura do teu bem-querer.
Porque a mão te beijei, a minha palma
Olho, analiso, linha a linha, a ver
Se em mim descubro um traço de tua alma,
Se existe em mim a graça do teu ser.
E o M, gravado sobre a mão aberta,
Pela sua clareza, me desperta
Um grato enlevo, que jamais senti:
Quer dizer — Mãe! este M tão perfeito,
E, com certeza, em minha mão foi feito
Para, quando eu for bom, pensar em ti.
A canção cor de rosa
Sempre vivi de amor. Quando eu era criança,
Namorei uma estrela, adorei uma rosa...
Porém, se sempre amei, nunca tive esperança,
Nunca fiz a menor confidência amorosa...
Não sei porque motivo o coração não cansa
Da existência tornar sempre fantasiosa...
O verdadeiro amor é o que jamais se alcança,
Só se ama, a vida inteira, a ilusão caprichosa...
E é porque sei que tu não poderás ser minha,
E a tua perfeição, nem de longe, adivinha
o culto, a hiperdúlia em que vivo a envolvê-la,
Que ando, maravilhado, ao sabor do destino,
Hoje, como no tempo em que, poeta menino,
Namorava uma rosa, adorava uma estrela...
De joelhos e de mãos postas
Amas! Não pode haver bênção mais pura
Do que amar e sentir-se benquerido!
Ter o encanto, a recíproca ventura
De humanamente ser correspondido!
Amas! Sofres a máxima tortura!
Foste por teu amor desiludido!
Esvazias o Cálix da Amargura,
Abafando, em silêncio, o teu gemido!
Amas! E não conheces, em verdade,
O amor, que, em sua luminosidade,
O infinito num beijo condensou!
Porque sejas embora sábio, ou santo,
Nunca hás de amar a tua Mãe, no entanto,
Como sempre, e em segredo, ela te amou!
Adoração
Quem disser que a paixão como o fogo se apaga,
E os soluços do amor são efêmeros ais,
Que tudo é igual ao vento ou semelhante à vaga,
Não o creias jamais, não o creias jamais.
Desde o primeiro olhar, quem de amor se embriaga,
Sente que as atrações são mistérios fatais,
O amor é como o sol cuja luz se propaga,
Em crescente esplendor, em clarões imortais.
Há vinte anos em mim irradia uma aurora!
Amei! Amo! Amarei! Amanhã como outrora!
Arde o meu coração em contínuo fulgor!
É imutável, eterno o meu sonho adorado,
Para te sempre amar, bata-me haver-te amado,
O Amor do teu Amor, eis o Amor, meu Amor!
Fascinação
Amo-te, amo-te muito, amo-te ardentemente,
Sem poder confessar esta paixão profunda,
Este ciúme brutal que surge, de repente,
E os meus olhos febris de lágrimas inunda.
No desespero atroz, em que vivo e me inflamo,
O amor universal meu coração encerra!
Porque eu te amo de um modo extraordinário! eu te amo
Como ninguém amou sobre a face da terra!
Mas, como descrever esta paixão insana,
Esta implacável sede, este anseio faminto,
Se, as imagens verbais da confissão humana,
Jamais conseguirão traduzir o que eu sinto?
Ouço uma orquestra em mim, que soluça e que canta!
O coração me estala, em nervosos arpejos!
E esta música sobe, e atravessa a garganta,
E em meus lábios estruge em blasfêmias e beijos!
Eu, que nunca perdoei, tendo embora sofrido
Tanto e tanto por ti, meu único reclamo,
Perdoaria a amargura, em que tenho vivido,
Se te ouvisse dizer, à hora da morte: - "Eu te amo!"
Quando olhares o céu, como, às vezes, eu faço,
Comparando à minh'alma a noite que se eleva,
Pensa que o meu amor é imenso como o espaço,
Cheio de estrelas de ouro irradiando na treva!
Esta paixão cruel, em que vivo e palpito,
E me faz padecer, no maior desalento,
Dá-me a estranha impressão de um suplício infinito,
A certeza fatal do eterno sofrimento!
Clube de Poetas do Litoral
cplitoral@gmail.com
terça-feira, junho 26, 2007
Sobre provérbios
Cansado de falar por aí provérbios e ditos populares sem saber o quê, às vezes, eles realmente signifcam, sem saber também de sua origem ou quando foi usado pela primeira vez?
A partir de agora o Clube de Poetas do Litoral apresenta o: Proverbiando. Toda semana reapresentando frases que estão na boca do povo há muito, muito tempo
Deus ajuda a quem se ajuda
Este provérbio é de origem francesa e constitui a adaptação da moralidade de uma das fábulas de La Fontaine, "Le Chartier Embourbe". Aide-toi et le ciel t'aidera (ajuda-te e o céu te ajudará).
Com a forma aqui dicionarizada, serviu de divisa, em 1824, a uma sociedade política destinada a induzir a classe média a resistir ao governo. Essa sociedade, de que Guizot chegou a ser um dos presidentes e que teve os jornais "Le Globe" e "Le National" como seus órgãos, ajudou a promover a revolução de 1830 e foi dissolvida em 1832.
Provérbios aproximados: Deus ajuda a quem cedo madruga; Deus ajuda a quem trabalha; Deus é bom trabalhador, mas gosta que o ajude.
Cláudia Brino - Coordenadora do Clube de Poetas do Litoral -
CPL visite:
http://cplitoral.blogspot.com
http://cliquepoetico.blogspot.com
A partir de agora o Clube de Poetas do Litoral apresenta o: Proverbiando. Toda semana reapresentando frases que estão na boca do povo há muito, muito tempo
Deus ajuda a quem se ajuda
Este provérbio é de origem francesa e constitui a adaptação da moralidade de uma das fábulas de La Fontaine, "Le Chartier Embourbe". Aide-toi et le ciel t'aidera (ajuda-te e o céu te ajudará).
Com a forma aqui dicionarizada, serviu de divisa, em 1824, a uma sociedade política destinada a induzir a classe média a resistir ao governo. Essa sociedade, de que Guizot chegou a ser um dos presidentes e que teve os jornais "Le Globe" e "Le National" como seus órgãos, ajudou a promover a revolução de 1830 e foi dissolvida em 1832.
Provérbios aproximados: Deus ajuda a quem cedo madruga; Deus ajuda a quem trabalha; Deus é bom trabalhador, mas gosta que o ajude.
Cláudia Brino - Coordenadora do Clube de Poetas do Litoral -
CPL visite:
http://cplitoral.blogspot.com
http://cliquepoetico.blogspot.com
segunda-feira, junho 25, 2007
Chocolate para a alma
Olá fofuxa
Finalmente consegui ter net outra vez.
Mando este mail, não só a teu pedido, mas para te dizer que és uma mulher
muito especial. Sinceramente não sei como uma mulher como tu continua
sozinha, porque tens muitas qualidades que eu considero imprescindíveis numa
mulher e que hoje em dia (infelizmente) são tão raras... És uma romântica
"incurável", uma mulher que vai atrás dos seus sonhos e de quem ama, uma
mulher que realmente acredita no amor e, sobretudo, uma mulher apaixonada.
Não sei o que os homens daí têm na cabeça, mas sinceramente devem ser uns
idiotas por não verem a mulher que realmente és e o quanto vales, vales mais
que ouro, platina ou diamante, tu (muito sinceramente) vales o mundo. Eu
daria tudo para encontrar uma mulher como tu, sei que tenho a Susi que vale
muito também, mas sinceramente, se encontrasse alguém como tu, iria-me
apaixonar loucamente, porque tu és uma autentica "Julieta", és uma mulher
que acredita no poder no amor e que está disposta a dar todo o amor que tem
dentro de si e isso é cada vez mais raro, haver alguém que tal como eu,
acredita profundamente no amor... O que mais quero para ti é que encontres a
felicidade seja com quem for ou onde for. Tu, mais que ninguém, merece uma
oportunidade de amar e ser amada por alguém que realmente veja a mulher que
és e que te valorize por isso, tu mereces alguém muito especial que, tal
como tu, acredite no amor e esteja disposto a tudo por esse sentimento tão
belo e poderoso...
Não quero que te trates mal por não encontrares ninguém, sei bem o quão
desesperante isso é, mas o pior que te podes fazer a ti mesma é
entregares-te à depressão e comeres sem parar, porque isso não te ajuda em
nada, alias, isso só te pode prejudicar, quanto mais não seja a nível de
saúde...
Tu és uma mulher tão bela, mesmo a nível físico, não te estragues devido a
tua situação. Em vez de comeres, tenta lembrar-te de tudo o que tenho dito
vezes sem conta, é a verdade... Quando sentires vontade de comer devido a
triste depressão, tenta antes pensar: "eu sou bonita como sou e não posso
deixar esta depressão acabar com a minha beleza “... Sei que deves ter soltado
um sorriso com o que acabei de dizer, mas é a mais pura das verdades, se não
o fosse eu não o diria. Tu és uma mulher linda não só no nível interior,
mas no exterior também. Tu és simplesmente LINDA...
Beijão enorme deste teu amigão que te adora e que se preocupa muito contigo
Pedro
Finalmente consegui ter net outra vez.
Mando este mail, não só a teu pedido, mas para te dizer que és uma mulher
muito especial. Sinceramente não sei como uma mulher como tu continua
sozinha, porque tens muitas qualidades que eu considero imprescindíveis numa
mulher e que hoje em dia (infelizmente) são tão raras... És uma romântica
"incurável", uma mulher que vai atrás dos seus sonhos e de quem ama, uma
mulher que realmente acredita no amor e, sobretudo, uma mulher apaixonada.
Não sei o que os homens daí têm na cabeça, mas sinceramente devem ser uns
idiotas por não verem a mulher que realmente és e o quanto vales, vales mais
que ouro, platina ou diamante, tu (muito sinceramente) vales o mundo. Eu
daria tudo para encontrar uma mulher como tu, sei que tenho a Susi que vale
muito também, mas sinceramente, se encontrasse alguém como tu, iria-me
apaixonar loucamente, porque tu és uma autentica "Julieta", és uma mulher
que acredita no poder no amor e que está disposta a dar todo o amor que tem
dentro de si e isso é cada vez mais raro, haver alguém que tal como eu,
acredita profundamente no amor... O que mais quero para ti é que encontres a
felicidade seja com quem for ou onde for. Tu, mais que ninguém, merece uma
oportunidade de amar e ser amada por alguém que realmente veja a mulher que
és e que te valorize por isso, tu mereces alguém muito especial que, tal
como tu, acredite no amor e esteja disposto a tudo por esse sentimento tão
belo e poderoso...
Não quero que te trates mal por não encontrares ninguém, sei bem o quão
desesperante isso é, mas o pior que te podes fazer a ti mesma é
entregares-te à depressão e comeres sem parar, porque isso não te ajuda em
nada, alias, isso só te pode prejudicar, quanto mais não seja a nível de
saúde...
Tu és uma mulher tão bela, mesmo a nível físico, não te estragues devido a
tua situação. Em vez de comeres, tenta lembrar-te de tudo o que tenho dito
vezes sem conta, é a verdade... Quando sentires vontade de comer devido a
triste depressão, tenta antes pensar: "eu sou bonita como sou e não posso
deixar esta depressão acabar com a minha beleza “... Sei que deves ter soltado
um sorriso com o que acabei de dizer, mas é a mais pura das verdades, se não
o fosse eu não o diria. Tu és uma mulher linda não só no nível interior,
mas no exterior também. Tu és simplesmente LINDA...
Beijão enorme deste teu amigão que te adora e que se preocupa muito contigo
Pedro
sábado, junho 23, 2007
O sinal
Era uma vez um sábio chamado Sidi Mehrez. Estava irritadíssimo com o lugar onde vivia, uma linda cidade à beira do Mar Mediterrâneo; homens e mulheres viviam de maneira depravada, e o dinheiro era o único valor importante. Como Mehrez era também Santo e fazia milagres, resolveu amarrar seu cachecol em torno de Tunis e atirá-la no oceano.
Os edifícios começaram a cair, o chão se levantou, os habitantes entraram em pânico, ao ver que estavam sendo empurrados em direção a morte. Desesperados, resolveram pedir ajuda a um amigo de Mehrez, chamado Sidi Ben Arous. Ben Arous conseguiu convencer o rigoroso Santo a interromper a destruição; mas desde então todas as ruas de Tunis são inclinadas.
Caminho pelo bazar desta cidade africana, trazido pelo vento desta peregrinação com a qual celebro os 20 anos do meu caminho de Santiago (1986). Estou com Adam Fathi e Samir Benali, dois escritores locais; a quinze quilômetros estão as ruínas de Cartago, que no passado remoto foi capaz de enfrentar-se com a poderosa Roma.
