terça-feira, junho 30, 2009

Livro: Origens do discurso democrático - Donaldo Schuler

A base da democracia antiga é o discurso. Palavras dirigem homens, constroem cidades, desvendam mistérios, abrem rotas à liberdade. Reflexão e ação política se desenvolveram juntas. Mobilidade discursiva e imprevisibilidade humana floresceram juntas. A própria palavra se impôs à reflexão. As inquietações de então, ainda nos perturbam. Retornar à Grécia é abrir veredas no cipoal de nossas dúvidas. A literatura grega é o lugar para se refletir sobre as virtudes do discurso e as ameaças à democracia.

Donaldo Schuler é doutor em Letras e livre-docente pela universidade Federal do Rio Grande so Sul.

domingo, junho 28, 2009

Difícil arte de ser mulher

Hours concours em Cannes, um dos filmes de maior sucesso no badalado festival francês foi "Ágora", direção de Alejandro Amenabar. A estrela é a inglesa Rachel Weiz, premiada com o Oscar 2006 de melhor atriz coadjuvante em "O jardineiro fiel", dirigido por Fernando Meirelles.

Em "Ágora" ela interpreta Hipácia, única mulher da Antiguidade a se destacar como cientista. Astrônoma, física, matemática e filósofa, Hipácia nasceu em 370, em Alexandria. Foi a última grande cientista de renome a trabalhar na lendária biblioteca daquela cidade egípcia. Na Academia de Atenas ocupou, aos 30 anos, a cadeira de Plotino. Escreveu tratados sobre Euclides e Ptolomeu, desenvolveu um mapa de corpos celestes e teria inventado novos modelos de astrolábio, planisfério e hidrômetro.

Neoplatônica, Hipácia defendia a liberdade de religião e de pensamento. Acreditava que o Universo era regido por leis matemáticas. Tais ideias suscitaram a ira de fundamentalistas cristãos que, em plena decadência do Império Romano, lutavam por conquistar a hegemonia cultural.

Em 415, instigados por Cirilo, bispo de Alexandria, fanáticos arrastaram Hipácia a uma igreja, esfolaram-na com cacos de cerâmica e conchas e, após assassiná-la, atiraram o corpo a uma fogueira. Sua morte selou, por mil anos, a estagnação da matemática ocidental. Cirilo foi canonizado por Roma.

O filme de Amenabar é pertinente nesse momento em que o fanatismo religioso se revigora mundo afora. Contudo, toca também outro tema mais profundo: a opressão contra a mulher. Hoje, ela se manifesta por recursos tão sofisticados que chegam a convencer as próprias mulheres de que esse é o caminho certo da libertação feminina.

Na sociedade capitalista, onde o lucro impera acima de todos os valores, o padrão machista de cultura associa erotismo e mercadoria. A isca é a imagem estereotipada da mulher. Sua autoestima é deslocada para o sentir-se desejada; seu corpo é violentamente modelado segundo padrões consumistas de beleza; seus atributos físicos se tornam onipresentes.

Onde há oferta de produtos - TV, internet, outdoor, revista, jornal, folheto, cartaz afixado em veículos, e o merchandising embutido em telenovelas - o que se vê é uma profusão de seios, nádegas, lábios, coxas etc. É o açougue virtual. Hipácia é castrada em sua inteligência, em seus talentos e valores subjetivos, e agora dilacerada pelas conveniências do mercado. É sutilmente esfolada na ânsia de atingir a perfeição.

Segundo a ironia da Ciranda da bailarina, de Edu Lobo e Chico Buarque, "Procurando bem / todo mundo tem pereba / marca de bexiga ou vacina / e tem piriri, tem lombriga, tem ameba / só a bailarina que não tem". Se tiver, será execrada pelos padrões machistas por ser gorda, velha, sem atributos físicos que a tornem desejável.

Se abre a boca, deve falar de emoções, nunca de valores; de fantasias, e não de realidade; da vida privada e não da pública (política). E aceitar ser lisonjeiramente reduzida à irracionalidade analógica: "gata", "vaca", "avião", "melancia" etc.

Para evitar ser execrada, agora Hipácia deve controlar o peso à custa de enormes sacrifícios (quem dera destinasse aos famintos o que deixa de ingerir...), mudar o vestuário o mais frequentemente possível, submeter-se à cirurgia plástica por mera questão de vaidade (e pensar que este ramo da medicina foi criado para corrigir anomalias físicas e não para dedicar-se a caprichos estéticos).

Toda mulher sabe: melhor que ser atraente, é ser amada. Mas o amor é um valor anticapitalista. Supõe solidariedade e não competitividade; partilha e não acúmulo; doação e não possessão. E o machismo impregnado nessa cultura voltada ao consumismo teme a alteridade feminina. Melhor fomentar a mulher-objeto (de consumo).

Na guerra dos sexos, historicamente é o homem quem dita o lugar da mulher. Ele tem a posse dos bens (patrimônio); a ela cabe o cuidado da casa (matrimônio). E, é claro, ela é incluída entre os bens... Vide o tradicional costume de, no casamento, incluir o sobrenome do marido ao nome da mulher.

No Brasil colonial, dizia-se que à mulher do senhor de escravos era permitido sair de casa apenas três vezes: para ser batizada, casada e enterrada... Ainda hoje, a Hipácia interessada em matemática e filosofia é, no mínimo, uma ameaça aos homens que não querem compartir, e sim dominar. Eles são repletos de vontades e parcos de inteligência, ainda que cultos.

Se o atrativo é o que se vê, por que o espanto ao saber que a média atual de durabilidade conjugal no Brasil é de sete anos? Como exigir que homens se interessem por mulheres que carecem de atributos físicos ou quando estes são vencidos pela idade?

Pena que ainda não inventaram botox para a alma. E nem cirurgia plástica para a subjetividade.
Frei Betto
[Autor de "A arte de semear estrelas" (Rocco), entre outros livros].

sábado, junho 06, 2009

Meus escritores preferidos: Matha Medeiros

Martha Medeiros (1961) é gaúcha de Porto Alegre, onde reside desde que nasceu. Fez sua carreira profissional na área de Propaganda e Publicidade, tenho trabalhado como redatora e diretora de criação em várias agências daquela cidade. Em 1993, a literatura fez com que a autora, que nessa ocasião já tinha publicado três livros, deixasse de lado essa carreira e se mudasse para Santiago do Chile, onde ficou por oito meses apenas escrevendo poesia.
De volta ao Brasil, começou a colaborar com crônicas para o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, onde até hoje mantém coluna no caderno ZH Donna, que circula aos domingos, e outra — às quartas-feiras — no Segundo Caderno.
Seu primeiro livro, Strip-Tease (1985), Editora Brasiliense - São Paulo foi o primeiro de seus trabalhos publicados. Seguiram-se Meia noite e um quarto (1987), Persona non grata (1991), De cara lavada (1995), Poesia Reunida (1998), Geração Bivolt (1995), Topless (1997) e Santiago do Chile (1996). Seu livro de crônicas Trem-Bala (1999), já na 9ª edição foi adaptada com sucesso para o teatro, sob direção de Irene Brietzke. A autora é casada e tem duas filhas.