Passamos por um lindo edifício: em 1754, um irmão matou o outro. O pai de ambos resolveu construir este palácio para abrigar uma escola, mantendo viva a memória de seu filho assassinado. Comento que, ao fazer isso, o filho assassino também seria lembrado.
- Não é bem assim – responde Samil. - Em nossa cultura, o criminoso divide a culpa com todos que lhe permitiram cometer o crime. Quando um homem é executado, aquele que lhe vendeu a arma é também responsável diante de Deus. A única maneira do pai corrigir que considerava seu erro, foi transformando a tragédia em algo que possa ajudar os outros: ao invés da vingança que se limita ao castigo, a escola permitiu que a instrução e a sabedoria pudessem ser transmitidas há mais de dois séculos.
Em uma das portas da antiga muralha há uma lanterna. Fathi comenta o fato de eu ser um escritor conhecido, enquanto ele ainda luta por reconhecimento:
- Aqui está a origem de um dos mais célebres provérbios árabes: “a luz ilumina apenas o estrangeiro”.
Digo que Jesus fez o mesmo comentário: ninguém é profeta em sua própria terra. Tendemos sempre a valorizar aquilo que vem de longe, sem jamais reconhecer tudo de belo que está ao nosso redor.
Entramos em um antigo palácio, hoje transformado em centro cultural. Meus dois amigos começam explicar-me a história do lugar, mas minha atenção foi completamente desviada pelo som de um piano, e começo a seguí-lo pelos labirintos do edifício. Termino em uma sala onde um homem e uma mulher, aparentemente alheios ao mundo, tocam a “Marcha Turca” a quatro mãos. Lembro-me que alguns anos atrás vi algo semelhante – um pianista em um centro comercial, concentrado em sua música, sem prestar atenção às pessoas que passavam falando alto ou com o rádio ligado.
Mas aqui estamos apenas nós três e os dois pianistas. Posso ver a expressão no rosto de ambos: alegria, a mais pura e completa alegria. Não estão ali para impressionar nenhuma platéia, mas porque sentem que foi este o dom que Deus lhes deu para conversarem com suas almas. Por conseqüência, terminam também conversando as almas de Adam, Samil, Paulo, e todos nós nos sentimos mais próximos do significado da vida.
Escutamos em silêncio durante uma hora. Aplaudimos no final, e quando volto para o hotel, fico pensando na tal lanterna.
Sim, pode ser que ela apenas ilumine o estrangeiro, mas será que isso faz tanta diferença quando estamos possuídos por este gigantesco amor pelo que fazemos?
Graças a Deus, a sala está lotada para a conferência neste país africano. Deveria ser apresentado por dois intelectuais locais; nos encontramos antes, um deles tem um texto de dois minutos, o outro escreveu uma tese de um quarto de hora sobre o meu trabalho.
Com muito cuidado, o coordenador explica que é impossível a leitura da tese, já que o encontro deve durar no máximo 50 minutos. Imagino o quanto ele deve ter trabalhado no seu texto, mas penso que o coordenador tem razão: estou ali para conversar com meus leitores, esse é o principal motivo do encontro.
Começa a conferência. As apresentações duram no máximo cinco minutos, e tenho agora 45 minutos para um diálogo aberto. Digo que não estou ali para explicar nada, o interessante seria tentar estabelecer um diálogo.
Vem a primeira pergunta, de uma jovem: o que são os sinais que tanto falo em meus livros? Explico que é uma linguagem extremamente pessoal que desenvolvemos ao longo da vida, através de acertos e erros, até que entendemos quando Deus está nos guiando. Outro pergunta se foi um sinal que me trouxe a este país longínquo, eu digo que sim – estou fazendo uma viagem de 90 dias para celebrar meus 20 anos de peregrinação pelo Caminho de Santiago.
Continua a conversa, o tempo passa rapidamente, e preciso terminar a palestra. Escolho ao acaso, no meio de 600 pessoas, um homem de meia-idade, com um grosso bigode, para a pergunta final.
E o homem diz:
- Não quero fazer nenhuma pergunta. Quero apenas dizer um nome.
E diz o nome de uma pequena ermida, que fica no meio de lugar nenhum, há milhares de quilômetros do lugar onde me encontro, onde um dia eu coloquei uma placa agradecendo um milagre. E onde fui, antes desta peregrinação, pedir que a Virgem protegesse os meus passos.
Eu já não sei mais como continuar a conferência. As palavras a seguir foram escritas por Adam Fethi, um dos dois escritores que compunham a mesa:
“E de repente o Universo naquela sala parecia ter parado de mover-se. Tantas coisas aconteceram: eu vi suas lágrimas. E eu vi as lágrimas de sua doce mulher, quando aquele leitor anônimo pronunciou o nome de uma capela perdida em um lugar do mundo.
“Você perdeu a voz. O seu rosto sorridente tornou-se sério. Os seus olhos se encheram de lágrimas tímidas, que tremiam na beira dos cílios, como se desculpassem de estarem ali sem serem convidadas.
“Ali também estava eu, sentindo um nó na garganta, sem saber porque. Procurei na platéia a minha mulher e a minha filha, são elas que sempre busco quando me sinto a beira de algo que não conheço. Elas estavam lá, mas tinham os olhos fixos em você, silenciosas como todo mundo ali, procurando apoiá-lo com seus olhares, como olhares pudessem apoiar um homem.
“Então eu procurei fixar-me em Christina, pedindo socorro, tentando entender o que estava acontecendo, como terminar aquele silêncio que parecia infinito. E eu vi que também ela chorava, em silêncio, como se fossem notas da mesma sinfonia, e como se as lágrimas de vocês dois se tocassem apesar da distância.
“E durante longos segundos já não havia mais sala, nem público, nada mais. Você e sua mulher tinham partido para um lugar onde ninguém podia segui-los; tudo que existia era a alegria de viver tudo isso, que era contado apenas com o silêncio e a emoção.
“As palavras são lágrimas que foram escritas. As lágrimas são palavras que precisam jorrar. Sem elas, nenhuma alegria tem brilho, nenhuma tristeza tem um final. Portanto, obrigado por suas lágrimas”.
Deveria ter dito à moça que tinha feito a primeira pergunta – sobre os sinais – que ali estava um deles, afirmando que eu me encontrava no lugar onde devia estar, na hora certa, apesar de nunca entender direito o que me levou até ali.
Mas penso que não foi necessário: ela deve ter percebido.
Paulo Coelho
Os edifícios começaram a cair, o chão se levantou, os habitantes entraram em pânico, ao ver que estavam sendo empurrados em direção a morte. Desesperados, resolveram pedir ajuda a um amigo de Mehrez, chamado Sidi Ben Arous. Ben Arous conseguiu convencer o rigoroso Santo a interromper a destruição; mas desde então todas as ruas de Tunis são inclinadas.
Caminho pelo bazar desta cidade africana, trazido pelo vento desta peregrinação com a qual celebro os 20 anos do meu caminho de Santiago (1986). Estou com Adam Fathi e Samir Benali, dois escritores locais; a quinze quilômetros estão as ruínas de Cartago, que no passado remoto foi capaz de enfrentar-se com a poderosa Roma.
Passamos por um lindo edifício: em 1754, um irmão matou o outro. O pai de ambos resolveu construir este palácio para abrigar uma escola, mantendo viva a memória de seu filho assassinado. Comento que, ao fazer isso, o filho assassino também seria lembrado.
- Não é bem assim – responde Samil. - Em nossa cultura, o criminoso divide a culpa com todos que lhe permitiram cometer o crime. Quando um homem é executado, aquele que lhe vendeu a arma é também responsável diante de Deus. A única maneira do pai corrigir que considerava seu erro, foi transformando a tragédia em algo que possa ajudar os outros: ao invés da vingança que se limita ao castigo, a escola permitiu que a instrução e a sabedoria pudessem ser transmitidas há mais de dois séculos.
Em uma das portas da antiga muralha há uma lanterna. Fathi comenta o fato de eu ser um escritor conhecido, enquanto ele ainda luta por reconhecimento:
- Aqui está a origem de um dos mais célebres provérbios árabes: “a luz ilumina apenas o estrangeiro”.
Digo que Jesus fez o mesmo comentário: ninguém é profeta em sua própria terra. Tendemos sempre a valorizar aquilo que vem de longe, sem jamais reconhecer tudo de belo que está ao nosso redor.
Entramos em um antigo palácio, hoje transformado em centro cultural. Meus dois amigos começam explicar-me a história do lugar, mas minha atenção foi completamente desviada pelo som de um piano, e começo a seguí-lo pelos labirintos do edifício. Termino em uma sala onde um homem e uma mulher, aparentemente alheios ao mundo, tocam a “Marcha Turca” a quatro mãos. Lembro-me que alguns anos atrás vi algo semelhante – um pianista em um centro comercial, concentrado em sua música, sem prestar atenção às pessoas que passavam falando alto ou com o rádio ligado.
Mas aqui estamos apenas nós três e os dois pianistas. Posso ver a expressão no rosto de ambos: alegria, a mais pura e completa alegria. Não estão ali para impressionar nenhuma platéia, mas porque sentem que foi este o dom que Deus lhes deu para conversarem com suas almas. Por conseqüência, terminam também conversando as almas de Adam, Samil, Paulo, e todos nós nos sentimos mais próximos do significado da vida.
Escutamos em silêncio durante uma hora. Aplaudimos no final, e quando volto para o hotel, fico pensando na tal lanterna.
Sim, pode ser que ela apenas ilumine o estrangeiro, mas será que isso faz tanta diferença quando estamos possuídos por este gigantesco amor pelo que fazemos?
Graças a Deus, a sala está lotada para a conferência neste país africano. Deveria ser apresentado por dois intelectuais locais; nos encontramos antes, um deles tem um texto de dois minutos, o outro escreveu uma tese de um quarto de hora sobre o meu trabalho.
Com muito cuidado, o coordenador explica que é impossível a leitura da tese, já que o encontro deve durar no máximo 50 minutos. Imagino o quanto ele deve ter trabalhado no seu texto, mas penso que o coordenador tem razão: estou ali para conversar com meus leitores, esse é o principal motivo do encontro.
Começa a conferência. As apresentações duram no máximo cinco minutos, e tenho agora 45 minutos para um diálogo aberto. Digo que não estou ali para explicar nada, o interessante seria tentar estabelecer um diálogo.
Vem a primeira pergunta, de uma jovem: o que são os sinais que tanto falo em meus livros? Explico que é uma linguagem extremamente pessoal que desenvolvemos ao longo da vida, através de acertos e erros, até que entendemos quando Deus está nos guiando. Outro pergunta se foi um sinal que me trouxe a este país longínquo, eu digo que sim – estou fazendo uma viagem de 90 dias para celebrar meus 20 anos de peregrinação pelo Caminho de Santiago.
Continua a conversa, o tempo passa rapidamente, e preciso terminar a palestra. Escolho ao acaso, no meio de 600 pessoas, um homem de meia-idade, com um grosso bigode, para a pergunta final.
E o homem diz:
- Não quero fazer nenhuma pergunta. Quero apenas dizer um nome.
E diz o nome de uma pequena ermida, que fica no meio de lugar nenhum, há milhares de quilômetros do lugar onde me encontro, onde um dia eu coloquei uma placa agradecendo um milagre. E onde fui, antes desta peregrinação, pedir que a Virgem protegesse os meus passos.
Eu já não sei mais como continuar a conferência. As palavras a seguir foram escritas por Adam Fethi, um dos dois escritores que compunham a mesa:
“E de repente o Universo naquela sala parecia ter parado de mover-se. Tantas coisas aconteceram: eu vi suas lágrimas. E eu vi as lágrimas de sua doce mulher, quando aquele leitor anônimo pronunciou o nome de uma capela perdida em um lugar do mundo.
“Você perdeu a voz. O seu rosto sorridente tornou-se sério. Os seus olhos se encheram de lágrimas tímidas, que tremiam na beira dos cílios, como se desculpassem de estarem ali sem serem convidadas.
“Ali também estava eu, sentindo um nó na garganta, sem saber porque. Procurei na platéia a minha mulher e a minha filha, são elas que sempre busco quando me sinto a beira de algo que não conheço. Elas estavam lá, mas tinham os olhos fixos em você, silenciosas como todo mundo ali, procurando apoiá-lo com seus olhares, como olhares pudessem apoiar um homem.
“Então eu procurei fixar-me em Christina, pedindo socorro, tentando entender o que estava acontecendo, como terminar aquele silêncio que parecia infinito. E eu vi que também ela chorava, em silêncio, como se fossem notas da mesma sinfonia, e como se as lágrimas de vocês dois se tocassem apesar da distância.