Livro: Divã - Martha Medeiros

Cronista consagrada no sul do país, admirada por intelectuais e poetas, Martha Medeiros, que já vendeu 50 mil livros, combina irreverência e lirismo em textos curtos e contemporâneos. Autora de 11 livros, a autora faz sua estréia na ficção com DIVÃ.
Na verdade, o mundo inventado por sua protagonista é abertamente inspirado na realidade que ela captura em suas deliciosas crônicas. DIVÃ conta a história de Mercedes — uma mulher com mais de 40, casada, filhos — que resolve fazer análise. O que começa como uma simples brincadeira acaba por se transformar num ato de libertação; poético, divertido, devastador. Marinheira de primeira viagem em terapia, a personagem encara o consultório como se fosse uma espécie de alfândega que vai dar o visto para ela passar para o lado mais oculto de sua personalidade.
Ao deitar-se no divã, Mercedes não hesita em alertar o terapeuta: "Sou tantas que mal consigo me distinguir. Sou estrategista, batalhadora, porém traída pela comoção. Num piscar de olhos fico terna delicada. Acho que sou promíscua, doutor Lopes. São muitas mulheres numa só, e alguns homens também. Prepare-se para uma terapia de grupo."
Dona de um texto simples e brilhante, Martha nos seduz com uma narrativa envolvente e catalisadora. O leitor que a princípio se transforma numa espécie de voyeur, é levado por espiral de acontecimentos reveladores. Ao final da leitura se vê cúmplice das loucuras, conflitos e questões existenciais da personagem, e se dá conta que ele também, em vários momentos, estava deitado em seu próprio divã.
Mercedes é uma mulher que se parece um pouco com qualquer mulher. Divertida, pragmática, inteligente e sim, por que não? Superfeminina. É do tipo corajosa, daquelas que não têm medo de nada. Capaz de administrar bem a casa, os filhos, o marido e até mesmo seus ataques de vaidade. Ela nos parece muito segura de si, daquelas que possuem controle sobre tudo. Será?
Ao se deitar naquele divã, Mercedes se dá conta de suas armadilhas cotidianas. Ao entrar neste jogo catártico, ela nos confidencia que a liberdade é atraente quando nos parece uma promessa, mas pode nos enlouquecer quando se cumpre.



Filme: Divã

A atriz Lilia Cabral encarou o desafio e reviveu, no cinema, as dores e delícias de Mercedes, protagonista da peça "Divã", baseada no romance de Martha Medeiros, que ficou três anos em cartaz e foi vista por 175 mil pessoas. No filme homônimo, de José Alvarenga, Lilia volta a viver a mulher de 40 anos que, sem saber bem o porquê, procura um analista. O longa estreou no início de 2009.

domingo, maio 31, 2009

Curiosidades sobre o cérebro e o corpo

Que o cérebro é o órgão mais fascinante que nós temos, disso eu não tenho dúvida, mas então, porque não sabermos mais sobre essa maravilha? O conhecimento nunca é demais, por isso veja essas curiosidades sobre o nosso ” Celebro “…

Você sabia que o cérebro é constituído por mais de 10 milhões de células e que ele pesa cerca de 1,5kg? O cérebro de um recém-nascido cresce quase 3 vezes o seu tamanho durante o primeiro ano! Os humanos têm o cérebro mais complexo de qualquer criatura na Terra.

O cérebro humano é o que possui mais pregas de todos os seres vivos. Por isso, se o estendesse-mos, mediria aproximadamente 2 metros, enquanto que o cérebro de um gorila, apesar de ter o mesmo peso, só mediria uma quarta parte do tamanho do cérebro humano.

Os cientistas calcularam que a velocidade de um pensamento é de 240 km/h! Como se calcula velocidade de pensamento?

Se não exercitarmos o que aprendemos, esquecemos 25% em seis horas, 33% em 24 horas e 90% em seis meses.

O olho humano é capaz de distinguir 10.000.000 de diferentes tonalidades.

Com uma média de 70 batidas por minuto, o coração bate 37 milhões de vezes por ano.

Cada soluço dura menos de 1 segundo e ocorrem com uma frequência normal e regular de 5 a 25 vezes por minuto. O livro dos recordes menciona um soluço que durou 57 anos.

A força necessária para dar três espirros consecutivos, queima exatamente o mesmo numero de calorias que um orgasmo.

Uma pessoa normal tem á volta de 1.460 sonhos por ano.

O cabelo cresce cerca de 0,6 cm por mês e mais depressa pela manhã do que em qualquer outra hora do dia.

Uma piscadela de olho dura, em média, um décimo de segundo.

Mais de metade dos ossos do corpo humano estão nas mãos e nos pés.

A mão humana tem 27 ossos e 35 músculos.

Em cada 2,54 cm de pele humana, existem 19 milhões de células, 60 pelos, 90 glândulas sebáceas, 5,79 metros de vasos sangüíneos, 625 glândulas sudoríparas e 19 mil células nervosas.

Uma pessoa possui, em média, gordura corporal suficiente para fazer duas dúzias de sabonetes.

Durante uma vida, a nossa pele é renovada aproximadamente 1.000 vezes.

Durante o tempo que demorou a ler esta frase 50.000 células do teu corpo morreram e foram substituídas por células mais novas.

O coração de uma pessoa com 75 anos já bateu mais de 2.737.500.000 de vezes.

Um adulto médio produz cerca de meio litro de gás flatulento por dia, resultando numa média de 14 ocorrências flatulentas por dia.

Os destros vivem em média 9 anos a mais do que os canhotos.

O coração bombeia o sangue com uma pressão suficiente para o esguichar a uma altura de 9 metros.

Apenas uma pessoa em cada 2 bilhões viverá mais de 1 1 6 anos.

Uma pessoa pisca os olhos aproximadamente 25 mil vezes por dia.

Se uma pessoa usar “headphones” durante mais de uma hora, o número de bactérias do ouvido aumenta 700 vezes.

O coração humano bate mais de 100.000 vezes por dia!

Por cada sílaba que o homem fala, 72 músculos entram em movimento. Para sorrir, são utilizados 14 músculos. Para beijar, 29.

Os pulmões contêm quase 2400 quilômetros de vias aéreas e mais de 300 milhões de alvéolos.

Se você mantiver, à força, os olhos abertos durante um espirro, é possível que eles saiam das órbitas.