“E durante longos segundos já não havia mais sala, nem público, nada mais. Você e sua mulher tinham partido para um lugar onde ninguém podia segui-los; tudo que existia era a alegria de viver tudo isso, que era contado apenas com o silêncio e a emoção.
“As palavras são lágrimas que foram escritas. As lágrimas são palavras que precisam jorrar. Sem elas, nenhuma alegria tem brilho, nenhuma tristeza tem um final. Portanto, obrigado por suas lágrimas”.
Deveria ter dito à moça que tinha feito a primeira pergunta – sobre os sinais – que ali estava um deles, afirmando que eu me encontrava no lugar onde devia estar, na hora certa, apesar de nunca entender direito o que me levou até ali.
Mas penso que não foi necessário: ela deve ter percebido.
Paulo Coelho
Você é mel
Parte 2
Psique: psiu!
Eros2002: não conheço esta palavra.
Psique: é uma forma de chamar alguém...
Eros2002: estava me chamando?
Psique: brincando com você, "cutucando”... rs
Eros2002: você está ok, que bom!
Psique: sim!
Eros2002: ok, você é mel!
Psique: eu?
Eros2002: sim, mel!
Psique: pare!
Eros2002: por quê?
Eros2002: mel...
Psique: olha o que combinamos...
Eros2002: ok, menina.
Eros2002: e o psiu ?
Eros2002: que me conta psiu?
Psique: eu vou brigar...
Eros2002: não, que eu não deixo!
Eros2002: você é sensual...
Psique: sim, mas lembre-se de que eu fico...
Eros2002: ok, mas você é muito doce!
Psique: obrigada!
Eros2002: nada!
Eros2002: é um pouco tarde para mim, vou me deitar.
Psique: então vá.
Eros2002: posso telefonar amanhã bem cedinho?
Psique: pode!
Eros2002: ok.
Eros2002: beijos...
Eros2002: fofinha...
Psique: beijos!
Eros2002: xau!
Psique: xau!
Eros2002: mel...
Psique: você não tem jeito mesmo!
Eros2002: ok.
Eros2002: xau!
Psique: vai me ligar a que hora?
Eros2002: na madrugada... mel!
Psique: psiu!
Eros2002: não conheço esta palavra.
Psique: é uma forma de chamar alguém...
Eros2002: estava me chamando?
Psique: brincando com você, "cutucando”... rs
Eros2002: você está ok, que bom!
Psique: sim!
Eros2002: ok, você é mel!
Psique: eu?
Eros2002: sim, mel!
Psique: pare!
Eros2002: por quê?
Eros2002: mel...
Psique: olha o que combinamos...
Eros2002: ok, menina.
Eros2002: e o psiu ?
Eros2002: que me conta psiu?
Psique: eu vou brigar...
Eros2002: não, que eu não deixo!
Eros2002: você é sensual...
Psique: sim, mas lembre-se de que eu fico...
Eros2002: ok, mas você é muito doce!
Psique: obrigada!
Eros2002: nada!
Eros2002: é um pouco tarde para mim, vou me deitar.
Psique: então vá.
Eros2002: posso telefonar amanhã bem cedinho?
Psique: pode!
Eros2002: ok.
Eros2002: beijos...
Eros2002: fofinha...
Psique: beijos!
Eros2002: xau!
Psique: xau!
Eros2002: mel...
Psique: você não tem jeito mesmo!
Eros2002: ok.
Eros2002: xau!
Psique: vai me ligar a que hora?
Eros2002: na madrugada... mel!
terça-feira, junho 19, 2007
Posso telefonar?
Parte 1
“Recentemente tive que explicar a uma senhora, o que era um” Blog”. Disse-lhe que era algo bem parecido com aquele diário que a gente fazia na adolescência, só que agora em vez de papel e caneta, usa-se o computador. Alguns dias depois, ela volta a me perguntar "o que é e-mail?”.
Pacientemente, digo-lhe que é o mesmo que escrever uma carta e enviar para alguém, só que usamos o correio eletrônico.
Estou muito desconfiada de que logo ela irá me perguntar o que é um “Messenger”. Aí, vou achar mais fácil trazê-la até o computador, e deixá-la ver como isso funciona.
Bem, não imagino minha vida sem o "Drummond". Este universo de informações, a facilidade para pesquisar, os grupos, os amigos (muito bem selecionados, claro), fizeram desta máquina uma peça fundamental em minha vida.
A revista Veja, de 25 de janeiro de 2006, trás um encarte especial sobre a influência da Internet da vida dos casais: a infidelidade virtual, as fantasias sexuais, as paqueras, os encontros, enfim, as mesmas histórias de sempre - amores, encontros e desencontros - mas agora no universo virtual.
Se a minha vizinha, uma senhora com mais de 80 anos, também quiser saber sobre isso, vai dar um trabalho danado explicar. Mas vou me esforçar!
Conheço várias pessoas que começaram a namorar pela internet, um dia encontraram alguém, o namoro tornou-se real e casaram-se. Porém, nem sempre as histórias têm um final feliz. Uma amiga já namorava há alguns meses um rapaz cujo encontro foi proporcionado por este mundo virtual. A cada quinze dias, ele vinha de outro Estado para encontrá-la e, havia até uma data marcada para o casamento. Mas, como disse minha aluna Stéfani “não temos lugar neste mundo, temos tempo" ele faleceu três meses antes do enlace. E, minha amiga voltou a ser alguém à procura de um amor.
Eu também encontrei o amor aqui, uma paixão que durou alguns meses - real - e teve um final melancólico. Como diz meu amigo Edson, professor de filosofia, “faz parte".
Porém, algo que é inesquecível, também nesse mundo virtual é o primeiro namorado. O primeiro amor, ou namorado, raramente dá certo, mas permanece para sempre em nossas lembranças.
Para respeitar a privacidade do casal, troquei os nomes desse “encontro virtual”:
Psique: oi
Eros2002: olá
Psique: tudo bem com você?
Eros2002: sim, obrigado
Eros2002: está boa?
Psique: Sim, teve um bom dia?
Eros2002: obrigado, sim, e você?
Psique: melhor impossível, fui visitar uma velha tia, ela ficou feliz ao me ver.
Eros2002: sim?
Psique: irmã de meu pai.
Eros2002: Ah!
Psique: Aos 90 anos, ela é uma velhinha muito alegre e de bem com a vida...
Eros2002: sim?
Psique: gosta de passear, de bons churrascos, aliás, ela levanta o meu astral.
Eros2002: Ah! Você estava precisando?
Psique: estava
Eros2002: sim?
Psique: sim
Eros2002: “teus caminhos não são meus, mas, apenas por alguns momentos caminharemos juntos”, conhece?
Psique: claro, eu escrevi.
Eros2002: Ah!
Psique: por que está lembrando isso?
Eros2002: por que será?
Psique: ficou chateado por ontem?
Eros2002: fiquei apreensivo
Psique: então por que isso?
Eros2002: tenho receio de magoá-la
Psique: às vezes você me magoa às vezes me faz feliz...
Eros2002: sim, por quê?
Psique: às vezes dou boas risadas com você
Eros2002: mas...
Psique: só ontem, não sei por que, senti raiva.
Eros2002: sim?
Psique: eu não sei explicar
Eros2002: sim?
Psique: não sei explicar direito, fiquei pensando que você... talvez esteja apenas se divertindo comigo
Eros2002: acha que sim?
Psique: eu não sei se é isso, mas ontem, senti-me assim, compreende?
Eros2002: não!
Psique: sabe o que acho também?
Eros2002: não
Psique: falo demais das minhas emoções para você, talvez isso desestabilize nossa amizade.
Eros2002: não sei
Eros2002: acho que podemos até nos ajudarmos emotivamente, sem nos magoarmos.
Psique: é, mas não vê que eu estou me perdendo?
Eros2002: perdendo como? Acho que você se está a assustar
Psique: nunca vivi algo assim antes e isso me assusta mesmo
Eros2002: ok, eu entendo
Psique: a verdade é que não estamos sendo só amigos
Eros2002: e é assim tão mau?
Psique: e eu já lhe disse que não quero ter um namorado pela só pela internet
Eros2002: Ah! Sim?
Psique: sim!
Eros2002: apenas amigos?
Psique: um amigo de verdade não escreve essas coisas... já saímos da área da literatura e faz tempo! De poetar a quatro mãos...
Eros2002: você gostou?
Psique: sim, mas agora não gosto mais.
Eros2002: ok, não estará a exagerar um pouco?
Psique: não sei, estou?
Eros2002: se eu até me abri muito com você...
Eros2002: o que é que eu ganho com isso?
Psique: não sei...
Psique: eu lhe perguntei ontem, e pergunto de novo: o que quer de mim afinal?
Eros2002: uma grande amiga, e você o quer de mim?
Psique: gosto de conversar com você
Eros2002: e...
Psique: conversa as mesmas coisas com outras amigas da internet?
Eros2002: não, que amigas?
Psique: então...
Eros2002: então o quê?
Psique: você não tem outras amigas na internet?
Eros2002: não!
Psique: como não?
Eros2002: cada vez falo com menos pessoas aqui
Psique: e as da sua cidade?
Eros2002: quem?
Eros2002: não sei que lhe diga
Psique: você não respondeu a minha pergunta: escreve poesias para elas também?
Psique: fala a elas o que fala para mim?
Eros2002: nunca fiz!
Psique: então, você não me trata como as outras amigas certo?
Eros2002: posso fazer uma pergunta, e você não se ofende?
Psique: pergunte
Eros2002: isto é uma cena de ciúmes?
Psique: não, quero apenas deixar bem claro o que somos um para o outro...
Eros2002: mas eu não a quero aborrecer
Eros2002: e se o fiz, peço-lhe desculpa.
Psique: eu não o amo, mas tenho um grande afeto por você.
Eros2002: eu também tenho por você...
Eros2002: e, brincar com os sentimentos das pessoas é algo que nunca farei...
Psique: você me deixa confusa, em conflito comigo mesma...
Eros2002: ok entendi
Eros2002: que quer que eu faça?
Psique: trate-me como uma amiga de verdade
Eros2002: ok, assim será
Psique: eu acho que assim ficaremos bem, não quero perder a sua amizade.
Eros2002: ok, mas como perderia a minha amizade?
Psique: do jeito que estamos, vamos acabar brigando, não percebe? Acho até que estamos discutindo nesse momento
Eros2002: ok, você pode contar comigo.
Psique: obrigada
Psique: ufa! Que conversa difícil!
Eros2002: não, fácil
Eros2002: posso lhe fazer uma pergunta?
Psique: pergunte!
Eros2002: posso voltar a telefonar?
Psique: com certeza
Eros2002: E ouvir a sua bela voz, esse riso maravilhoso?
Eros2002: adoro a sua voz!
Eros2002: e fim!
“Recentemente tive que explicar a uma senhora, o que era um” Blog”. Disse-lhe que era algo bem parecido com aquele diário que a gente fazia na adolescência, só que agora em vez de papel e caneta, usa-se o computador. Alguns dias depois, ela volta a me perguntar "o que é e-mail?”.
Pacientemente, digo-lhe que é o mesmo que escrever uma carta e enviar para alguém, só que usamos o correio eletrônico.
Estou muito desconfiada de que logo ela irá me perguntar o que é um “Messenger”. Aí, vou achar mais fácil trazê-la até o computador, e deixá-la ver como isso funciona.
Bem, não imagino minha vida sem o "Drummond". Este universo de informações, a facilidade para pesquisar, os grupos, os amigos (muito bem selecionados, claro), fizeram desta máquina uma peça fundamental em minha vida.
A revista Veja, de 25 de janeiro de 2006, trás um encarte especial sobre a influência da Internet da vida dos casais: a infidelidade virtual, as fantasias sexuais, as paqueras, os encontros, enfim, as mesmas histórias de sempre - amores, encontros e desencontros - mas agora no universo virtual.
Se a minha vizinha, uma senhora com mais de 80 anos, também quiser saber sobre isso, vai dar um trabalho danado explicar. Mas vou me esforçar!
Conheço várias pessoas que começaram a namorar pela internet, um dia encontraram alguém, o namoro tornou-se real e casaram-se. Porém, nem sempre as histórias têm um final feliz. Uma amiga já namorava há alguns meses um rapaz cujo encontro foi proporcionado por este mundo virtual. A cada quinze dias, ele vinha de outro Estado para encontrá-la e, havia até uma data marcada para o casamento. Mas, como disse minha aluna Stéfani “não temos lugar neste mundo, temos tempo" ele faleceu três meses antes do enlace. E, minha amiga voltou a ser alguém à procura de um amor.
Eu também encontrei o amor aqui, uma paixão que durou alguns meses - real - e teve um final melancólico. Como diz meu amigo Edson, professor de filosofia, “faz parte".