O músculo mais potente do corpo humano é a língua.Que 'máquina' maravilhosa é o nosso corpo!


Isso me faz lembrar meu professor de Filosofia, lá no ensino médio. Ele dizia: " O Homem é uma unidade psico-somática". Pois essa bela máquina, sem a alma, o sopro de vida, não é nada, apesar de toda a sua complexidade.

sábado, maio 30, 2009

sexta-feira, maio 29, 2009

Li "O Leitor" de Bernhard Schlink

Um dos melhores livros que li em minha vida.
Saí de casa para assistir o filme, mas já tinha saído de cartaz aqui na cidade. Não tive dúvida, ao lado do cinema tem uma livraria, comprei o livro.
Ainda emprestei para a amiga que me acompanhava, pois estava terminando outro.
O autor, Bernhard Schlink, é alemão, advogado e professor de filosofia. Parece que ele senta-se ao lado da gente e começa a contar a sua história, seu primeiro amor, as leituras de livros que fazia para ela, o abandono, o reencontro em situações inesperadas, a continuação das leituras, agora gravadas em um gravador e enviadas a ela. E um desfecho inesperado para uma história tão rica.
Recomendo!

sábado, maio 23, 2009

O caminho de Abraão

Abrir a mente para novas falas, a alma para abrigar o “outro”, libertar-se de convenções e de formatos preestabelecidos, enfim, tirar os sapatos, que protegem o homem, mas também isolam e evitam o contato com um chão de muitas verdades e possibilidades. Foi traçando a rota seguida por Abraão, patriarca das três religiões monoteístas – cristianismo, judaísmo e islamismo – que o rabino Nilton Bonder, com os pés no chão, aprendeu que mais importante que o destino da viagem é o caminho percorrido. Em 2006, Bonder foi convidado a participar, ao lado de 23 representantes de diferentes países e religiões, de uma peregrinação pelo Oriente Médio: é O Caminho de Abraão, projeto do Departamento de Mediação de Conflitos da Universidade de Harvard, que visa a apoiar a abertura de uma extensa rota de turismo histórico e cultural para refazer a jornada deste importante personagem pela região - que vive em tensão permanente - há cerca de quatro mil anos. Em Tirando os sapatos, o rabino relata suas experiências durante a caminhada.

O relato é apresentado de duas formas distintas: uma é um diário de viagem, no qual Bonder descreve suas impressões dos locais por que passou e da convivência com o eclético grupo – formado por pessoas de diversas crenças e religiões – com que conviveu, extraído de uma longa entrevista à jornalista Tania Menai. A outra representa a sua viagem espiritual, que mostra suas etapas de estranhamento ao se defrontar, durante a peregrinação, com diferentes significados que a trajetória de Abraão tem para as três religiões.

Mais que um destino turístico, O Caminho de Abraão tem o potencial de promover o desenvolvimento comunitário, a formação de lideranças jovens, a preservação do patrimônio histórico e do meio ambiente e uma imagem positiva da região na mídia, destacando a hospitalidade de seu povo e, mais importante, o encontro entre pessoas e o diálogo entre religiões diversas. Diálogo que começou no próprio grupo de Bonder. Apesar de a maioria dos participantes ter uma visão neutra da região, havia quem tivesse definida inclinação pelo mundo árabe: um xeque turco, um padre italiano radicado na Síria e um paquistanês islâmico. Este último nutria opiniões muito radicais sobre Israel e mostrou-se bastante incomodado quando soube que Bonder é judeu.

Foi uma viagem de alguma tensão para Bonder, que teve que omitir quase o tempo todo sua condição de rabino para poder circular pela região. A solução para aliviar esta pressão foi não reagir àquilo que o rejeita, abrir-se para o ponto de vista do outro, muitas vezes indo de encontro ao que pensava, incluindo as do paquistanês, de quem, por fim, conseguiu virar colega, após longa troca de idéias.

Também foi por meio desta convivência que Bonder ouviu teorias interessantes como a de que os conflitos religiosos no Oriente Médio teriam uma explicação geológica, segundo uma profissional de Harvard: a área é uma área turbulenta, incluindo o Mar Morto, a região mais baixa do planeta. Ali ocorrem muitas movimentações tectônicas devido à presença de um cinturão sísmico. Curiosamente, todas as regiões do mundo com movimentos tectônicos são áreas de alta espiritualidade: a Califórnia, os Andes, o México, o Himalaia. Áreas geologicamente instáveis ativam, no ser humano, a necessidade espiritual. A estabilidade traz acomodação.

Diferentemente de um turista comum, o peregrino aprende mais no trajeto: o que importa é estar sempre em movimento, mesmo que não se saiba qual é a chegada, o ponto final da viagem. É durante o caminho que ele aprende a se desfazer da bagagem – que representa, assim como os sapatos, a identidade do indivíduo, uma forma de proteção da pessoa em relação ao desconhecido. O importante aqui é, como fez Bonder, jogar-se na interação com o lugar e, principalmente, com as pessoas. Não ter medo de perder a identidade. É por meio da alteridade, de olhar o mundo pelo olhar do outro, que se pode desfazer de sapatos, bagagens, preconceitos e intolerâncias.

Foi a partir desta visão que Bonder identificou como as religiões vêem a importância e a história de Abraão de formas diferentes e desenvolveu o conceito de “paralelismo histórico”. A História não obedeceria necessariamente a uma cronologia rígida, em que um evento vem antes do outro, estabelecendo um único fluxo que comporta uma única verdade: “A História não é tão consecutiva e cronológica como me haviam ensinado e como eu a percebia. Há um paralelismo na História. Coisas acontecem ao mesmo tempo, ou mais do que isso, enquanto coisas estão acontecendo para um grupo estão também acontecendo para o outro. Não há apenas um acontecimento sobre o qual se possa determinar a autoria e patrimônio.”

Com 1.200 quilômetros, a rota tem início nas ruínas de Haran, na Turquia, local onde, acredita-se, o patriarca ouviu pela primeira vez o chamado de Deus. E se estende por todo o Oriente Médio, incluindo cidades históricas como Alepo, Damasco, Jericó, Nablus, Belém e Jerusalém, e regiões de grande riqueza natural e cultural como as colinas do Líbano, a região de Ajloun da Jordânia e o deserto de Grajev, em Israel. No trajeto, encontram-se alguns dos locais mais sagrados do mundo. O ponto alto é a cidade de Hebron/ Al Khalil, local do túmulo de Abraão. Futuramente, o caminho será estendido para englobar as idas e vindas de Abraão rumo ao Egito, Iraque e, para os muçulmanos, Meca, na Arábia Saudita. O Caminho de Abraão é um projeto em andamento e mais informações podem ser encontradas em www.abrahampath.org.

TIRANDO OS SAPATOS – Nilton Bonder - Editora Rocco - 2008

sábado, maio 09, 2009

Que tipo de livro vc é?

Faça o teste clicando no link abaixo:

http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/testes/livro-nacional.shtml?perg=1

sábado, maio 02, 2009

Um asteróide pode chocar com a Terra em 2014?

Parece filme de ficção científica, mas não é. Muita gente não sabe, que um asteróide com cerca de 1 km de diâmetro, poderá estar em rota de colisão com a Terra em 21 de março de 2014. O acontecimento, embora tenha sido divulgado inicialmente em 2003, permanece viável até hoje. Para quem não sabe, segundo agências britânicas, responsáveis pelo controlo de objetos potencialmente perigosos para a Terra, o impacto do objeto sobre o nosso planeta, seria o equivalente ao lançamento de 20 milhões de bombas atômicas, capazes de causar um grande estrago.

Mas calma. Antes de pensar que é o fim de tudo, é bom saber que há grandes hipóteses de que tudo não passe de um grande susto. De acordo com a BBC, seu diâmetro corresponde a cerca de um décimo da massa do meteorito que, segundo os cientistas, extinguiu todos os dinossauros da superfície da Terra. Além disso, as chances deste corpo celeste atingir nosso planeta são de apenas de uma em 250 mil.

O 2003, o QQ47, como é conhecido, é formado por vários pedaços de pedra que permaneceram no espaço, resultado da formação do Sistema Solar. Até passar perto da Terra, o asteróide viajará a uma velocidade de 1 15 mil km/h e será seguido constantemente pelos especialistas. É aguardar para ver o que acontece.


Conclusão: Gosto muito de astronomia, não perco a oportunidade de assistir documentários na TV ou ler algo aqui na net. Até faço parte de grupos de astrônomos virtuais. E a gente aprende uma lição muito básica: os corpos celestes têm um ciclo de vida como nós seres biológicos. Uma estrela, por exemplo, nasce, cresce, tem um longo tempo de vida e um dia... morre.Aliás, eu acho isso lindíssimo e, é algo para se pensar. Então, nosso maravilhoso sol, uma estrela de quinta grandeza, um dia esfriará, tornando inviável nossa permanência aqui. Com base nisso, sempre considerei o final dos tempos bíblico, apenas um alerta de que a natureza é feita de ciclos e que a vida se renova, nada mais que isso. Se a raça humana sobreviverá? É só ler nas entrelinhas da natureza, o planeta passou por muitas mudanças durante eras, mas a vida nunca se extinguiu, nem na época de Noé... e até o sol esfriar, muita coisa acontecerá em termos de desenvolvimento tecnológico e humano. A pista? Está lá na Bíblia: um novo céu e uma nova terra.

terça-feira, março 31, 2009

O viver melhor ou o bem viver?

Na ideologia dominante, todo mundo quer viver melhor e desfrutar de uma melhor qualidade de vida. Comumente associa esta qualidade de vida ao Produto Interno Bruto (PIB) de cada pais. O PIB representa todas as riquezas materiais que um país produz. Se este é o critério, então os países melhor colocados são os Estados Unidos, seguidos do Japão, Alemanha, Suécia e outros. Este PIB é uma medida inventada pelo capitalismo para estimular a produção crescente de bens materiais a serem consumidos.

Nos últimos anos, dado o crescimento da pobreza e da urbanização favelizada do mundo e até por um senso de decência, a ONU introduziu a categoria IDH, o "Índice de Desenvolvimento Humano". Nele se elencam valores intangíveis como saúde, educação, igualdade social, cuidado para com a natureza, equidade de gênero e outros. Enriqueceu o sentido de "qualidade de vida" que era entendido de forma muito materialista: goza de boa qualidade de vida quem mais e melhor consome.
Consoante o IDH a pequena Cuba apresenta-se melhor situada que os EUA, embora com um PIB comparativamente ínfimo.

Acima de todos os países está o Butão, espremido entre a China e Índia aos pés do Himalaia, muito pobre materialmente mas que estatuiu oficialmente o "Índice de Felicidade Interna Bruta". Este não é medido por critérios quantitativos mas qualitativos, como boa governança das autoridades, eqüitativa distribuição dos excedentes da agricultura de subsistência, da extração vegetal e da venda de energia para a Índia, boa saúde e educação e especialmente bom nível de cooperação de todos para garantir a paz social.

Nas tradições indígenas de Abya Yala, nome para o nosso Continente indioamericano ao invés de "viver melhor" se fala em "bem viver". Esta categoria entrou nas constituições da Bolívia e do Equador como o objetivo social a ser perseguido pelo Estado e por toda a sociedade.

O "viver melhor" supõe uma ética do progresso ilimitado e nos incita a uma competição com os outros para criar mais e mais condições para "viver melhor". Entretanto para que alguns pudessem "viver melhor" milhões e milhões têm e tiveram que "viver mal". É a contradição capitalista.

Contrariamente, o "bem viver" visa a uma ética da suficiência para toda a comunidade e não apenas para o indivíduo. O "bem viver" supõe uma visão holística e integradora do ser humano inserido na grande comunidade terrenal que inclui além do ser humano, o ar, a água, os solos, as montanhas, as árvores e os animais; é estar em profunda comunhão com a Pacha Mama (Terra), com as energias do universo e com Deus.

A preocupação central não é acumular. De mais a mais, a Mãe Terra nos fornece tudo que precisamos. Nosso trabalho supre o que ele não nos pode dar ou a ajudamos a produzir o suficiente e decente para todos, também para os animais e as plantas. "Bem viver" é estar em permanente harmonia com o todo, celebrando os ritos sagrados que continuamente renovam a conexão cósmica e com Deus.

O "bem viver" nos convida a não consumir mais do que o ecossistema pode suportar, a evitar a produção de resíduos que não podemos absorver com segurança e nos incita a reutilizar e reciclar tudo o que tivermos usado. Será um consumo reciclável e frugal. Então não haverá escassez.

Nesta época de busca de novos caminhos para a humanidade a idéia do "bem viver" tem muito a nos ensinar.

Leonardo Boff

* Teólogo, filósofo e escritor

segunda-feira, março 30, 2009

Voar!

"Não me deem fórmulas certas,

porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim,

porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou,

não me convidem a ser igual,

porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade,

não sei viver de mentiras,

não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma,

mas com certeza não serei

a mesma pra sempre!

Gosto dos venenos mais lentos,

das bebidas mais amargas,

das drogas mais poderosas,

das ideias mais insanas,

dos pensamentos mais complexos,

dos sentimentos mais fortes.

Tenho um apetite voraz

E os delírios mais loucos.

Você pode até me empurrar de um penhasco

que eu vou dizer:
- E daí? Eu adoro voar!".