Porém, algo que é inesquecível, também nesse mundo virtual é o primeiro namorado. O primeiro amor, ou namorado, raramente dá certo, mas permanece para sempre em nossas lembranças.
Para respeitar a privacidade do casal, troquei os nomes desse “encontro virtual”:
Psique: oi
Eros2002: olá
Psique: tudo bem com você?
Eros2002: sim, obrigado
Eros2002: está boa?
Psique: Sim, teve um bom dia?
Eros2002: obrigado, sim, e você?
Psique: melhor impossível, fui visitar uma velha tia, ela ficou feliz ao me ver.
Eros2002: sim?
Psique: irmã de meu pai.
Eros2002: Ah!
Psique: Aos 90 anos, ela é uma velhinha muito alegre e de bem com a vida...
Eros2002: sim?
Psique: gosta de passear, de bons churrascos, aliás, ela levanta o meu astral.
Eros2002: Ah! Você estava precisando?
Psique: estava
Eros2002: sim?
Psique: sim
Eros2002: “teus caminhos não são meus, mas, apenas por alguns momentos caminharemos juntos”, conhece?
Psique: claro, eu escrevi.
Eros2002: Ah!
Psique: por que está lembrando isso?
Eros2002: por que será?
Psique: ficou chateado por ontem?
Eros2002: fiquei apreensivo
Psique: então por que isso?
Eros2002: tenho receio de magoá-la
Psique: às vezes você me magoa às vezes me faz feliz...
Eros2002: sim, por quê?
Psique: às vezes dou boas risadas com você
Eros2002: mas...
Psique: só ontem, não sei por que, senti raiva.
Eros2002: sim?
Psique: eu não sei explicar
Eros2002: sim?
Psique: não sei explicar direito, fiquei pensando que você... talvez esteja apenas se divertindo comigo
Eros2002: acha que sim?
Psique: eu não sei se é isso, mas ontem, senti-me assim, compreende?
Eros2002: não!
Psique: sabe o que acho também?
Eros2002: não
Psique: falo demais das minhas emoções para você, talvez isso desestabilize nossa amizade.
Eros2002: não sei
Eros2002: acho que podemos até nos ajudarmos emotivamente, sem nos magoarmos.
Psique: é, mas não vê que eu estou me perdendo?
Eros2002: perdendo como? Acho que você se está a assustar
Psique: nunca vivi algo assim antes e isso me assusta mesmo
Eros2002: ok, eu entendo
Psique: a verdade é que não estamos sendo só amigos
Eros2002: e é assim tão mau?
Psique: e eu já lhe disse que não quero ter um namorado pela só pela internet
Eros2002: Ah! Sim?
Psique: sim!
Eros2002: apenas amigos?
Psique: um amigo de verdade não escreve essas coisas... já saímos da área da literatura e faz tempo! De poetar a quatro mãos...
Eros2002: você gostou?
Psique: sim, mas agora não gosto mais.
Eros2002: ok, não estará a exagerar um pouco?
Psique: não sei, estou?
Eros2002: se eu até me abri muito com você...
Eros2002: o que é que eu ganho com isso?
Psique: não sei...
Psique: eu lhe perguntei ontem, e pergunto de novo: o que quer de mim afinal?
Eros2002: uma grande amiga, e você o quer de mim?
Psique: gosto de conversar com você
Eros2002: e...
Psique: conversa as mesmas coisas com outras amigas da internet?
Eros2002: não, que amigas?
Psique: então...
Eros2002: então o quê?
Psique: você não tem outras amigas na internet?
Eros2002: não!
Psique: como não?
Eros2002: cada vez falo com menos pessoas aqui
Psique: e as da sua cidade?
Eros2002: quem?
Eros2002: não sei que lhe diga
Psique: você não respondeu a minha pergunta: escreve poesias para elas também?
Psique: fala a elas o que fala para mim?
Eros2002: nunca fiz!
Psique: então, você não me trata como as outras amigas certo?
Eros2002: posso fazer uma pergunta, e você não se ofende?
Psique: pergunte
Eros2002: isto é uma cena de ciúmes?
Psique: não, quero apenas deixar bem claro o que somos um para o outro...
Eros2002: mas eu não a quero aborrecer
Eros2002: e se o fiz, peço-lhe desculpa.
Psique: eu não o amo, mas tenho um grande afeto por você.
Eros2002: eu também tenho por você...
Eros2002: e, brincar com os sentimentos das pessoas é algo que nunca farei...
Psique: você me deixa confusa, em conflito comigo mesma...
Eros2002: ok entendi
Eros2002: que quer que eu faça?
Psique: trate-me como uma amiga de verdade
Eros2002: ok, assim será
Psique: eu acho que assim ficaremos bem, não quero perder a sua amizade.
Eros2002: ok, mas como perderia a minha amizade?
Psique: do jeito que estamos, vamos acabar brigando, não percebe? Acho até que estamos discutindo nesse momento
Eros2002: ok, você pode contar comigo.
Psique: obrigada
Psique: ufa! Que conversa difícil!
Eros2002: não, fácil
Eros2002: posso lhe fazer uma pergunta?
Psique: pergunte!
Eros2002: posso voltar a telefonar?
Psique: com certeza
Eros2002: E ouvir a sua bela voz, esse riso maravilhoso?
Eros2002: adoro a sua voz!
Eros2002: e fim!
Geração pós-moderna
Frei Betto *
Adital -
A pós-modernidade não nega a modernidade; antes, celebra suas conquistas, como o positivismo entranhado nas ciências, a razão tecnocientífica a pontificar sobre a intuição e a inteligência, o triunfo do capitalismo em suas versões neoliberal e, agora, neofascista, contrapondo, por via da guerra, o fundamentalismo econômico - o capital como valor supremo - ao fundamentalismo religioso.
Frente ao darwinismo socioeconômico, a cultura mergulha em profunda crise. Os valores monetários do mercado se sobrepõem aos valores morais da ética. Os grandes relatos se calam, a história como processo se desacelera, as ideologias críticas agonizam. O futuro recua perante o imperativo de perenização do presente. Tudo se congela nessa idéia absurda de que a vida é ‘aqui e agora’. A velhice é encarada como doença e a morte como abominação. A felicidade é reduzida à soma de prazeres e os bens finitos mais cobiçados que os infinitos.
Sabe-se o que não se quer, não o que se quer. As utopias ruíram com o Muro de Berlim. Maio de 68 não logrou expandir-se além das fronteiras do corpo liberto do peso da culpa. Os projetos revolucionários quedaram como a estampa do Che pregada na parede ou reproduzida na camiseta. "E há tempos nem os santos têm ao certo / a medida da maldade. / Há tempos são os jovens que adoecem. / Há tempos o encanto está ausente. / E há ferrugem nos sorrisos. / E só o acaso estende os braços / a quem procura abrigo e proteção," canta Renato Russo.
Hegel nos ensinou a pensar a realidade e seu discípulo, Marx, a transformá-la. Esqueceram-se do ensinamento bíblico de que é preciso mudar o coração de pedra em coração de carne. O novo, na ciência e na técnica, não fez novo o coração humano, agora assolado pelo sentimento de impotência, de fatalismo, de cinismo. É a cultura do grande vazio respirada pelos jovens de hoje. Caminham de Prometeu a Narciso e, no meio do percurso, deixam à margem o heroísmo de Sísifo. Não lhes importa que a pedra role ladeira abaixo, importa é desfrutar da vida.
Capitulados diante das exigências de construir o novo, olvidados Hegel e Marx, as mudanças históricas sonhadas por minha geração de 68 agora se resumem ao corpo, à moda, aos gostos e caprichos individuais. Na prateleira, a literatura libertária é substituída por esoterismo, astrologia e auto-ajuda. Já que a sociedade é imutável, há que desfrutá-la. E já que não se pode mudar o mundo, ao menos há que encontrar terapias literárias que sirvam de vacina contra um profundo sentimento de frustração e derrota.
Na ânsia de eternizar o presente, buscam-se artifícios que prolonguem a vida: malhação, dietas, vitaminas, cirurgias estéticas etc. Urge manter-se eternamente jovem. Velhice, rugas, obesidade, cabelos brancos, músculos flácidos, perda de vigor juvenil e beleza física, eis os fantasmas que amedrontam a alma lúdica, luxuriosa, de quem não sabe o rumo a imprimir à existência. Como apregoa o Manifesto Hedonista (E. Guisan 1990), "o gozo é o alfa e o ômega, o princípio e o fim."
Privatiza-se o existir, encerra-se num individualismo que se gaba de sua indiferença frente aos dramas alheios, e predomina a insensibilidade às questões coletivas. A ética cede lugar à estética. A política é encarada com nojo e, a vida, como um videoclipe anabolizado por dinheiro, fama e beleza.
Surge a primeira geração sem culpa, despolitizada de compromissos, repleta de jovens entediados, céticos, insatisfeitos, fragmentados. Geração de reduzida capacidade de maravilhar-se, entusiasmar-se, comprometer-se. Uma geração desencantada: "Vivo en el número siete, / calle Melancolia, / quiero mudarme hace años / al barrio de la alegria. / Pero siempre que lo intento, / ha salido ya el tranvía / y en la escalera me siento, / a silbar mi melodía" (J.Sabina).
Agora cada um tem a sua verdade e ninguém se incomoda com a verdade do outro. Nem se deixa questionar por ela. O diálogo face a face é descartado em favor do diálogo virtual via internet, onde cada parceiro pode fingir o que não é e disfarçar sua baixa auto-estima. Nas relações pessoais, inverte-se o itinerário de minha geração, que ia do amor ao sexo; agora, vai-se do sexo ao sexo, na esperança de que, súbito, desponte o milagre do amor.
Nesse nebuloso mundo pós-moderno, a visão é obscurecida. Perde-se a dimensão da floresta, avista-se apenas uma ou outra árvore. Assim, fica-se indignado com a violência urbana e clama-se pela redução da maioridade penal e pela pena de morte. Quem se indigna com a violência estrutural de uma nação que condena milhões de jovens à desescolarização precoce e ao desemprego?
Vale de (mau) exemplo a Justiça de Bush, que condenou a 100 anos de prisão o soldado que, no Iraque, estuprou e matou uma jovem de 14 anos. Enquanto isso, a chuva de bombas made in USA tira a vida de 700 mil iraquianos, sem distinguir inocentes, crianças e idosos. Quem haverá de pagar por tamanha atrocidade?
Frei Betto é escritor, autor de "Treze contos diabólicos e um angélico" (Planeta), entre outros livros.
Adital -
A pós-modernidade não nega a modernidade; antes, celebra suas conquistas, como o positivismo entranhado nas ciências, a razão tecnocientífica a pontificar sobre a intuição e a inteligência, o triunfo do capitalismo em suas versões neoliberal e, agora, neofascista, contrapondo, por via da guerra, o fundamentalismo econômico - o capital como valor supremo - ao fundamentalismo religioso.
Frente ao darwinismo socioeconômico, a cultura mergulha em profunda crise. Os valores monetários do mercado se sobrepõem aos valores morais da ética. Os grandes relatos se calam, a história como processo se desacelera, as ideologias críticas agonizam. O futuro recua perante o imperativo de perenização do presente. Tudo se congela nessa idéia absurda de que a vida é ‘aqui e agora’. A velhice é encarada como doença e a morte como abominação. A felicidade é reduzida à soma de prazeres e os bens finitos mais cobiçados que os infinitos.
Sabe-se o que não se quer, não o que se quer. As utopias ruíram com o Muro de Berlim. Maio de 68 não logrou expandir-se além das fronteiras do corpo liberto do peso da culpa. Os projetos revolucionários quedaram como a estampa do Che pregada na parede ou reproduzida na camiseta. "E há tempos nem os santos têm ao certo / a medida da maldade. / Há tempos são os jovens que adoecem. / Há tempos o encanto está ausente. / E há ferrugem nos sorrisos. / E só o acaso estende os braços / a quem procura abrigo e proteção," canta Renato Russo.
Hegel nos ensinou a pensar a realidade e seu discípulo, Marx, a transformá-la. Esqueceram-se do ensinamento bíblico de que é preciso mudar o coração de pedra em coração de carne. O novo, na ciência e na técnica, não fez novo o coração humano, agora assolado pelo sentimento de impotência, de fatalismo, de cinismo. É a cultura do grande vazio respirada pelos jovens de hoje. Caminham de Prometeu a Narciso e, no meio do percurso, deixam à margem o heroísmo de Sísifo. Não lhes importa que a pedra role ladeira abaixo, importa é desfrutar da vida.