CLARICE LISPECTOR

quinta-feira, março 12, 2009

Excomungamos...

Excomungamos todos aqueles que multiplicam sua renda através da especulação financeira, principais responsáveis pela crise atual, com todos os males que ela provoca, tornando mais miseráveis os pobres e mais poderosos os ricos...
Excomungamos todos os "paraísos fiscais", onde o trabalho da imensa multidão anônima se converte em ouro, em dólares e em capital para uso de poucos...

Excomungamos o sistema capitalista de produção e sua filosofia liberal que, ao longo da história, se nutre da exploração dos recursos naturais, do trabalho humano e do patrimônio cultural dos povos...

Excomungamos todos aqueles que acumulam fazenda sobre fazenda, casa sobre casa, criando imensos latifúndios improdutivos ou mansões vazias, ao lado de milhões de pessoas famintas e sem terra e sem teto...

Excomungamos os responsáveis pelos assassinatos no campo e na cidade, não somente os que empunham a arma do crime, mas com maior razão os que pagam para matar...

Excomungamos todos os políticos que, apoiados pelo voto popular, usam do poder em benefício próprio e de seus apadrinhados, traindo aqueles que o elegeram e corrompendo os canais da participação popular...

Excomungamos todo Estado que alimenta um exército de soldados e burocratas e, ao mesmo tempo, deixa cada vez mais precários os serviços públicos, substituindo-os com políticas compensatórias...

Excomungamos todos os traficantes de droga, de pessoas humanas ou de órgãos humanos, que mercantilizam a vida e causam a destruição da família e de todos os laços fraternos de solidariedade...

Excomungamos todas as milícias paramilitares e a "banda podre" das polícias porque, a cada ano, ceifam a vida de milhares de jovens e adolescentes...

Excomungamos todos os tiranos que a ferro e fogo ainda reinam sobre a face da terra, assentados em tronos de ouro, construídos com o sangue, o suor e as lágrimas de seus súditos...

Excomungamos todos os mega-projetos, agro e hidro negócios, que devastam a natureza, contaminam o ar e as águas e, no afã de acumular poder e riqueza, reduzem drasticamente a biodiversidade sobre o planeta Terra...

Excomungamos todos os pedófilos, estupradores, sequestradores e seus cúmplices que não só escandalizam os inocentes, mas os convertem em objeto de prazer e de lucro...

Excomungamos a violência do homem sobre a mulher e as crianças, não raro encoberta pela inviolabilidade do lar e da família e que, aos milhões, esconde hematomas, cicatrizes e traumas sem remédio...

Excomungamos os que fazem de seus carros uma arma que fere, mutila e mata e que seguem impunes pelas ruas com suas máquinas velozes e letais...

Excomungamos todo tipo de exploração do trabalho humano, transformando mulheres e homens em peças descartáveis de uma engrenagem que se alimenta de carne humana...

Excomungamos todo sistema prisional que, pela superlotação, pelos abusos e pela tortura, avilta a pessoa humana e faz da prisão uma verdadeira escola do crime...

Excomungamos todas injustiças e assimetrias realizadas em nome da "democracia liberal", pois a história tem sido testemunha de que essas duas expressões são incompatíveis...

Pe. Alfredo J. Gonçalves *
* Assessor das Pastorais Sociais.

Enfim! 27 escravagistas condenados por prática de trabalho escravo

Em ato exemplar, esperado da Justiça brasileira por muitos anos, o Juiz Federal de Marabá, Carlos Henrique Borlido Haddad, despachou no último dia 5 de março, 32 sentenças em ações penais movidas por prática de trabalho escravo, um crime definido pelos artigos 149, 203 e 207 do Código Penal. Em 26 sentenças condenatórias, 27 pessoas receberam penas que variam entre três anos e quatro meses e 10 anos e seis meses de prisão, com média de cinco anos e quatro meses: são quase todos proprietários do sul e sudeste do Pará, além de alguns gerentes e agenciadores de mão-de-obra. Outras oito pessoas, em seis ações, foram absolvidas.

À origem dessas ações estão 32 fiscalizações realizadas pelo Ministério do Trabalho entre os anos 1999 e 2008, libertando cerca de 500 escravos (sendo 431 somente nas terras dos réus hoje condenados), em atividades de desmatamento, roço de pasto e carvoaria, em propriedades localizadas principalmente nos municípios de Itupiranga, Marabá, São Felix do Xingu, Rondon do Pará e Rio Maria. Metade das denúncias foi colhida pela CPT junto a trabalhadores fugitivos procurando socorro.

Paradoxo? Consta no rol dos atuais condenados o gerente da fazenda Lagoa das Vacas, em São Félix do Xingu, cujo dono, Aldimir Lima Nunes, vulgo ‘Branquinho’, ganhou Habeas Corpus junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 28/06/2007 após condenação à prisão pela mesma Justiça Federal de Marabá, pelo mesmo crime e por crimes agravantes (incluindo ameaças de morte contra autoridades e contra agentes da CPT).

Embora passíveis de recursos cuja tramitação poderá gastar anos, tais sentenças criminais constituem uma verdadeira revolução no panorama de impunidade irrestrita de que se beneficiaram até hoje os escravagistas modernos no Brasil, uma situação amplamente denunciada nacional e internacionalmente e que só começou a ser revertida após a decisão do STF, em 30/11/2006, atribuindo à Justiça federal a competência para julgar este crime.

A indefinição que prevalecia até então garantia aos réus a possibilidade de recursos sem fim, até conseguir a prescrição do crime. Em virtude dessa brecha legal mantida por décadas com o consentimento do Judiciário, centenas de criminosos deixaram de ser julgados, muitos deles reincidindo mais de uma vez no mesmo crime. Menos de dez deles receberam pena privativa de liberdade.

Na ausência de possibilidade legal de confiscar a propriedade de tais criminosos (enquanto o Congresso protelar a aprovação da PEC 438/2001), as únicas punições aplicadas até hoje têm resultado de condenações pecuniárias pronunciadas pela Justiça do Trabalho ou dos efeitos dissuasivos oriundos da inclusão dos proprietários na "Lista Suja", frustrando dramaticamente as metas da política nacional de erradicação do trabalho escravo.

Das 445 fiscalizações realizadas no Pará entre 1995 e 2008, com efetiva libertação (11.035 libertados), somente 204 geraram Ação Penal, sendo 144 efetivadas entre 2007 e 2008. No Tocantins, equiparado com o Mato Grosso e o Maranhão nesse deplorável ranking, 107 fiscalizações do mesmo período libertaram 1.909 escravos, mas resultaram em somente 21 Ações Penais.