Capitulados diante das exigências de construir o novo, olvidados Hegel e Marx, as mudanças históricas sonhadas por minha geração de 68 agora se resumem ao corpo, à moda, aos gostos e caprichos individuais. Na prateleira, a literatura libertária é substituída por esoterismo, astrologia e auto-ajuda. Já que a sociedade é imutável, há que desfrutá-la. E já que não se pode mudar o mundo, ao menos há que encontrar terapias literárias que sirvam de vacina contra um profundo sentimento de frustração e derrota.
Na ânsia de eternizar o presente, buscam-se artifícios que prolonguem a vida: malhação, dietas, vitaminas, cirurgias estéticas etc. Urge manter-se eternamente jovem. Velhice, rugas, obesidade, cabelos brancos, músculos flácidos, perda de vigor juvenil e beleza física, eis os fantasmas que amedrontam a alma lúdica, luxuriosa, de quem não sabe o rumo a imprimir à existência. Como apregoa o Manifesto Hedonista (E. Guisan 1990), "o gozo é o alfa e o ômega, o princípio e o fim."
Privatiza-se o existir, encerra-se num individualismo que se gaba de sua indiferença frente aos dramas alheios, e predomina a insensibilidade às questões coletivas. A ética cede lugar à estética. A política é encarada com nojo e, a vida, como um videoclipe anabolizado por dinheiro, fama e beleza.
Surge a primeira geração sem culpa, despolitizada de compromissos, repleta de jovens entediados, céticos, insatisfeitos, fragmentados. Geração de reduzida capacidade de maravilhar-se, entusiasmar-se, comprometer-se. Uma geração desencantada: "Vivo en el número siete, / calle Melancolia, / quiero mudarme hace años / al barrio de la alegria. / Pero siempre que lo intento, / ha salido ya el tranvía / y en la escalera me siento, / a silbar mi melodía" (J.Sabina).
Agora cada um tem a sua verdade e ninguém se incomoda com a verdade do outro. Nem se deixa questionar por ela. O diálogo face a face é descartado em favor do diálogo virtual via internet, onde cada parceiro pode fingir o que não é e disfarçar sua baixa auto-estima. Nas relações pessoais, inverte-se o itinerário de minha geração, que ia do amor ao sexo; agora, vai-se do sexo ao sexo, na esperança de que, súbito, desponte o milagre do amor.
Nesse nebuloso mundo pós-moderno, a visão é obscurecida. Perde-se a dimensão da floresta, avista-se apenas uma ou outra árvore. Assim, fica-se indignado com a violência urbana e clama-se pela redução da maioridade penal e pela pena de morte. Quem se indigna com a violência estrutural de uma nação que condena milhões de jovens à desescolarização precoce e ao desemprego?
Vale de (mau) exemplo a Justiça de Bush, que condenou a 100 anos de prisão o soldado que, no Iraque, estuprou e matou uma jovem de 14 anos. Enquanto isso, a chuva de bombas made in USA tira a vida de 700 mil iraquianos, sem distinguir inocentes, crianças e idosos. Quem haverá de pagar por tamanha atrocidade?
Frei Betto é escritor, autor de "Treze contos diabólicos e um angélico" (Planeta), entre outros livros.
sábado, junho 09, 2007
Poesias de Líria Porto
Rotina
Líria Porto
a voz de um relógio tique-taquerepete
sem sotaque a voz do tempo
passamos nossos dias tão iguais
e sem o perceber envelhecemos
Lealdade
Líria porto
por ti eu façoseguro a onda no braço
e se o mar te der rasteira
amarro-o numa coleira
arrasto-o para as areias
do deserto de saara
Pedra-sabão
Líria porto
escrevo no peito o vento que passa
o sol a vidraça a chuva a neblina
escrevo no peito o doce a cachaça
o queijo a coalhada o mapa de minas
escrevo no peito as ruas estrada
sas flores a praça o laço de fita
escrevo no peito a tarde a alvorada
a lua as estrelas a noite bonita
escrevo no peito a terra um jazigo
o chão a florada a serra o jardim
escrevo no peito opalas sem fim
a mãe meus irmãos as filhas o amigo
o cheiro os costumes a bruma a brisa
depois eu me abraço e fecho a camisa
Das eternidades
Líria porto
desistir posso desisto
mas esquecer não me peças
sou destas peças antigas
onde se guardam relíquias
o amor é uma delas
Líria Porto
a voz de um relógio tique-taquerepete
sem sotaque a voz do tempo
passamos nossos dias tão iguais
e sem o perceber envelhecemos
Lealdade
Líria porto
por ti eu façoseguro a onda no braço
e se o mar te der rasteira
amarro-o numa coleira
arrasto-o para as areias
do deserto de saara
Pedra-sabão
Líria porto
escrevo no peito o vento que passa
o sol a vidraça a chuva a neblina
escrevo no peito o doce a cachaça
o queijo a coalhada o mapa de minas
escrevo no peito as ruas estrada
sas flores a praça o laço de fita
escrevo no peito a tarde a alvorada
a lua as estrelas a noite bonita
escrevo no peito a terra um jazigo
o chão a florada a serra o jardim
escrevo no peito opalas sem fim
a mãe meus irmãos as filhas o amigo
o cheiro os costumes a bruma a brisa
depois eu me abraço e fecho a camisa
Das eternidades
Líria porto
desistir posso desisto
mas esquecer não me peças
sou destas peças antigas
onde se guardam relíquias
o amor é uma delas
quarta-feira, junho 06, 2007
Meditação andando
Chego a Santiago de Compostela, desta vez de carro, para
celebrar minha peregrinação há vinte anos. Quando estava Puente La
Reina, veio a idéia de fazer tardes de autógrafos sem grandes
preparações: bastava telefonar para a próxima cidade onde
deveríamos dormir, pedir que colocassem um cartaz na livraria
local, e estaria ali na hora marcada. Funcionou magnificamente nas pequenas aldeias, embora exigindo um
pouco mais de organização em grandes cidades, como a própria
Santiago de Compostela. Tive um contato inesperado com os
leitores, e aprendi que coisas feitas com amor podem ter o
improviso como um grande aliado.Santiago estava agora diante de mim. E algumas dezenas de kms mais
adiante, o Oceano Atlântico. Mas estou decidido a seguir adiante
com as tais tardes de autógrafos improvisadas, já que pretendo
ficar noventa dias fora de casa. E como não pretendo atravessar o oceano neste momento, devo ir
para a direita (Santander, Pais Basco) ou esquerda (Guimarães,
Portugal)? Melhor deixar que o destino escolha: minha mulher e eu entramos em
um bar, e perguntamos a um homem que está tomando um café: direita
ou esquerda? Ele diz com convicção que devemos seguir à esquerda –
talvez pensando que nos referíamos a partidos políticos.Telefono para o meu editor português. Ele não pergunta que loucura
é essa, não reclama de avisá-lo em cima da hora. Duas horas mais
tarde me chama, diz que contatou as rádios locais de Guimarães e
Fátima, e em 24 horas posso estar com meus leitores naquelas
cidades. Tudo dá certo. E em Fátima, como um sinal, recebo um presente de uma das pessoas
que estão ali. Trata-se dos escritos de um monge budista, Thich
Nhat Hanh, intitulado “The long road to joy” (A longa estrada para
a alegria). A partir daquele momento, antes de continuar esta
jornada de 90 dias pelo mundo, passo a ler todas as manhãs as
sábias palavras de Nhat Hanh, que resumo a seguir:1] Você já chegou. Portanto, sinta o prazer em cada passo, e não
fique preocupado com as coisas que ainda tem que superar. Não
temos nada diante de nós, apenas um caminho para ser percorrido a
cada momento com alegria. Quando praticamos a meditação peregrina,
estamos sempre chegando, nosso lar é o momento atual, e nada mais.2] Por causa disso, sorria sempre enquanto andar. Mesmo que tiver
que forçar um pouco, e achar-se ridículo. Acostume-se a sorrir, e
terminará alegre. Não tenha medo de mostrar seu contentamento.3] Se pensa que paz e felicidade estão sempre adiante, jamais
conseguirá atingi-las. Procure entender que ambas são suas
companheiras de viagem.4] Quando anda, está massageando e honrando a terra. Da mesma
maneira, a terra está procurando ajudá-lo a equilibrar seu
organismo e sua mente. Entenda esta relação, e procure respeitá-la
– que seus passos sejam dados com a firmeza de um leão, a
elegância de um tigre, a dignidade de um imperador.5] Preste atenção ao que acontece a sua volta. E concentre-se em
sua respiração – isso o ajudará a libertar-se dos problemas e das
ansiedades que tentam acompanhá-lo em seu caminho.6] Ao caminhar, não é apenas você que está se movendo, mas todas
as gerações passadas e futuras. No mundo chamado de “real” o tempo
é uma medida, mas no verdadeiro mundo não existe nada além do
momento presente. Tenha plena consciência que tudo que já
aconteceu e tudo o que acontecerá está em cada passo seu.7] Divirta-se. Faça da meditação peregrina um constante encontro
consigo mesmo; jamais uma penitência em busca de recompensas. Que
sempre cresçam flores e frutas nos lugares onde seus pés tocaram.
Paulo Coelho
celebrar minha peregrinação há vinte anos. Quando estava Puente La
Reina, veio a idéia de fazer tardes de autógrafos sem grandes
preparações: bastava telefonar para a próxima cidade onde
deveríamos dormir, pedir que colocassem um cartaz na livraria
local, e estaria ali na hora marcada. Funcionou magnificamente nas pequenas aldeias, embora exigindo um
pouco mais de organização em grandes cidades, como a própria
Santiago de Compostela. Tive um contato inesperado com os
leitores, e aprendi que coisas feitas com amor podem ter o
improviso como um grande aliado.Santiago estava agora diante de mim. E algumas dezenas de kms mais
adiante, o Oceano Atlântico. Mas estou decidido a seguir adiante
com as tais tardes de autógrafos improvisadas, já que pretendo
ficar noventa dias fora de casa. E como não pretendo atravessar o oceano neste momento, devo ir
para a direita (Santander, Pais Basco) ou esquerda (Guimarães,
Portugal)? Melhor deixar que o destino escolha: minha mulher e eu entramos em
um bar, e perguntamos a um homem que está tomando um café: direita
ou esquerda? Ele diz com convicção que devemos seguir à esquerda –
talvez pensando que nos referíamos a partidos políticos.Telefono para o meu editor português. Ele não pergunta que loucura
é essa, não reclama de avisá-lo em cima da hora. Duas horas mais
tarde me chama, diz que contatou as rádios locais de Guimarães e
Fátima, e em 24 horas posso estar com meus leitores naquelas
cidades. Tudo dá certo. E em Fátima, como um sinal, recebo um presente de uma das pessoas
que estão ali. Trata-se dos escritos de um monge budista, Thich
Nhat Hanh, intitulado “The long road to joy” (A longa estrada para
a alegria). A partir daquele momento, antes de continuar esta
jornada de 90 dias pelo mundo, passo a ler todas as manhãs as
sábias palavras de Nhat Hanh, que resumo a seguir:1] Você já chegou. Portanto, sinta o prazer em cada passo, e não
fique preocupado com as coisas que ainda tem que superar. Não
temos nada diante de nós, apenas um caminho para ser percorrido a
cada momento com alegria. Quando praticamos a meditação peregrina,
estamos sempre chegando, nosso lar é o momento atual, e nada mais.2] Por causa disso, sorria sempre enquanto andar. Mesmo que tiver
que forçar um pouco, e achar-se ridículo. Acostume-se a sorrir, e
terminará alegre. Não tenha medo de mostrar seu contentamento.3] Se pensa que paz e felicidade estão sempre adiante, jamais
conseguirá atingi-las. Procure entender que ambas são suas
companheiras de viagem.4] Quando anda, está massageando e honrando a terra. Da mesma
maneira, a terra está procurando ajudá-lo a equilibrar seu
organismo e sua mente. Entenda esta relação, e procure respeitá-la
– que seus passos sejam dados com a firmeza de um leão, a
elegância de um tigre, a dignidade de um imperador.5] Preste atenção ao que acontece a sua volta. E concentre-se em
sua respiração – isso o ajudará a libertar-se dos problemas e das
ansiedades que tentam acompanhá-lo em seu caminho.6] Ao caminhar, não é apenas você que está se movendo, mas todas
as gerações passadas e futuras. No mundo chamado de “real” o tempo
é uma medida, mas no verdadeiro mundo não existe nada além do
momento presente. Tenha plena consciência que tudo que já
aconteceu e tudo o que acontecerá está em cada passo seu.7] Divirta-se. Faça da meditação peregrina um constante encontro
consigo mesmo; jamais uma penitência em busca de recompensas. Que
sempre cresçam flores e frutas nos lugares onde seus pés tocaram.