Tamanho déficit na ação da justiça resulta cumulativamente da não-conclusão de centenas de Inquéritos criminais de competência da Polícia Federal, da inércia do Ministério Público, da lerdeza calculada do Judiciário. Por outro lado, para explicar essa incipiente retomada, reconhece o Juiz Haddad: "Tudo decorre da ênfase dada às fiscalizações pelo Ministério do Trabalho e Emprego nos últimos anos. O trabalho do grupo móvel, traduzido nas ações dos procuradores, gerou mais processos na Justiça. A fiscalização mais intensa possibilita que haja mais decisões e punições em casos de trabalho escravo".

As atuais condenações ganham especial relevância no contexto da polêmica latente, alimentada pela CNA (Confederação Nacional da Agricultura e da Pecuária) e sua bancada ruralista, sobre a natureza da escravidão contemporânea no âmbito do "moderno" agronegócio brasileiro, e sobre seu conceito legal. O entendimento expressado pelo Juiz Federal de Marabá está em perfeita sintonia com a letra e o espírito da lei quando afirma que "a lesão à liberdade pessoal provocada pelo crime de redução à condição análoga à de escravo não se restringe a impedir a liberdade de locomoção das pessoas. A proteção prevista em lei dirige-se à liberdade pessoal, na qual se inclui a liberdade de autodeterminação, em que a pessoa tem a faculdade de decidir o que fazer, como, quando e onde fazer", o que não é possível para alguém submetido a condições degradantes ou mesmo a trabalho forçado, as duas hipóteses constitutivas do tipo penal.

Além de irreversíveis danos ao meio ambiente e aos territórios de comunidades tradicionais, o desenfreado avanço do agronegócio sobre as terras do cerrado e da floresta têm resultado até hoje na afronta brutal aos direitos do trabalhador, culminando no recrudescimento do trabalho escravo. Tratados como mero insumo e mercadoria descartável no processo produtivo, 5.244 brasileiros e brasileiras foram libertados da escravidão em 2008, o segundo recorde histórico desde 1995.

Esse escândalo tem que acabar.

Oxalá a Justiça brasileira acorde de vez e cumpra enfim seu papel constitucional, punindo os verdadeiros criminosos de forma dissuasiva, amparando as vítimas e estimulando a sociedade civil a continuar se mobilizando pelo direito de todos à terra e à dignidade.

Coordenação Nacional da CPT
Campanha Nacional de Prevenção e Combate ao Trabalho Escravo

O Bispo e o Ministro

Nesta quarta-feira, o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, excomungou médicos do SUS que praticaram um aborto numa menina de nove anos estuprada pelo padrasto. Para justificar sua postura, declarou: ‘A lei de Deus está acima de qualquer lei humana. Então, quando uma lei humana, quer dizer, uma lei promulgada pelos legisladores humanos, é contrária à lei de Deus, essa lei humana não tem nenhum valor’. Sobre o mesmo fato, o Ministro Temporão, da Saúde, declarou o seguinte: ‘Fiquei chocado com os dois fatos: com o que aconteceu com a menina e com a posição desse religioso que, equivocadamente, ao dizer que defende uma vida, coloca em risco uma outra tão importante’.
Estamos diante de discursos opostos. Enquanto o bispo afirma que seu discurso é universal e, portanto, se aplica a qualquer situação, o ministro parte da necessidade de se adequar discurso e realidade concreta. Para o bispo, o fato (um aborto) está subordinado ao conceito (o aborto); para o ministro, o fato origina o conceito. O ministro parte da análise de fatos concretos para emitir seu juízo; o bispo engloba fatos concretos dentro de uma conceituação universal.

Aqui não se trata apenas de um embate entre um bispo fundamentalista e um ministro de mentalidade aberta. Trata-se de leituras opostas da realidade. O bispo parte da idéia de que ‘conceitos’ (sagrados) dispensam averiguação de fatos, pois ‘captam’ em si a realidade. A idéia é: ‘Aborto é aborto, em qualquer circunstância’. Ao afirmar que o aborto de uma menina de nove anos, estuprada, constitui um pecado contra a lei divina (e, portanto, universal), o bispo parte do pressuposto de que existe um discurso que ‘capta’ tudo o que existe no mundo, sem nenhuma averiguação de circunstâncias. Essa maneira de pensar está em flagrante oposição ao que nos ensina o maior teólogo do cristianismo, Santo Tomás de Aquino, quando afirma: ‘Nada há na inteligência que não provenha dos sentidos (nossos cinco sentidos corporais)’. Santo Tomás diz que o conhecimento humano, para ser verdadeiro, tem de partir necessariamente da observação (visão, audição, etc.) de fatos.

Ao longo da história ocidental, a não-observância dessa sábia orientação tem originado desastres de enormes dimensões e muitos sofrimentos inúteis. Em nome do conceito ‘heresia’ instalou-se a inquisição, em nome da ‘guerra contra os infiéis’ organizaram-se as cruzadas, em nome da ‘pureza racial’ o nazismo acendeu os fornos de Auschwitz, em nome da ‘war on terror’ Bush - ainda recentemente - mandou invadir o Iraque, em nome da ‘moralidade’ um bispo austríaco declarou - uns dias atrás - que a Katrina (furacão que devastou New Orleans) era um ‘castigo de Deus’ (talvez por causa das clínicas autorizadas de aborto existentes na cidade).

O bispo de Recife está igualmente em descompasso com seus colegas que redigiram, em 2007, o ‘Documento de Aparecida’ baseado no princípio tomista do ‘ver, julgar, agir’. Não se pode agir (nem falar publicamente) sem antes ‘ver’ (observar o fato concreto) e ‘julgar’ (formar uma idéia a partir da observação da realidade). Afirmar, sem pesquisar fatos concretos, que terrorismo é terrorismo, heresia é heresia, homossexualidade é homossexualidade, divórcio é divórcio, guerra santa é guerra santa, aborto é aborto, pode levar a comunidade humana à repetição dos piores desastres.

Os médicos do SUS de Recife, dando seus depoimentos, partiram da averiguação de fatos. O bispo de Recife, pelo contrário, abusa da autoridade e se apropria de um discurso que não lhe compete, ao pregar a desobediência a leis devidamente estabelecidas numa sociedade laica e democrática. É preocupante constatar que esse discurso perigoso não receba o devido repúdio, depois de tantas lições do passado. Tocou-me a palavra do Ministro Temporão quando disse que ficou ‘chocado’. Eu também fiquei.