Paulo Coelho
Dimensão holística do ser
Sócrates foi condenado à morte por heresia, como Jesus. Acusaram-no de pregar aos jovens novos deuses. Tal iluminação não lhe abriu os olhos diante do céu, e sim da terra. Percebeu não poder deduzir do Olimpo uma ética para os humanos. Os deuses do Olimpo podiam explicar a origem das coisas, mas não ditar normas de conduta.
A mitologia, repleta de exemplos nada edificantes, obrigou os gregos a buscar na razão os princípios normativos de nossa boa convivência social. A promiscuidade reinante no Olimpo, objeto de crença, não convinha traduzir-se em atitudes; assim, a razão conquistou autonomia frente à religião. Em busca de valores capazes de normatizar a convivência humana, Sócrates apontou a nossa caixa de Pandora: a razão.
Se a moral não decorre dos deuses, então somos nós, seres racionais, que devemos erigi-la. Em Antígona, peça de Sófocles, em nome de razões de Estado Creonte proíbe Antígona de sepultar seu irmão Polinice. Ela se recusa a obedecer "leis não escritas, imutáveis, que não datam de hoje nem de ontem, que ninguém sabe quando apareceram". É a afirmação da consciência sobre a lei, da cidadania sobre o Estado.
Para Sócrates, a ética exige normas constantes e imutáveis. Não pode ficar na dependência da diversidade de opiniões. Platão trouxe luzes ensinando-nos a discernir realidade e ilusão. Em República, lembra que para Trasímaco a ética de uma sociedade reflete os interesses de quem ali detém o poder. Conceito retomado por Marx e aplicado à ideologia.
O que é o poder? É o direito concedido a um indivíduo ou conquistado por um partido ou classe social de impor a sua vontade à dos demais.
Aristóteles nos arranca do solipsismo ao associar felicidade e política. Mais tarde, santo Tomás, inspirado em Aristóteles, nos dará as primícias de uma ética política, priorizando o bem comum e valorizando a soberania popular e a consciência individual como reduto indevassável. Maquiavel, na contramão, destituirá a política de toda ética, reduzindo-a ao mero jogo de poder, onde os fins justificam os meios.
Kant dirá que a grandeza do ser humano não reside na técnica, em subjugar a natureza, e sim na ética, na capacidade de se autodeterminar a partir de sua liberdade. Há em nós um senso inato do dever e não deixamos de fazer algo por ser pecado, e sim por ser injusto. E nossa ética individual deve se complementar pela ética social, já que não somos um rebanho de indivíduos, mas uma sociedade que exige, à sua boa convivência, normas e leis e, sobretudo, a cooperação de uns com os outros.
Hegel e Marx acentuarão que a nossa liberdade é sempre condicionada, relacional, pois consiste numa construção de comunhões, com a natureza e os nossos semelhantes. Porém, a injustiça torna alguns dessemelhantes.
Nas águas da ética judaico-cristã, Marx ressalta a irredutível dignidade de cada ser humano e, portanto, o direito à igualdade de oportunidades. Em outras palavras, somos tanto mais livres quanto mais construímos instituições que promovam a felicidade de todos.
A filosofia moderna fará uma distinção aparentemente avançada e que, de fato, abre novo campo de tensão ao frisar que, respeitada a lei, cada um é dono de seu nariz. A privacidade como reino da liberdade total. O problema desse enunciado é que desloca a ética da responsabilidade social (cada um deve preocupar-se com todos) para os direitos individuais (cada um que cuide de si).
Essa distinção ameaça a ética de ceder ao subjetivismo egocêntrico. Tenho direitos, prescritos numa Declaração Universal, mas e os deveres? Que obrigações tenho para com a sociedade em que vivo? O que tenho a ver com o faminto, o oprimido e o excluído? Daí a importância do conceito de cidadania. As pessoas são diferentes e, numa sociedade desigual, tratadas segundo sua importância na escala social. Já o cidadão, pobre ou rico, é um ser dotado de direitos invioláveis, e está sujeito à lei como todos os demais.
O capitalismo associa liberdade ao dinheiro, ou seja, ao consumo. A pessoa se sente livre enquanto satisfaz seus desejos de consumo e, através da técnica e da ciência, domina a natureza. A visão analítica não se pergunta pelo significado desse consumismo e pelo sentido desse domínio. E, de repente, a humanidade desperta para os efeitos nefastos de seu modo de subjugar a natureza: o aquecimento global faz soar o alarme de um novo dilúvio que, desta vez, não virá pelas águas, e sim pelo fogo, sem chances de uma nova Arca de Noé.
A recente consciência ecológica nos amplia a noção de ethos. A casa é todo o Universo. Lembre-se: não falamos de Pluriverso, mas de Universo. Há uma íntima relação entre todos os seres visíveis e invisíveis, do macro ao micro, das partículas elementares aos vulcões. Tudo nos diz respeito e toda a natureza possui a sua racionalidade imanente. Segundo Teilhard de Chardin, o princípio da ética é o respeito a todo o criado para que desperte suas potencialidades. Assim, faz sentido falar agora da dimensão holística da ética.
O ponto de partida da ética é assinalado por Sócrates: a polis, a cidade. A vida é sempre processo individual e social. A ótica neoliberal diz que cada um deve se contentar com o seu mundinho. Mas fica a pergunta de Walter Benjamin: o que dizer a milhões de vítimas de nosso egoísmo?
Frei Betto é escritor, autor de "A obra do artista - uma visão holística do Universo" (Ática), entre outros livros.
Frei Beto * Frei dominicano. Escritor.
A mitologia, repleta de exemplos nada edificantes, obrigou os gregos a buscar na razão os princípios normativos de nossa boa convivência social. A promiscuidade reinante no Olimpo, objeto de crença, não convinha traduzir-se em atitudes; assim, a razão conquistou autonomia frente à religião. Em busca de valores capazes de normatizar a convivência humana, Sócrates apontou a nossa caixa de Pandora: a razão.
Se a moral não decorre dos deuses, então somos nós, seres racionais, que devemos erigi-la. Em Antígona, peça de Sófocles, em nome de razões de Estado Creonte proíbe Antígona de sepultar seu irmão Polinice. Ela se recusa a obedecer "leis não escritas, imutáveis, que não datam de hoje nem de ontem, que ninguém sabe quando apareceram". É a afirmação da consciência sobre a lei, da cidadania sobre o Estado.
Para Sócrates, a ética exige normas constantes e imutáveis. Não pode ficar na dependência da diversidade de opiniões. Platão trouxe luzes ensinando-nos a discernir realidade e ilusão. Em República, lembra que para Trasímaco a ética de uma sociedade reflete os interesses de quem ali detém o poder. Conceito retomado por Marx e aplicado à ideologia.
O que é o poder? É o direito concedido a um indivíduo ou conquistado por um partido ou classe social de impor a sua vontade à dos demais.
Aristóteles nos arranca do solipsismo ao associar felicidade e política. Mais tarde, santo Tomás, inspirado em Aristóteles, nos dará as primícias de uma ética política, priorizando o bem comum e valorizando a soberania popular e a consciência individual como reduto indevassável. Maquiavel, na contramão, destituirá a política de toda ética, reduzindo-a ao mero jogo de poder, onde os fins justificam os meios.
Kant dirá que a grandeza do ser humano não reside na técnica, em subjugar a natureza, e sim na ética, na capacidade de se autodeterminar a partir de sua liberdade. Há em nós um senso inato do dever e não deixamos de fazer algo por ser pecado, e sim por ser injusto. E nossa ética individual deve se complementar pela ética social, já que não somos um rebanho de indivíduos, mas uma sociedade que exige, à sua boa convivência, normas e leis e, sobretudo, a cooperação de uns com os outros.
Hegel e Marx acentuarão que a nossa liberdade é sempre condicionada, relacional, pois consiste numa construção de comunhões, com a natureza e os nossos semelhantes. Porém, a injustiça torna alguns dessemelhantes.
Nas águas da ética judaico-cristã, Marx ressalta a irredutível dignidade de cada ser humano e, portanto, o direito à igualdade de oportunidades. Em outras palavras, somos tanto mais livres quanto mais construímos instituições que promovam a felicidade de todos.
A filosofia moderna fará uma distinção aparentemente avançada e que, de fato, abre novo campo de tensão ao frisar que, respeitada a lei, cada um é dono de seu nariz. A privacidade como reino da liberdade total. O problema desse enunciado é que desloca a ética da responsabilidade social (cada um deve preocupar-se com todos) para os direitos individuais (cada um que cuide de si).
Essa distinção ameaça a ética de ceder ao subjetivismo egocêntrico. Tenho direitos, prescritos numa Declaração Universal, mas e os deveres? Que obrigações tenho para com a sociedade em que vivo? O que tenho a ver com o faminto, o oprimido e o excluído? Daí a importância do conceito de cidadania. As pessoas são diferentes e, numa sociedade desigual, tratadas segundo sua importância na escala social. Já o cidadão, pobre ou rico, é um ser dotado de direitos invioláveis, e está sujeito à lei como todos os demais.
O capitalismo associa liberdade ao dinheiro, ou seja, ao consumo. A pessoa se sente livre enquanto satisfaz seus desejos de consumo e, através da técnica e da ciência, domina a natureza. A visão analítica não se pergunta pelo significado desse consumismo e pelo sentido desse domínio. E, de repente, a humanidade desperta para os efeitos nefastos de seu modo de subjugar a natureza: o aquecimento global faz soar o alarme de um novo dilúvio que, desta vez, não virá pelas águas, e sim pelo fogo, sem chances de uma nova Arca de Noé.
A recente consciência ecológica nos amplia a noção de ethos. A casa é todo o Universo. Lembre-se: não falamos de Pluriverso, mas de Universo. Há uma íntima relação entre todos os seres visíveis e invisíveis, do macro ao micro, das partículas elementares aos vulcões. Tudo nos diz respeito e toda a natureza possui a sua racionalidade imanente. Segundo Teilhard de Chardin, o princípio da ética é o respeito a todo o criado para que desperte suas potencialidades. Assim, faz sentido falar agora da dimensão holística da ética.
O ponto de partida da ética é assinalado por Sócrates: a polis, a cidade. A vida é sempre processo individual e social. A ótica neoliberal diz que cada um deve se contentar com o seu mundinho. Mas fica a pergunta de Walter Benjamin: o que dizer a milhões de vítimas de nosso egoísmo?
Frei Betto é escritor, autor de "A obra do artista - uma visão holística do Universo" (Ática), entre outros livros.
Frei Beto * Frei dominicano. Escritor.
quarta-feira, maio 16, 2007
Encontrando a alegria
No incomensurável universo da mente humana, habitam inexpugnáveis segredos. Não há como negar que, em alguns dias nos apresentamos a nós mesmos de mal com a vida. Acordamos tristes, angustiados, e até azedos. Quase armados para reagir a qualquer provocação. Mal cumprimentamos as pessoas e, não raro, emitimos respostas desagradáveis, movidas a monossílabos. Trata-se de um conflito que estabelecemos com protagonistas e motivos desconhecidos, que merece análise baseada em exemplos narrados pelas próprias personagens.
Um privilegiado executivo apresentava esse comportamento periodicamente e não exibia qualquer escrúpulo ao ignorar ou maltratar as pessoas à sua volta. Num desses dias aziagos, encontrando defeituoso o elevador do prédio, obriga-se a subir pela escada. Num dos corredores funciona uma clínica para crianças portadoras de necessidades especiais. O bem trajado homem, de cara amarrada, com o mau-humor acrescido pela imprevista caminhada, é abordado por uma criança que procura a porta da clínica e que manifesta visível dificuldade para falar e andar. Naquela menina, cujo aparelho de correção da arcada dentária, se sobressai incomodamente, ele vê um largo e espontâneo sorriso. Sente que lhe atingem o coração os acenos de agradecimento daquele surpreendente ser que esparrama alegria e disposição. Ainda estupefato, como se perguntasse “está sorrindo por quê”? Diante daquela inimaginável felicidade, vê aproximar-se um segundo rostinho, também sorridente. Um garoto desprovido de um dos braços, além de extremamente dificultado no andar. O portador de uma perna mecânica lhe oferece um meigo “bom dia” e, após observar sua surpresa, termina de abatê-lo com a simpática pergunta: “O Sr. está bem, precisa de ajuda?”
O homem de terno e maleta importada acena ao garoto e sobe as escadas sem conseguir conter as lágrimas que banham seu rosto. Ele sente que chora, o que não fazia há muito tempo... e chora de vergonha, vergonha de si mesmo. Tenta restabelecer-se reabilitando, quem sabe, o seu mau-humor, mas... nem se lembra do motivo.