Eduardo Hoonaert *
* Historiador

sábado, fevereiro 28, 2009

Brasil - É carnaval em mim

Neste Carnaval anseio por folias interiores, de maravilhas indescritíveis, de sinuosos alaridos, de magnificências a dispensar ruídos e palavras. Quero toda a avenida regida por inequívoco silêncio, o baile imponderável em gestos rituais, a euforia estampada em cada sorriso.
Rasgarei a fantasia de minhas pretensões e, despido de hipocrisias, deixarei meu eu mais solidário desfilar alegre pelas recônditas passarelas de minha alma.
Fecharei os ouvidos à estridência dos apitos e, mente alerta, escutarei o ressoar melódico do mais íntimo de mim mesmo. Deixarei cair as máscaras do ego e, nas alamedas da transparência, farei desfilar, soberba, a penúria de minha condição humana.
Aplaudirei os sambistas com fogo nos pés e as mulatas eletrizadas pelo ritmo da batucada. Mas não me deixarei arrastar pelo bloco da concupiscência. Inebriado pelo ritmo agônico da cuíca, serei o mais iconoclasta dos discípulos de Momo, recolhido ao vazio de minha própria imaginação.
Neste Carnaval serei figurante na escola da irreverência e desfilarei pelas ruas meu incontido solipsismo, até cessar a bateria que faz dançar os fantasmas que me povoam. Envolto na desfantasia do real, atirarei confetes aos foliões e perseguirei os voos das serpentinas para que impregnem de colorido as diatribes de meu ceticismo.
No estertor da madrugada, farei ébrias confidências à Colombina e, Arlequim apaixonado, ofertarei as pétalas que me recobrem o coração. Não porei olhos no desfile da insensatez, nem abrirei alas à luxúria do moralismo. Quando a porta-bandeira desfraldar encantos, ficarei ajoelhado na ala das baianas para reverenciar o Almirante Negro.
Ao eco dos tamborins, esperarei baixar a sofreguidão que me assalta, buscarei a euforia do espírito no avesso de todas as minhas crenças, exibirei em carros alegóricos as íngremes ladeiras da montanha dos sete patamares.
Darei vivas à vida severina, riscarei Pasárgada de meu mapa e, ainda que não me chame Raimundo, farei da rima solução de tantos impasses nesse devasso mundo. Expulsarei de meu camarote todos os incrédulos do Pai Nosso cegos aos direitos do pão deles.
Revestido de inconclusas alegorias, sairei no cordão das premonições equivocadas e, vestido de Pierrô, aguardarei sentado na esquina que a noite se dissolva em epifânica aurora.
Ao passar o corso da incompletude, abrirei as gaiolas da compaixão para ver o céu coberto pela revoada de anjos. Trocarei as marchinhas por aleluias e encharcarei de perfume os monges voláteis incrustados em minhas imprudências.
Olhos fixos no esplendor das batucadas siderais, contemplarei o desfile fulgurante dos astros na Via Láctea. Verei o sol, mestre-sala, inflamar-se rubro à dança elíptica da cabrocha Terra. Se Deus der as caras, festejarei a beatífica apoteose.
No cortejo dos Filhos de Gandhy, evocarei os orixás de todas as crenças para que a paz se irradie sobeja. Do alto do trio elétrico, puxarei o canto devocional de quem faz da vida a arte de semear estrelas.
Entoado o alusivo, darei o grito da paz, pronto a fazer da comissão de frente o prenúncio do inefável. No reverso do verso, cunharei promissoras notícias e, no quesito harmonia, farei a víbora e o cordeiro beberem da mesma fonte.
Meu enredo terá a simplicidade de um haicai, a imponência de um poema épico, a beleza das histórias recontadas às crianças. De adereços, o mínimo: a felicidade de quem pisa os astros distraído.
Farei da nudez a mais pura revelação de todas as virtudes; assim, ninguém terá vergonha de mostrar o que Deus não teve de criar, e a culpa será redimida pelo amor infindo. A rainha da bateria virá tão bela quanto uma vitória-régia pousada numa lagoa despudoramente límpida. Sua beleza interior suscitará assombro.
A evolução da escola culminará em revolução: a fantasia se fará realidade assim como o sertão há de vir amar e o mar de ser tão pellegrinamente pão do espírito.
Neste Carnaval não haverei de me embriagar de etílicos prazeres nem me deixarei arrastar pelos clóvis a disseminar o medo entre alegrias. Irei aos bailes rituais e me submeterei às libações subjetivas, ofertarei ao Mistério cálices de clarividências e iluminuras gravadas em hóstias.
Enclausurado na comunhão trinitária, ingressarei na festa que se faz de fé e na qual toda esperança extravasa no amor que não conhece dor. Então a palavra se fará verbo, o verbo, carne, e a carne será transubstanciada em festival perene - Carnaval.
Frei Betto *
[Autor, em parceria com Marcelo Barros, de "O amor fecunda o Universo - ecologia e espiritualidade" (Agir), entre outros livros].

domingo, janeiro 25, 2009

Sobre Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é considerado o maior escritor realista do Brasil e, provavelmente, o maior escritor da literatura brasileira. Nasceu numa família muito humilde e, para ajudar a família, começou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional em 1856. De 1858 em diante escreve para diversos jornais importantes com regularidade.
Dentre suas principais obras estão seus contos (O Alienista e A Cartomante estão entre os mais famosos) e os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro. Foi o principal fundador da Academia Brasileira de Letras e o seu primeiro presidente. A crônica brasileira moderna tem, em Machado de Assis, um dos seus principais fundadores. Machado escrevia suas crônicas sob pseudônimos. Só 40 anos após sua morte é que se descobriu o verdadeiro autor das chamadas Crônicas de Lélio.
Na crônica abaixo, Machado de Assis aborda com ironia a questão da abolição da escravatura, que havia ocorrido no dia 13 de maio de 1888.




Crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888.

Bons dias!

Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

- Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que...
- Oh! meu senhô! fico.
- ...Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...
- Artura não qué dizê nada, não, senhô...
- Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
- Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.


Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.

O meu plano está feito; quero ser deputado,e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.

Boas noites.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Maestro John Neschling é demitido da OSESP

A maravilhosa OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) esteve em dezembro de 2008, na praia do Gonzaga, em Santos, apresentando seu concerto de final de ano. Foi um espetáculo maravilhoso.
Mas, parece que vivemos uma nova era de ditadura, de "cala a boca” onde as pessoas não podem falar o que pensam, emitir opiniões, sem serem perseguidas ou punidas por isso. Claro que tal atitude casa bem com um político morno como o ex presidente da república Fernando Henrique que eu não sei o que está fazendo na direção da OSESP. Todas as vezes que um político é 'colocado' em algum cargo público por qualquer razão que não a correta, corre-se o risco de ver mais uma politicagem e das grandes. Pois foi o que aconteceu recentemente com a mais importante orquestra do Brasil e seu magnífico regente John Neschling. Demitido via e-mail, deixou os fãs ardorosos da orquestra e de seu maestro estarrecidos. Protestos do mundo inteiro estão chegando, pois nenhum cidadão civilizado e politizado pode aceitar tal comportamento de um ex presidente, que vamos falar a verdade, de grande só tem a pose.
Tudo começou com uma entrevista dada pelo maestro ao jornal O Estado de São Paulo, que criticou a administração da OSESP. Mas que diabo, não se pode mais dizer o que se pensa nesse país?
Neschling está na Grécia, e só vai comentar o acontecido após retornar ao Brasil.
O maestro já havia comunicado que só permaneceria no cargo até 31 de outubro de 2010, mas, por causa da entrevista dada ao Estadão, a sua saída foi adiantada. Claro que o governador de São Paulo, José Serra, está por trás disso.
Mais um ato de politicagem vergonhosa para o nosso país. Quem vai perder com isso? A população com certeza. Fã de orquestra sinfônica que sou, vi durante décadas algumas brilharem e de repente, caírem no esquecimento por falta de verba e vontade política. A OSESP é um orgulho para o Brasil, mas administrada por um político, o que podemos esperar?
Eu me junto aos que não aceitam tamanho descalabro.

domingo, dezembro 14, 2008

Não desista nunca

Se você não acreditar naquilo que você é capaz de fazer; quem vai acreditar?
Dizer que existe uma idade certa, tempo certo, local certo, não existe.
Somente quando você estiver convicto daquilo que deseja e esta convicção fizer parte integrante do processo.
Mas quando ocorre este momento? Imagine uma ponte sobre um rio.
Você está em uma margem e seu objetivo está na outra.
Você pensa, raciocina, acredita que a sua realização está lá.
Você atravessa a ponte, abraça o objetivo e não olha para traz.
Estoura a sua ponte.
Pode ser que tenha até dificuldades, mas se você realmente acredita que pode realizá-lo, não perca tempo: vá e faça.
Agora, se você simplesmente não quer ficar nesta margem e não tem um objetivo definido, no momento do estouro, você estará exatamente no meio da ponte.
Já viu alguém no meio de uma ponte na hora da explosão... eu também não.
Realmente não é simples.
Quando você visualizar o seu objetivo e criar a coragem suficiente em realizá-lo, tenha em mente que para a sua concretização, alguns detalhes deverão estar bem claros na cabeça ou seja, facilidades e dificuldades aparecerão, mas se realmente acredita que pode fazer, os incômodos desaparecerão.
É só não se desesperar.
Seja no mínimo um pouco paciente.
Pois é, as diferenças básicas entre os três momentos são:
ESTOURAR A PONTE ANTES DE ATRAVESSÁ-LA Você começou a sonhar... sonhar... sonhar! De repente, sentiu-se estimulado a querer ou gozar de algo melhor.
Entretanto, dentro de sua avaliação, começa a perceber que fatores que fogem ao seu controle, não permitem que suas habilidades e competências o realize.
Pergunto, vale a pena insistir?
Para ficar mais tangível, imaginemos que uma pessoa sonhe viver ou visitar a lua, mas as perspectivas do agora não o permitem, adianta ficar sonhando ou traçando este objetivo?
Para que você não fique no mundo da lua, meio maluquinho, estoure a sua ponte antes de atravessá-la, rompa com este objetivo e parta para outros sonhos! ESTOURAR A PONTE NO MOMENTO DE ATRAVESSÁ-LA Acredito que tenha ficado claro, mas cabe o reforço.
O fato de você desejar não ficar numa situação desagradável é válido, entretanto você não saber o que é mais agradável, já não o é! Ou seja, a falta de perspectiva nem explorada em pensamento, não leva a lugar algum. Você tem a obrigação consciencional de criar alternativas melhores.
Nos dias de hoje, não podemos nos dar ao luxo de sair sem destino.
O nosso futuro não é responsabilidade de outrem, nós é que construímos o nosso futuro. Sem desculpas, pode começar...
ESTOURAR A PONTE DEPOIS DE ATRAVESSÁ-LA.
No início comentei sobre as pessoas que realizaram o sucesso e outras que não tiveram a mesma sorte.
Em primeiro lugar, acredito que temos de definir o que é sucesso.
Sou pelas coisas simples, sucesso é gostar do que faz e fazer o que gosta.
Tentamos nos moldar em uma cultura de determinados valores, onde o sucesso é medido pela posse de coisas, mas é muito mesquinho você ter e não desfrutar daquilo que realmente deseja.
As pessoas que realizaram a oportunidade de estourar as suas pontes de modo adequado e consistente, não só imaginaram, atravessaram e encontraram os objetivos do outro lado.
Os objetivos a serem perseguidos, foram construídos dentro de uma visão clara do que se queria alcançar, em tempo suficiente, de modo adequado, através de fatores pessoais ou impessoais, facilitadores ou não, enfim o grau de comprometimento utilizado para a sua concretização.

A visão sem ação, não passa de um sonho.
A ação sem visão é só um passatempo.
A visão com ação pode mudar o mundo.

Martha Medeiros

Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais findo do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado."
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor. Essa palavra de luxo.

Adélia Prado

A maçaneta

Não há mais bela música
Que o ruído da maçaneta da porta
Quando meu filho volta para a casa.

Volta da rua, da vasta noite, da madrugada de estranhas vozes
E o ruído da maçaneta
E o gemer do trinco
O bater da porta que novamente se fecha
O tilintar inconfundível do molho de chaves
são um doce acalanto, uma suave cantiga de ninar.

Só assim fecho os olhos
Posso afinal dormir e descansar.

Oh! A longa espera,
A negra ausência
As historias de acidentes e assaltos
Que só a noite como ninguém sabe contar!
Oh! Os presságios e pesadelos,
O eco dos passos na calçada
A voz dos bêbados na rua
E o longo apito do guarda
Medindo a madrugada,
E os cães, uivando na distância
E o grito lancinante da ambulância!

E o coração descompassado a pressentir
E a martelar
Na arritmia do relógio do meu quarto
Esquadrinhando a noite e seus mistérios.

Nisso, na sala que se cala, estala
a gargalhada jovem
da maçaneta que canta
a festiva cantiga do retorno.
E a sua voz engole a noite imensa
Como todos os ruídos secundários.
-Oh! Os címbalos do trinco
e os clarins da porta que se escancara
e os guizos das muitas chaves que se abraçam
e os festival dos passos que se ganham a escada!

Nem as vozes da orquestra
E o tilintar de copos
E a mansa canção da chuva no telhado
Podem sequer se comparar
Ao som da maçaneta que sorri
Quando meu filho volta.

Que ele retorne sempre são e salvo
Marinheiro depois da tempestade
A sorrir e cantar.
E que na porta a maçaneta cante
A festiva canção do seu retorno
Que soa pra mim
Como suave cantiga de ninar.

Só assim só assim meu coração se aquieta
Posso afinal dormir e descansar.


Gióia Júnior