Adentra ao seu escritório, nem sente o cansaço da escadaria, somente sente vergonha e repugnância de si mesmo. Toma seu lugar junto ao computador e, antes de iniciar mais um dia de trabalho, começa a escrever:
- Somos perfeitos, conseguimos tudo, ou quase tudo de que precisamos para estar de bem com a vida, mas corremos em busca de mais. E nos esquecemos de que tantos precisam do que para nós seria tão pouco. Corremos tanto em busca de tantas coisas que, conquistadas, são esquecidas em um canto qualquer, como inútil troféu de alguma conquista apagada nas páginas do jornal envelhecido.
- Às vezes, somos tristes, distribuímos o mau-humor, insatisfeitos, irritadiços e ansiosos, sem olhar para tantos que vivem esparramando alegria alicerçados numa vida simples, voltada para a natureza, no sadio convívio de um modesto lar, onde as crianças brincam até o final da tarde quando o pai chega para abraçá-las, oferecendo-lhes o pouco que conquista com muito amor.
- Quantas vezes passamos eretos, com a mente atribulada pelo trabalho, de olho no relógio, sem olhar para o lado, sem ver a dose profunda de sacrifício, dedicação e amor que movem a esperança de outros, vinculados ao labor humilde, à modesta vestimenta, à parca alimentação, mas que encontram a alegria e até o lazer no próprio trabalho, na própria maneira de ser, de viver.
- Passamos sem saber que, talvez esses ao nosso lado, a quem nenhuma importância atribuímos, não saíram de casa sem agradecer a Deus pela vida e pelo que ela proporciona a cada dia, a cada momento. Não vemos que nos mais humildes podemos encontrar o entusiasmo que nos falta, a força de vontade de que precisaremos para encarar os dias que virão. Esses que sempre acreditam que os dias efetivamente virão, e já estão felizes, só por isso.
- Quantas vezes voltamos para casa, acabrunhados, tensos, indispostos por qualquer imprevisto no trabalho, e perdemos maravilhosas oportunidades de desfrutar de divinas mensagens representadas pelas crianças com seus brinquedos, suas flores e seus pequenos animais.
- Oh Deus, peço ajuda para superar a vergonha que sinto de minha pobreza espiritual. Senhor permita-me conseguir um pouquinho da riqueza desses que parecem não ter nada, e me ensinam tanto, em tão poucos minutos. Na verdade, agora vejo que têm muito, muito mais que eu. São os verdadeiros ricos, que vivem felizes... Obrigado Senhor.
PECAJO
Um privilegiado executivo apresentava esse comportamento periodicamente e não exibia qualquer escrúpulo ao ignorar ou maltratar as pessoas à sua volta. Num desses dias aziagos, encontrando defeituoso o elevador do prédio, obriga-se a subir pela escada. Num dos corredores funciona uma clínica para crianças portadoras de necessidades especiais. O bem trajado homem, de cara amarrada, com o mau-humor acrescido pela imprevista caminhada, é abordado por uma criança que procura a porta da clínica e que manifesta visível dificuldade para falar e andar. Naquela menina, cujo aparelho de correção da arcada dentária, se sobressai incomodamente, ele vê um largo e espontâneo sorriso. Sente que lhe atingem o coração os acenos de agradecimento daquele surpreendente ser que esparrama alegria e disposição. Ainda estupefato, como se perguntasse “está sorrindo por quê”? Diante daquela inimaginável felicidade, vê aproximar-se um segundo rostinho, também sorridente. Um garoto desprovido de um dos braços, além de extremamente dificultado no andar. O portador de uma perna mecânica lhe oferece um meigo “bom dia” e, após observar sua surpresa, termina de abatê-lo com a simpática pergunta: “O Sr. está bem, precisa de ajuda?”
O homem de terno e maleta importada acena ao garoto e sobe as escadas sem conseguir conter as lágrimas que banham seu rosto. Ele sente que chora, o que não fazia há muito tempo... e chora de vergonha, vergonha de si mesmo. Tenta restabelecer-se reabilitando, quem sabe, o seu mau-humor, mas... nem se lembra do motivo.
Adentra ao seu escritório, nem sente o cansaço da escadaria, somente sente vergonha e repugnância de si mesmo. Toma seu lugar junto ao computador e, antes de iniciar mais um dia de trabalho, começa a escrever:
- Somos perfeitos, conseguimos tudo, ou quase tudo de que precisamos para estar de bem com a vida, mas corremos em busca de mais. E nos esquecemos de que tantos precisam do que para nós seria tão pouco. Corremos tanto em busca de tantas coisas que, conquistadas, são esquecidas em um canto qualquer, como inútil troféu de alguma conquista apagada nas páginas do jornal envelhecido.
- Às vezes, somos tristes, distribuímos o mau-humor, insatisfeitos, irritadiços e ansiosos, sem olhar para tantos que vivem esparramando alegria alicerçados numa vida simples, voltada para a natureza, no sadio convívio de um modesto lar, onde as crianças brincam até o final da tarde quando o pai chega para abraçá-las, oferecendo-lhes o pouco que conquista com muito amor.
- Quantas vezes passamos eretos, com a mente atribulada pelo trabalho, de olho no relógio, sem olhar para o lado, sem ver a dose profunda de sacrifício, dedicação e amor que movem a esperança de outros, vinculados ao labor humilde, à modesta vestimenta, à parca alimentação, mas que encontram a alegria e até o lazer no próprio trabalho, na própria maneira de ser, de viver.
- Passamos sem saber que, talvez esses ao nosso lado, a quem nenhuma importância atribuímos, não saíram de casa sem agradecer a Deus pela vida e pelo que ela proporciona a cada dia, a cada momento. Não vemos que nos mais humildes podemos encontrar o entusiasmo que nos falta, a força de vontade de que precisaremos para encarar os dias que virão. Esses que sempre acreditam que os dias efetivamente virão, e já estão felizes, só por isso.
- Quantas vezes voltamos para casa, acabrunhados, tensos, indispostos por qualquer imprevisto no trabalho, e perdemos maravilhosas oportunidades de desfrutar de divinas mensagens representadas pelas crianças com seus brinquedos, suas flores e seus pequenos animais.
- Oh Deus, peço ajuda para superar a vergonha que sinto de minha pobreza espiritual. Senhor permita-me conseguir um pouquinho da riqueza desses que parecem não ter nada, e me ensinam tanto, em tão poucos minutos. Na verdade, agora vejo que têm muito, muito mais que eu. São os verdadeiros ricos, que vivem felizes... Obrigado Senhor.
PECAJO
domingo, abril 29, 2007
Educação Sexual

Todos os anos têm alunas 'tontinhas' que engravidam e depois sabe-se lá como vão criar seus filhos. A maioria é menor de idade e de juízo, o rapaz não assume nada e, nenhum dos dois trabalha.
Ano retrasado perguntei a uma aluna, da oitava série, como ela ia criar o seu filho, respondeu-me: "Minha mãe cria".
Semana passada, um amigo me disse que é contra o aborto, mas que se negou a assinar uma lista sobre o assunto, pois ele se pergunta o que será dos filhos gerados e nascidos sem planejamento. Detalhe, ele é agente penitenciário em uma das penitenciárias mais problemáticas do Estado. Então, ele sabe onde vai parar boa parte desses bebês gerados de forma irresponsável e criados de qualquer jeito.
Sou professora, e sei muito bem o que acontece com muitos jovens mal criados, mal amados, carentes de quase tudo, o que aprontam nas escolas públicas.
Também sou contra ao aborto. Também falo constantemente, para as alunas principalmente, que elas precisam ser espertas e se cuidar. Informação não falta, mas a conscientização anda bem longe da maioria desses jovens. Também é preciso analisar o meio ambiente em que eles vivem. As histórias dos bailes funkies que os próprios alunos contam é de arrepiar: meninas vão sem calcinha para transar com todo mundo, droga rola solto, e todo mundo bate em todo mundo. Na periferia esse ritmo é uma epidemia. Hoje o lema da maioria dos jovens da periferia é: sexo, drogas e funkie. Modernidade, minha gente! Mas a alienação continua a mesma.
Bunda? Eu?
Quem disse que sou só uma bunda? E que ela precisa estar atrevidamente em pé, caso contrário, devo siliconizá-la?
Quem disse que só preciso de peito empinado?
Quem disse essas babaquices?
Eu sou mulher inteira: cabeça, tronco e membros! Tenho idéias, pensamento lógico, sentimentos, desejos, frustrações... mas tenho principalmente consciência de quanto valho e de quem sou.
Recuso-me a aceitar que uma BUNDA me represente!!! Não admito ser reduzida a um corpo produzido artificialmente!!! Revolto-me ao ouvir dizer sobre a mulher apenas pelas suas qualidades aparentes!!! E afinal a mulher só tem peito e bunda?????? Não eu!!!
Se posso recorrer à plástica para rejuvenescer, claro que o farei! Quando a Lei da Gravidade fizer minhas protuberâncias caírem, se me aprouver, as levantarei! Procurarei meu Cirurgião Plástico que já em casos de queimadura minha filha socorreu, sem que isto seja uma Olímpica competição para cumprir o Padrão Tchan!!!
Sou fã do Ácido Retinóico, da Vitamina C, do Ácido Glicólico, da Uréia, da Semente de Uva, da minha dermato (que é meu Pilar!), mas pretendo é um aspecto mais plácido e compatível com meu interior que é sempre adolescente.
Tenho mãos que sabem aconchegar e afagar... Tenho pernas que me levam ao encontro do Amar... Tenho lábios que sempre anseiam por beijar.. Tenho ventre que já abrigou filhos... Tenho braços de abraçar... Tenho um corpo inteiro e nele habitam vísceras, músculos, veias, alma, paixão e razão.
Acho lindo um belo corpo torneado, pele viçosa, músculos delineados, cabelos sedosos, e todos devemos nos empenhar em ter saúde, beleza, destreza, flexibilidade. Porém ser só corpo, e mutilado que só de bunda e peito se compõe, é idiotia, aberração, ou melhor, covardia e ilusão.
Lembro-me que faz pouco tempo a Mulher Bunda foi considerada a representante da Mulher Brasileira. Recuso-me a ser por este tipo de mulher representada!
Que luxo seria estabelecer como Mulher Padrão Brasileira a maravilhosa Fernanda Montenegro, ou Irene Ravache, quem sabe Marina Colassanti. Mais jovem, rebelde e inesquecível? Leila Diniz, que exibiu com sensualidade e orgulho seu ventre dilatado pela gravidez. Que tal Carolina Ferraz? Bonita, charmosa, sensual, inteligente, elegante, sensível, apaixonada, mãe carinhosa e que em recente entrevista à revista QUEM afirma: “Eu não tenho mérito nenhum em minha beleza... Não existe mágica para nada. Acho que na vida temos que ter bom humor e disciplina... Os meus músculos são de carregar Valentina... E tem mais: "eu filmo mais musculosa do que realmente sou..." e finaliza "Eu gosto de ter prestígio e sucesso pelos meus méritos... Pois é, a beleza não pode tirar a atenção."
É, se mulher objeto é o padrão, quero jamais ser citada, prefiro ser ridicularizada por ter 54 anos, escrever poesias, crer no Amor e pagar caro pela minha independência, e ainda ser considerada decadente por não ter extraído dinheiro ou viver à sombra do poder do ex-marido patrocinador.
Magda Almodóvar
Quem disse que só preciso de peito empinado?
Quem disse essas babaquices?
Eu sou mulher inteira: cabeça, tronco e membros! Tenho idéias, pensamento lógico, sentimentos, desejos, frustrações... mas tenho principalmente consciência de quanto valho e de quem sou.
Recuso-me a aceitar que uma BUNDA me represente!!! Não admito ser reduzida a um corpo produzido artificialmente!!! Revolto-me ao ouvir dizer sobre a mulher apenas pelas suas qualidades aparentes!!! E afinal a mulher só tem peito e bunda?????? Não eu!!!
Se posso recorrer à plástica para rejuvenescer, claro que o farei! Quando a Lei da Gravidade fizer minhas protuberâncias caírem, se me aprouver, as levantarei! Procurarei meu Cirurgião Plástico que já em casos de queimadura minha filha socorreu, sem que isto seja uma Olímpica competição para cumprir o Padrão Tchan!!!
Sou fã do Ácido Retinóico, da Vitamina C, do Ácido Glicólico, da Uréia, da Semente de Uva, da minha dermato (que é meu Pilar!), mas pretendo é um aspecto mais plácido e compatível com meu interior que é sempre adolescente.
Tenho mãos que sabem aconchegar e afagar... Tenho pernas que me levam ao encontro do Amar... Tenho lábios que sempre anseiam por beijar.. Tenho ventre que já abrigou filhos... Tenho braços de abraçar... Tenho um corpo inteiro e nele habitam vísceras, músculos, veias, alma, paixão e razão.
Acho lindo um belo corpo torneado, pele viçosa, músculos delineados, cabelos sedosos, e todos devemos nos empenhar em ter saúde, beleza, destreza, flexibilidade. Porém ser só corpo, e mutilado que só de bunda e peito se compõe, é idiotia, aberração, ou melhor, covardia e ilusão.
Lembro-me que faz pouco tempo a Mulher Bunda foi considerada a representante da Mulher Brasileira. Recuso-me a ser por este tipo de mulher representada!
Que luxo seria estabelecer como Mulher Padrão Brasileira a maravilhosa Fernanda Montenegro, ou Irene Ravache, quem sabe Marina Colassanti. Mais jovem, rebelde e inesquecível? Leila Diniz, que exibiu com sensualidade e orgulho seu ventre dilatado pela gravidez. Que tal Carolina Ferraz? Bonita, charmosa, sensual, inteligente, elegante, sensível, apaixonada, mãe carinhosa e que em recente entrevista à revista QUEM afirma: “Eu não tenho mérito nenhum em minha beleza... Não existe mágica para nada. Acho que na vida temos que ter bom humor e disciplina... Os meus músculos são de carregar Valentina... E tem mais: "eu filmo mais musculosa do que realmente sou..." e finaliza "Eu gosto de ter prestígio e sucesso pelos meus méritos... Pois é, a beleza não pode tirar a atenção."
É, se mulher objeto é o padrão, quero jamais ser citada, prefiro ser ridicularizada por ter 54 anos, escrever poesias, crer no Amor e pagar caro pela minha independência, e ainda ser considerada decadente por não ter extraído dinheiro ou viver à sombra do poder do ex-marido patrocinador.
Magda Almodóvar
sexta-feira, abril 27, 2007
Noturno
Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!
Antero de Quental
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...
Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...
A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!
Antero de Quental
Fome no Ceará
I
Lançai o olhar em torno;
Arde a terra abrasada
Debaixo da candente abóbada dum forno.
Já não chora sobre ela orvalho a madrugada;
Secaram-se de todo as lágrimas das fontes;
E na fulva aridez aspérrima dos montes,
Entre as cintilações narcóticas da luz,
As árvores antigas
Levantam para o ar – atléticas mendigas,
Fantasmas espectrais, os grandes braços nus.
Na deserta amplidão dos campos luminosos
Mugem sinistramente os grandes bois sequiosos.
As aves caem já, sem se suster nas asas.
E, exaurindo-lhe a força enorme que ela encerra,
O Sol aplica à Terra
Um cáustico de brasas.
O incêndio destruidor a galopar com fúria,
Como um Átila, arrasta a túnica purpúrea
Nos bosques seculares;
E, Lacoontes senis, os troncos viridentes
Torcem-se, crepitando entre as rubras serpentes
Com as caudas de fogo em convulsões nos ares.
O Sol bebeu dum trago as límpidas correntes;
E os seus leitos sem água e sem ervagens frescas,
Co'as bordas solitárias,
Têm o aspecto cruel de valas gigantescas
Onde podem caber muitos milhões de párias.
E entre todo este horror existe um povo exangue,
Filho do nosso sangue,
Um povo nosso irmão,
Que nas ânsias da fome, em contorções hediondas,
Nos estende através das súplicas das ondas
Com o último grito a descarnada mão.
E por sobre esta imensa, atroz calamidade,
Sobre a fome, o extermínio, a viuvez, a orfandade,
Sobre os filhos sem mãe e os berços sem amor,
Pairam sinistramente em bandos agoireiros
Os abutres, que são as covas e os coveiros
Dos que nem terra têm para dormir, Senhor!
E sabei – monstruoso, horrível pesadelo! –
Sabei que aí – meu Deus, confranjo-me ao dizê-lo! –
Vêem-se os mortos nus lambidos pelos cães,
E os abutres cruéis com as garras de lanças,
Rasgando, devorando os corpos das crianças
Nas entranhas das mães!
II
Quando inda há pouco o vendaval batia
Dos grandes montes nos robustos flancos;
E as nuvens, como enormes ursos brancos,
Em tropel pela abóbada sombria
Dos canhões dos titãs, aos solavancos,
Arrastavam a rouca artilharia;
Quando os rios, indômitos, escuros,
Iam como ladrões saltando os muros,
Para roubar ao camponês o pão;
E, cruzando-se, os raios flamejantes
Abriam como esplêndidas montanhas
De meio a meio a funda escuridão;
Quando os ventos aspérrimos, frenéticos
Como ciclopes doidos, epilépticos,
Com raivas convulsivas
Perseguiam, bramindo, às chicotadas,
Das retumbantes ondas explosivas
As trôpegas manadas;
Quando entre os gritos roucos da procela,
A fome – a loba – escancarava a goela
Uivando às nossas portas;
E andavam sobre as águas desumanas
Com os despojos tristes das choupanas
Berços vazios de crianças mortas;
Oh! nesse instante, ao ver o povo exânime,
Pulsou da pátria o coração unânime,
Um coração de mãe piedosa e boa...
E das imensas lágrimas choradas
Muitíssimas então foram guardadas
Entre as jóias da c'roa.
Mas é certo também que além dos mares
Alguém ouviu, alguém, cortando os ares
Essa terrível dor;
E esse alguém é quem hoje, é quem agora
Morto de fome a soluçar implora
Mais do que o nosso auxílio – o nosso amor.
Vamos! Abri os corações, abri-os!
Transborde a caridade como os rios
Transbordaram dos leitos em Janeiro!
Nem pode haver decerto mão avara,
Que a esmola negue a quem lh'a deu primeiro.
A miséria é um horrível sorvedoiro;
Vamos! enchei-o com punhados d'oiro,
Mostrando assim aos olhos das nações
Que é impossível já hoje (isto consola)
Morrer de fome alguém, pedindo esmola
Na mesma língua em que a pediu Camões!
Guerra Junqueiro
Nota - Poema extraído do livro A Musa em Férias, da 2ª edição de
OBRAS de Guerra Junqueiro (Poesia), Organização e introdução de
Amorim de Carvalho. Porto: Lello & Irmãos - Editores, 1974, pp.
744-747. Este poema é de 1877, justamente quando se inicia a
terrível seca de 1877-1879 no Nordeste e que no Ceará foi até o
ano de 1880. Afirma Rodolpho Theophilo, que a estudou
demoradamente, que o obituário de Fortaleza no período elevou-se a
65.163 pessoas. Fortaleza possuía então por volta de 20 mil almas,
que foram acrescidas subitamente de cerca de 110 mil migrantes da
seca. Herbert Smith, jornalista inglês que percorria o Brasil
àquela época, foi testemunha ocular dessa seca e afirma com algum
exagero que “durante 1877 e 1878, a mortandade no Ceará foi
provavelmente perto de 500 mil, ou mais da metade da população”.
[Brazil: The Amazons and Coast. New York: Charles Scriber’s Sons,
1879, p. 416]. No poema, Guerra Junqueiro faz alusão à célebre
frase que Dom Pedro II teria pronunciado acerca das jóias de sua
coroa... ( Fortaleza, 1º de Janeiro de 1998, Eduardo Diatahy B. de
Menezes)
http://www.revista.agulha.nom.br/gjunqueiro02p.html
Lançai o olhar em torno;
Arde a terra abrasada
Debaixo da candente abóbada dum forno.
Já não chora sobre ela orvalho a madrugada;
Secaram-se de todo as lágrimas das fontes;
E na fulva aridez aspérrima dos montes,
Entre as cintilações narcóticas da luz,
As árvores antigas
Levantam para o ar – atléticas mendigas,
Fantasmas espectrais, os grandes braços nus.
Na deserta amplidão dos campos luminosos
Mugem sinistramente os grandes bois sequiosos.
As aves caem já, sem se suster nas asas.
E, exaurindo-lhe a força enorme que ela encerra,
O Sol aplica à Terra
Um cáustico de brasas.
O incêndio destruidor a galopar com fúria,
Como um Átila, arrasta a túnica purpúrea
Nos bosques seculares;
E, Lacoontes senis, os troncos viridentes
Torcem-se, crepitando entre as rubras serpentes
Com as caudas de fogo em convulsões nos ares.
O Sol bebeu dum trago as límpidas correntes;
E os seus leitos sem água e sem ervagens frescas,
Co'as bordas solitárias,
Têm o aspecto cruel de valas gigantescas
Onde podem caber muitos milhões de párias.
E entre todo este horror existe um povo exangue,
Filho do nosso sangue,
Um povo nosso irmão,
Que nas ânsias da fome, em contorções hediondas,
Nos estende através das súplicas das ondas
Com o último grito a descarnada mão.
E por sobre esta imensa, atroz calamidade,
Sobre a fome, o extermínio, a viuvez, a orfandade,
Sobre os filhos sem mãe e os berços sem amor,
Pairam sinistramente em bandos agoireiros
Os abutres, que são as covas e os coveiros
Dos que nem terra têm para dormir, Senhor!
E sabei – monstruoso, horrível pesadelo! –
Sabei que aí – meu Deus, confranjo-me ao dizê-lo! –
Vêem-se os mortos nus lambidos pelos cães,
E os abutres cruéis com as garras de lanças,
Rasgando, devorando os corpos das crianças
Nas entranhas das mães!
II
Quando inda há pouco o vendaval batia
Dos grandes montes nos robustos flancos;
E as nuvens, como enormes ursos brancos,
Em tropel pela abóbada sombria
Dos canhões dos titãs, aos solavancos,
Arrastavam a rouca artilharia;
Quando os rios, indômitos, escuros,
Iam como ladrões saltando os muros,
Para roubar ao camponês o pão;
E, cruzando-se, os raios flamejantes
Abriam como esplêndidas montanhas
De meio a meio a funda escuridão;
Quando os ventos aspérrimos, frenéticos
Como ciclopes doidos, epilépticos,
Com raivas convulsivas
Perseguiam, bramindo, às chicotadas,
Das retumbantes ondas explosivas
As trôpegas manadas;
Quando entre os gritos roucos da procela,
A fome – a loba – escancarava a goela
Uivando às nossas portas;
E andavam sobre as águas desumanas
Com os despojos tristes das choupanas
Berços vazios de crianças mortas;
Oh! nesse instante, ao ver o povo exânime,
Pulsou da pátria o coração unânime,
Um coração de mãe piedosa e boa...
E das imensas lágrimas choradas
Muitíssimas então foram guardadas
Entre as jóias da c'roa.
Mas é certo também que além dos mares
Alguém ouviu, alguém, cortando os ares
Essa terrível dor;
E esse alguém é quem hoje, é quem agora
Morto de fome a soluçar implora
Mais do que o nosso auxílio – o nosso amor.
Vamos! Abri os corações, abri-os!
Transborde a caridade como os rios
Transbordaram dos leitos em Janeiro!
Nem pode haver decerto mão avara,
Que a esmola negue a quem lh'a deu primeiro.
A miséria é um horrível sorvedoiro;
Vamos! enchei-o com punhados d'oiro,
Mostrando assim aos olhos das nações
Que é impossível já hoje (isto consola)
Morrer de fome alguém, pedindo esmola
Na mesma língua em que a pediu Camões!
Guerra Junqueiro
Nota - Poema extraído do livro A Musa em Férias, da 2ª edição de
OBRAS de Guerra Junqueiro (Poesia), Organização e introdução de
Amorim de Carvalho. Porto: Lello & Irmãos - Editores, 1974, pp.
744-747. Este poema é de 1877, justamente quando se inicia a
terrível seca de 1877-1879 no Nordeste e que no Ceará foi até o
ano de 1880. Afirma Rodolpho Theophilo, que a estudou
demoradamente, que o obituário de Fortaleza no período elevou-se a
65.163 pessoas. Fortaleza possuía então por volta de 20 mil almas,
que foram acrescidas subitamente de cerca de 110 mil migrantes da
seca. Herbert Smith, jornalista inglês que percorria o Brasil
àquela época, foi testemunha ocular dessa seca e afirma com algum
exagero que “durante 1877 e 1878, a mortandade no Ceará foi
provavelmente perto de 500 mil, ou mais da metade da população”.
[Brazil: The Amazons and Coast. New York: Charles Scriber’s Sons,
1879, p. 416]. No poema, Guerra Junqueiro faz alusão à célebre
frase que Dom Pedro II teria pronunciado acerca das jóias de sua
coroa... ( Fortaleza, 1º de Janeiro de 1998, Eduardo Diatahy B. de
Menezes)
http://www.revista.agulha.nom.br/gjunqueiro02p.html
Assinar:
Postagens (Atom)